Mineiridade: a cozinha como um ato de respeito
No Fartura de Conceição do Mato Dentro, chefs unem tradição, ingredientes locais e novas leituras da cozinha mineira em pratos, aulas e encontros com o público
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Que a comida mineira tem identidade, não há como negar. Mas, na sétima edição do Festival Fartura, em Conceição do Mato Dentro, na Região Central de Minas Gerais, chefs reafirmam algo que vai além do sabor: o cozinhar como exercício de respeito ao alimento, às origens e à diversidade de formas de apresentar ingredientes já conhecidos.
Iniciado nessa sexta-feira (22/5), no Largo do Rosário, o evento, que atrai público à praça ao longo do dia, mostra que a gastronomia autoral chama a atenção justamente por propor novas leituras da cozinha.
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É o caso da chef Bruna Rezende, à frente do restaurante Porca Voadora, em Belo Horizonte, que trouxe um jiló empanado e frito acompanhado de caldo de carne com pimenta fermentada coreana.
Já a chef Marina Leite resgata a identidade alimentar de Lapinha da Serra em um bolinho de cordeiro servido com molho doce de tomate e café.
Mas também há espaço para a tradição. Presença constante no evento, o pastel de angu de Lurdinha Majó e Magela leva a receita herdada da avó italiana, conhecida em toda a Serra do Espinhaço. Os ingredientes vêm da região. O tempero leva urucum, alho bem amassado e um molho preparado por Lurdinha com ervas finas e pimenta-malagueta. Depois, três minutos em óleo quente. A receita segue a mesma, preservando o modo de fazer atravessado por gerações.
Realização de um sonho
“Há várias Minas Gerais aqui em Conceição”, diz Guto Corrêa, chef natural de Santa Luzia, na Grande BH, mas que adotou a cidade há quatro anos e, segundo ele, não pretende sair.
Esta é a segunda participação do cozinheiro no evento em Conceição do Mato Dentro, embora ele também já tenha passado pela edição de Belo Horizonte. Guto relembra quando ainda estudava gastronomia e sonhava em fazer parte do Fartura. Para isso, enviou um e-mail à produção e começou como voluntário.
Em 2025, veio o convite para participar do "Cozinha ao Vivo", onde apresentou um hambúrguer artesanal — sua especialidade.
Neste ano, o chef trouxe uma estação com quatro opções inéditas. Entre elas está o “Nuuh”, preparado com pão brioche artesanal produzido na Serra do Cipó, aioli de manjericão, folhas secas, mix de cogumelos, patacone de banana-da-terra e queijo minas artesanal produzido em Conceição do Mato Dentro.
A opção vegetariana, segundo ele, surpreendeu até mesmo quem costuma priorizar carne.
O cardápio inclui ainda fritas artesanais com aioli da casa, farofa crocante de amêndoas e raspas de limão; o “Danado”, com pão ciabatta artesanal, ragu de rabada, folhas frescas, aioli de chimichurri, burrata de búfala e gremolata de salsa; e o “DiVera”, com pão brioche artesanal, blend bovino, bacon, aioli de chimichurri, cebola caramelizada na cerveja preta, cheddar e batata palha artesanal.
“Nós, como profissionais, temos esse papel de tirar as pessoas da zona de conforto e fazer com que experimentem algo novo. E precisamos correr esse risco de levar algo para ser julgado pelo público”, destaca o chef.
Segundo Guto Corrêa, o retorno tem sido positivo e o contato direto faz diferença. “Esse encontro com o público é o que eu acho mais incrível. Foi um dos motivos de eu sair do fundo da cozinha e trabalhar com eventos. É essa troca de experiência”, revela.
Para ele, essa relação também ajuda a construir novas ideias. “Eu trabalhei em restaurante em BH e a gente ficava lá no fundo da cozinha. Não conseguia interagir, ouvir histórias ou contar histórias. E eu acho que essa é a cozinha do mineiro”, afirma.
Ainda neste ano, o chef pretende abrir um gastrobar na cidade, ampliando a atuação para além dos eventos, com sanduíches autorais e uma proposta de cozinha contemporânea.
Quem temperou Minas?
Se a cozinha também é espaço de tradição, a chef Aline Guedes, madrinha desta edição do Fartura, trouxe reflexões sobre a origem da cultura alimentar mineira e brasileira.
Na sexta-feira, ela apresentou na "Cozinha ao Vivo" um arroz de quiabada com costelinha. Com o tema “Quem come quiabo não pega feitiço”, a chef utilizou o preparo como ponto de partida para falar sobre tradições das religiões de matriz africana, em que o quiabo aparece associado à proteção espiritual.
Segundo essa crença, a baba do ingrediente funciona simbolicamente como um filtro capaz de impedir que energias negativas se fixem.
O tema foi apenas a porta de entrada para discutir a presença da cultura africana na formação alimentar brasileira, uma herança que persiste em ser apagada da história.
“Eu queria realmente trazer toda essa minha referência de cultura alimentar, das minhas pesquisas, dos meus pais, dos meus avós. Minha maior alegria foi ver as pessoas parando para ouvir porque falar sobre questões quilombolas é um assunto muito difícil”, afirma Aline, que também é pesquisadora e especialista em cultura alimentar.
A chef, que já atuou como professora, diz sentir falta dessa troca presencial com o público. “Mostrar aquilo que você sabe e quer compartilhar é uma troca. Hoje eu aprendi muito, talvez mais do que compartilhei, porque a gente entra em contato com realidades e vivências diferentes. Isso também vira aprendizado para mim”, diz.
No sábado (23/5), Aline retornou ao festival com a aula “Heranças negras e quilombolas na cultura alimentar mineira”, destacando ingredientes de origem africana presentes no cotidiano e mostrando como falar sobre comida também significa falar sobre memória, território e formas de produção.
“Comida é cultura. Ela permite retomar memórias, criar conexões e entender mais sobre quem somos. Isso é muito potente”, afirma.
Mineiridade no centro
Ana Gabi, chef à frente do Trintaeum — restaurante que trabalha exclusivamente com produtores mineiros — também levou a identidade alimentar de Minas para o centro da conversa.
Na sexta-feira, ela apresentou uma galinhada na cachaça acompanhada de farofa de laranja. Já no sábado, conduziu a aula “Pequi para quem ama e odeia”.
Segundo a chef, o evento evidencia o interesse do público em aprender e participar. “Não é algo voltado apenas para a imagem de alguém vindo cozinhar. Existe uma relação de apreciação e valorização do trabalho que a gente veio fazer”, aponta.
A proposta da aula foi justamente ampliar as possibilidades de uso de ingredientes tradicionalmente associados a preparos específicos.
“A minha tentativa é expandir a ideia do valor desses ingredientes. Mostrar que o licor de pequi pode servir para cozinhar, que a castanha pode ser utilizada de outras formas e que a polpa não precisa ficar restrita ao arroz com pequi. A gente consegue ampliar a ideia do quanto ele pode ser versátil”, diz.
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O evento vai até este domingo (24/5).