A música de IA que plagiou Taylor Swift, viralizou nas redes e agora não para de tocar nas rádios brasileiras
'A Sina de Ofélia', inspirada em hit da popstar, clona as vozes de Dilsinho e Luísa Sonza e já foi reproduzidas milhares de vezes no rádio, o que pode configurar um crime.
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Ao escutar A Sina de Ofélia, é fácil reconhecer a voz de Luísa Sonza. Logo depois, surge Dilsinho. A popstar e o pagodeiro fazem um dueto improvável, mas convincente. Até você descobrir que nenhum deles cantou essa música de verdade.
A Sina de Ofélia foi produzida com inteligência artificial generativa. Clonaram as vozes dos artistas brasileiros e os puseram para cantar uma tradução para o português de uma música que, na verdade, é de Taylor Swift (The Fate of Ophelia).
Só falta descobrir quem fez tudo isso. A faixa acumula milhões de reproduções nas plataformas de streaming e nas redes sociais, mas sua autoria segue desconhecida — o que é comum no caso de conteúdos feitos com IA.
A Sina de Ofélia foi compartilhada à exaustão no Spotify, Instagram e TikTok. O que quase ninguém parece ter percebido — inclusive os próprios artistas — é que, enquanto fazia sucesso na internet, ela também começava a tocar nas rádios brasileiras, principalmente nas emissoras do interior do país.
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Um relatório da Crowley, empresa de monitoramento e auditoria de rádio, feito a pedido da BBC News Brasil, mostra que a música foi executada 3.064 vezes em 47 estações de rádio.
Mas esse número pode ser ainda maior, visto que a Crowley monitora apenas regiões selecionadas, concentradas nos principais mercados publicitários do país — a região Norte, por exemplo, fica de fora. Além disso, o levantamento considera somente as execuções de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.
Música de IA gerou R$ 50 mil
Ainda assim, não é pouca coisa. A Sina de Ofélia registrou, em alguns meses, um volume de execuções próximo ao que a música mais tocada do país costuma alcançar em uma semana nas estimativas da Crowley.
Além disso, na maioria dos casos, uma exposição desse tamanho é resultado de investimentos maciços de artistas e gravadoras em publicidade nas rádios — o famoso jabá —, enquanto A Sina de Ofélia alcançou esse volume sem que tenha sido identificado qualquer tipo de financiamento.
As execuções, de toda forma, geraram ao menos R$ 50 mil em lucros, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, responsável por arrecadar e distribuir os direitos autorais de execuções públicas de músicas no Brasil — no rádio, na televisão, na internet, em eventos como o Carnaval ou na sonorização de espaços públicos como shopping centers.
O dinheiro está retido. O Ecad informou à reportagem que ainda não sabe o que fazer com os valores arrecadados, já que, em tese, não há um autor a quem os R$ 5 mil possam ser repassados.
É possível que, em algum momento, o valor seja redistribuído entre artistas cadastrados na instituição e que atualmente estejam em rotação nas rádios — o que renderia não mais do que algumas dezenas de reais para cada.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, A Sina de Ofélia pode ser considerada uma fraude, e sua reprodução nas rádios pode configurar crime.
Caso seja descoberto e processado, seu autor pode sofrer sanções civis — como indenização ligadas a perdas financeiras e a danos à imagem dos artistas — e criminais — que podem incluir pena de prisão de até três anos.
As emissoras que estão tocando a música também podem ser punidas, segundo o advogado Guilherme Valente, especialista em direito autoral pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual.
"No rádio, existe curadoria, então há uma responsabilidade maior, porque alguém está escolhendo as músicas que vão ao ar, diferentemente de uma plataforma de conteúdo criado pelo usuário, como os aplicativos de streaming, em que qualquer um pode compartilhar uma música. O grau de responsabilidade é diferente", ele diz.
Artistas estão em silêncio
A reportagem procurou os artistas que foram alvo dessa fraude — Luísa Sonza e Dilsinho, por terem suas vozes clonadas, e Taylor Swift, por ter sua composição e melodia copiadas.
Informalmente, as equipes de Sonza e Dilsinho disseram estar surpresas e afirmaram que nem sequer sabiam que isso estava acontecendo. A faixa, afinal, não está tocando nos grandes centros onde ficam seus escritórios, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Nenhum dos dois, porém, respondeu aos questionamentos da reportagem ou quis gravar entrevista.
A BBC também procurou a Sony Music, gravadora que representa Sonza; a Som Livre, responsável por Dilsinho; e a Universal Music, que representa Swift no Brasil e nos Estados Unidos. Nenhuma das empresas respondeu.
A reportagem também não obteve resposta da rádio que mais reproduziu A Sina de Ofélia, segundo o relatório da Crowley: a Mega FM, de Ribeirão Preto, no interior paulista.

Caso expõe um fenômeno mais amplo
Para a superintendente do Ecad, Isabel Amorim, A Sina de Ofélia é apenas "a ponta do iceberg" do avanço da IA generativa na indústria musical.
Com poucos cliques, vale lembrar, é possível transformar em música até um texto sem qualquer sonoridade, escolhendo detalhes como o gênero da canção, a velocidade e outros elementos sonoros.
A avaliação de Amorim encontra respaldo nos dados da Deezer, uma das maiores plataformas de streaming musical e, até o momento, a única a divulgar um relatório sobre a presença da IA generativa em seu acervo.
Segundo a empresa, metade das faixas adicionadas diariamente à plataforma é gerada por IA. O fenômeno atingiu seu pico em junho, quando mais de 45 mil dos 90 mil cadastros realizados correspondiam a músicas desse tipo.
As demais plataformas não divulgam dados semelhantes, o que impede uma comparação mais ampla. Mas os números da Deezer servem como termômetro, já que a maioria das canções são cadastradas simultaneamente em diferentes serviços de streaming — há empresas pagas para fazer essa distribuição, aliás.
Os dados da Deezer retratam um cenário global, mas os números do Ecad ajudam a dimensionar o fenômeno no Brasil.
Entre janeiro e agosto, 62.292 músicas criadas com IA tiveram seus royalties retidos pela instituição, entre elas a faixa que plagiou uma música de Taylor Swift.
A maior parte das retenções ocorreu por reproduções em streaming, categoria que inclui as redes sociais, como mostra o gráfico abaixo. Mas as rádios também aparecem nesse cenário, respondendo por 5% dos valores retidos.
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), que representa cerca de 3.000 emissoras no país, diz não interferir na programação de seus associados, mas afirma orientá-los a não reproduzir músicas feitas por IA.
Rodolfo Salema, diretor de assuntos jurídicos e regulatórios da entidade, avalia que o caso de A Sina de Ofélia parece isolado e que não há outras músicas do tipo sendo executadas pelas rádios.
"É algo excepcional, porque a música explodiu e o pessoal ficou meio cego", diz. "Pode ser demanda da audiência, porque a rádio tem até hoje muito pedido de música, e às vezes tem um desconhecimento do pessoal da programação sobre uma discussão maior sobre IA."
A Sina de Ofélia, porém, não está nem entre as músicas com os maiores valores retidos pelo Ecad. As três que aparecem no topo da lista, segundo a instituição, são Comida Feliz, voltada ao público infantil, com o refrão "vamos comer para ficarmos fortes e crescer"; Criando Memórias, sobre afetos e momentos simples da vida; e Um Novo Ser, sobre fé e busca por Deus.
A faixa gospel, aliás, é a única das três que as plataformas de streaming sinalizam como conteúdo gerado por IA e que tem algum crédito de autoria: Hikari de Jesus. O nome, porém, pertence a um personagem que também foi criado por IA, cuja autoria é desconhecida.

Embora nenhuma dessas três músicas copie uma faixa específica, como A Sina de Ofélia, o Ecad questiona a forma como elas foram criadas.
Segundo a instituição, a IA usada para escrever as letras e transformá-las em música se vale de uma grande biblioteca de obras feitas por humanos, que estaria sendo apropriada pelos serviços de IA sem autorização. Por isso, entende que também há uma infração de direitos autorais nesses casos.
"Um músico usa a mixagem para fazer algum arranjo. Isso é natural, como um fotógrafo ajustar a luz da foto com tecnologia. Mas é diferente de não criar nada e copiar o trabalho dos outros", diz Amorim, do Ecad. "Não podem pegar um trabalho dos criadores, colocar num sistema, treinar a máquina e achar que está tudo certo."
A discussão sobre os limites desse uso da IA ainda está em curso, e há um projeto de lei sobre o tema em tramitação no Congresso brasileiro.
Na falta de definições concretas, porém, o Ecad vem acumulando vitórias na Justiça contra estabelecimentos que criaram rádios internas com músicas feitas com IA e alegavam não precisar pagar direitos autorais.
O caso mais emblemático, porém, não chegou ao Judiciário. Foi o da loja de brinquedos Ri Happy, que inicialmente afirmou que deixaria de pagar direitos autorais ao Ecad por usar músicas feitas por inteligência artificial em sua rádio interna, mas depois voltou atrás, conta Amorim.
"A Ri Happy passou por um momento de pensar: 'Ah, não vou pagar porque estou fazendo minhas próprias músicas'. Mas depois repensaram: 'Não, eu preciso continuar contribuindo para a música, para a cultura brasileira, para o trabalho do criador'. O que a gente tem feito é um trabalho muito de conscientização", diz a porta-voz do Ecad.
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As duas Ofélias — e no que consiste um plágio
No caso de A Sina de Ofélia, não estamos diante de uma inspiração difusa em uma grande biblioteca de músicas produzidas por seres humanos ao longo da história, mas de elementos que permitem uma comparação direta com a fonte original.
Além do título e da protagonista — inspirada em Hamlet, de William Shakespeare —, a música mantém a mesma estrutura narrativa e reproduz diversas imagens e ideias de The Fate of Ophelia.
Logo no início, as duas faixas trazem o eu lírico dizendo que foi chamado por um megafone e associando o interlocutor ao fogo.
Depois, as letras chegam à mesma imagem de uma mulher isolada em uma torre, antes de ser resgatada por seu amor.
No refrão, ambas afirmam que esse encontro a salvou da "sina" — ou do "destino" — de Ofélia, que, na obra do dramaturgo inglês, é a morte.
Outras imagens também são preservadas na versão brasileira, como a de se afogar na tristeza e a descrição do amor como uma "cama fria cheia de escorpiões", em inglês, e "um ninho de escorpiões", em português.
Há algumas mudanças. O verso "pledge allegiance to your hands", por exemplo, poderia ser traduzido ao pé da letra como "juro lealdade às suas mãos", mas ganhou contornos mais coloquiais e virou "tô fechada com você, não vou voltar".
Ainda assim, a sequência é a mesma: solidão, chegada do parceiro e resgate. Essa proximidade faz com que A Sina de Ofélia se pareça menos com uma música inspirada na composição de Taylor Swift e mais com uma tradução dela, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
Essa é uma discussão central para diferenciar o que seria uma inspiração do que poderia ser considerado plágio — e, portanto, um crime —, afirma o advogado Guilherme Valente, que também integra a Comissão de Direito das Artes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo.
"Qualquer um pode escrever uma música inspirada na história de Ofélia. Isso não é proibido, até porque a obra já caiu em domínio público. A questão é o grau de similaridade", diz.
Ele explica que o direito autoral não protege uma ideia, mas a forma como ela é expressa. "A ideia não é exclusiva. O que é exclusivo é como se conta essa ideia, a visão que o autor tem dela e como ele coloca tudo no papel."
Isso vale para qualquer produção artística — um filme, um livro ou uma música, embora cada linguagem tenha suas especificidades. O mesmo vale para traduções, acrescenta o especialista.
"A tradução é uma obra derivada, só que, para traduzir uma obra, é preciso ter autorização do autor. Um dos direitos autorais é justamente a exclusividade para adaptar a obra de outras formas — e a tradução é uma adaptação."

Por que a música continua tocando se pode ser um plágio?
Essa é uma pergunta difícil de responder, mas, em linhas gerais, isso se deve ao fato de que os artistas envolvidos — tanto Luísa Sonza e Dilsinho quanto Taylor Swift — não procuraram fazer valer seus direitos.
Pelo contrário: os artistas brasileiros chegaram a se engajar com a música e fizeram vídeos para as redes sociais usando-a como trilha sonora.
Sonza publicou um vídeo dublando a canção, que já ultrapassou 1 milhão de visualizações e reúne 900 mil curtidas, além de ter participado de um vídeo de uma influenciadora dançando a música. Dilsinho também dublou a canção e escreveu no vídeo: "Ué, já lançou?".
Os artistas não responderam à BBC por que decidiram apoiar um conteúdo que pode ser fruto de plágio.
Profissionais da indústria que conversaram com a reportagem em caráter reservado, porém, afirmam que só os custos com advogados para enviar uma notificação extrajudicial a uma emissora de rádio, pedindo que pare de tocar a música, ou a uma plataforma de streaming, solicitando a remoção da faixa de seu catálogo, já são maiores do que o prejuízo financeiro que os artistas possam estar tendo.
Vale lembrar que, embora a canção tenha viralizado na internet e já tenha sido tocada milhares de vezes nas rádios, o Ecad registrou R$ 50 mil em direitos autorais gerados pela faixa — uma cifra ínfima para artistas desse porte.
Além disso, acrescentam os profissionais do setor, os artistas podem até transformar o pequeno prejuízo em oportunidade, aproveitando o sucesso da música para promover sua imagem e, por que não, sua voz, no caso das reproduções nas rádios.
Mas há também um certo limbo na legislação brasileira que é relevante para essa discussão.
Duas leis podem ter impacto sobre o setor: o Marco Civil da Internet, que regula as plataformas de streaming e foi criado em 2014, quase uma década antes da popularização da inteligência artificial generativa; e a Lei de Direitos Autorais, criada em 1998, muito antes não só da IA, mas da própria ideia de streaming.
"O Marco Civil da Internet criou essa regra que a gente chama de safe harbor principle, o princípio do porto seguro. Isso significa que a responsabilidade da plataforma só surge a partir do momento em que há uma decisão judicial mandando remover aquele conteúdo", explica o advogado Guilherme Valente.
"A gente até tem decisões judiciais que dizem que a plataforma é responsável antes de uma decisão judicial, mas precisa ter ao menos uma notificação do titular dos direitos, avisando que há uma violação."

O que dizem as plataformas de streaming
A avaliação do advogado Guilherme Valente — de que os aplicativos não precisam agir antes que um artista reclame seus direitos — é corroborada pelas próprias empresas de streaming.
Procurado pela BBC News Brasil, o Spotify, plataforma de música mais usada no país, não respondeu especificamente sobre A Sina de Ofélia. Em suas diretrizes, porém, a empresa afirma que não consegue determinar sozinha se houve uma infração.
"O Spotify não sabe se o uso da voz de outro artista é um trecho devidamente licenciado ou uma colaboração; portanto, precisamos receber uma reivindicação do artista para saber que a imitação não é autorizada."
A Deezer, outra líder de mercado, também reiterou que precisa de uma "notificação formal" para tomar providências, mas acrescentou que A Sina de Ofélia foi identificada como conteúdo gerado por IA e recebeu um selo.
Segundo a empresa, músicas que recebem essa sinalização ficam fora das recomendações da plataforma, tanto nas playlists editoriais oficiais quanto nas sugestões feitas pelos algoritmos com base no perfil dos usuários.
No YouTube, a regra é semelhante. Após a BBC enviar sete clipes para análise, um deles saiu do ar, enquanto os demais receberam o selo de conteúdo gerado por IA.
Questionada sobre o motivo da remoção, a empresa, que pertence ao Google, afirmou que o canal ao qual o vídeo pertencia havia infringido suas políticas de uso, mas não especificou qual regra havia sido violada.
TikTok e Meta — dona do Facebook e do Instagram — também disseram que podem remover conteúdos após denúncias. A empresa acrescentou que a publicação contínua de material que desrespeita direitos autorais pode levar à desativação da conta do infrator.
Arte e gráficos por Daniel Arce Lopez e Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil
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