Transferência de Bolsonaro para a Papudinha divide políticos mineiros
Enquanto aliados classificam ida para ala da Papudinha como "humilhação" e insistem em prisão domiciliar, opositores celebra transferência do ex-presidente
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A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de transferir o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) da Superintendência da Polícia Federal para a "Papudinha", ala especial do Complexo Penitenciário da Papuda, provocou forte reação entre lideranças políticas de Minas Gerais. De um lado, a base bolsonarista unificou o discurso em torno da tese de "perseguição implacável". Do outro, a esquerda mineira reagiu com um misto de celebração e ironia.
Determinada por Moraes, a transferência levou Bolsonaro para uma ala administrada pela Polícia Militar do Distrito Federal, tradicionalmente destinada a autoridades condenadas, sobretudo policiais e militares. No local, também está preso o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, também condenado por envolvimento na tentativa de golpe de Estado. A Papudinha oferece condições consideradas superiores às da cela ocupada anteriormente por Bolsonaro na PF, com espaço mais amplo, estrutura doméstica básica, cinco refeições diárias e maior flexibilidade para visitas.
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O senador Cleitinho (Republicanos-MG) foi um dos parlamentares que classificou o ato como "perseguição política" e voltou a exigir a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador traçou um paralelo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), lembrando sua estadia na Polícia Federal em Curitiba no âmbito da operação Lava-Jato.
“Engraçado que um ‘descondenado’, condenado em três instâncias por corrupção, ficou na Superintendência da Polícia Federal. Lembrando que o Bolsonaro não fez nada. Isso só mostra que isso é uma perseguição política”, disparou o senador.
Ele ainda citou os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, afirmando que a transferência serviria para “desviar o foco” de notícias envolvendo os magistrados em apurações relacionadas ao Banco Master. Para ele, o caso teria se tornado “pessoal” entre Moraes e Bolsonaro. O senador também cobrou uma reação institucional do Congresso Nacional. “Quem tem que tomar vergonha na cara e intervir são os senadores, nós temos a prerrogativa”, afirmou.
A retórica foi endossada pelos deputados estaduais Bruno Engler e Cristiano Caporezzo, ambos do PL. Engler classificou o episódio como "tortura psicológica", argumentando que, para o STF, Bolsonaro "não é réu, é inimigo".
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Já Caporezzo, que viajou a Brasília e ficou na porta da sede da Polícia Federal, descreveu a transferência como uma "humilhação institucional" contra um ex-chefe de Estado que "deveria estar em casa". “Nunca se viu um chefe de Estado tratado dessa forma. Um homem honrado, que deveria estar em casa, está sendo empurrado para uma bomba-relógio apenas para alimentar a sede de perseguição de Moraes”, disse Caporezzo.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também criticou a transferência, embora tenha reconhecido que, à primeira vista, a nova ala aparenta oferecer melhores condições ao ex-presidente. “Aparentemente, parece ser um espaço melhor, sem barulho e com atendimento médico 24h. Vou apurar com a família se essas condições de fato são melhores”, escreveu. Em seguida, questionou a manutenção da prisão: “Mas a pergunta ainda continua: por que não enviá-lo pra casa? Tudo isso por um crime que ele nunca cometeu”.
Celebração
No campo oposto, a transferência foi recebida com sarcasmo. O deputado federal André Janones (Avante-MG) utilizou a própria retórica bolsonarista para comentar o caso. "Ficou reclamando tanto de ter ar-condicionado, Xandão resolveu e te tirou da ‘tortura’ Papuda lhe espera, boa estadia. Grande dia", escreveu, se apropriando do bordão do ex-presidente.
Já o deputado Rogério Correia (PT-MG) focou nas contradições históricas do discurso de Bolsonaro sobre direitos humanos. "Quem dera todo preso no Brasil tivesse estas condições respeitadas", afirmou, ressaltando o paradoxo de quem, segundo ele, "pregava tortura e prisões superlotadas" agora depender de garantias humanitárias.
A linha foi seguida pelo vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT) e pela deputada estadual Bella Gonçalves (Psol). Enquanto Rousseff expôs o contraste entre a cela especial e a realidade carcerária da maioria da população, questionando o privilégio do ex-presidente, Bella celebrou a medida como um passo para a consolidação democrática: "Sem anistia para golpistas", escreveu.
Até o fechamento desta reportagem, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o vice-governador Mateus Simões (PSD) não haviam comentado a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por cinco crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A pena é de 27 anos e três meses.