HUMOR E LEIS

Dr. Felipe Arthur: advogado debochado viraliza e gera denúncias na OAB

Humorista e ator por trás do personagem diz que não advoga mais e afirma que conteúdo nas redes é apenas entretenimento

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“Doutor, voltei com minha ex. Depois descobri que, nesse tempo solteira, ela gravou vídeos de cunho sexual e agora me sinto um lixo emocionalmente”. Essa é uma das mensagens respondidas pelo perfil Doutor Felipe Arthur nas redes sociais. Quem responde é um homem de camisa social e gravata e tom sério, mas que não poupa palavras para o seguidor. 

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“Quando vocês terminaram, houve a suspensão da eficácia do dever de fidelidade. (...) Artigo 1566, inciso I do Código Civil: sem vínculo, não há infração e o efeito é ex nunc. Ou seja, quem me viu, mentiu. Não retroage. Sua mulher está certa”, explica.

@dr.felipearthur

Ou seja, a trinca-ferro quer voar

som original - Dr. Felipe Arthur

O vídeo quebra a expectativa do que se espera do perfil de um advogado. A verdade é que tudo não passa de um vídeo humorístico. Felipe é realmente advogado, mas faz os vídeos de ficção apenas para entretenimento, não atuando mais como um agente da lei. Mas a confusão é comum e fez com que o ator e humorista fosse denunciado na Ordem dos Advogados do Brasil.

A Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Rio de Janeiro confirmou que recebeu três denúncias contra Felipe Arthur. Todas estão sendo analisadas pelo Tribunal de Ética e Disciplina (TED). Uma representação registrada em São Paulo foi encaminhada ao Rio, onde o advogado é inscrito.

A principal acusação é que o criador de conteúdo estaria usando a página humorística para captar clientes — prática proibida pelo estatuto da profissão. Felipe diz que nunca usou dos vídeos para conseguir novos casos jurídicos e que não advoga desde que o perfil começou a fazer sucesso. 

“Sou artista antes de ser advogado”

Em entrevista ao Estado de Minas, Felipe Arthur afirma que o conteúdo não tem relação com exercício da advocacia e defende que seu trabalho é essencialmente artístico. Segundo ele, sua trajetória profissional começou muito antes do direito, nos palcos.

“Eu comecei a minha carreira profissional como ator. Comecei ainda na juventude, trabalhei como dublador, dançarino. Depois, por um sonho do meu avô materno, eu estudei direito. Na minha família não tinha advogado e eu acabei sendo o único”, conta.

@dr.felipearthur

Bom senso jurídico

som original - Dr. Felipe Arthur

Durante a faculdade, ele deixou a carreira artística de lado para se dedicar integralmente ao Direito. Após se formar, passou a atuar na advocacia de forma autônoma. A mudança de rumo veio alguns anos depois.

“Um dia eu estava indo para uma audiência e olhei no espelho e não me reconheci mais como advogado. Eu lembrei que não sou só advogado, eu sou um artista. Não podia abandonar minha vocação”, lembra.

Foi então que ele decidiu unir comunicação, humor e conhecimento jurídico nas redes sociais.

O ‘Doutor’

Felipe afirma que o perfil surgiu com a ideia de inverter a lógica comum entre influenciadores da área jurídica. “Os colegas usam 90% de advocacia e 10% de arte. Eu pensei o contrário: 90% arte e 10% direito”, diz.

Com respostas debochadas e vocabulário das ruas, os vídeos foram caindo na graça do público. “No primeiro vídeo já falaram: ‘Você é humorista’. Ali eu entendi que o conteúdo seria artístico”, pontua. E foi assim que surgiu o Doutor – o advogado debochado e cheio de arrogância.

@dr.felipearthur

Quicada criminosa

som original - Dr. Felipe Arthur

O personagem nasceu da observação de situações do cotidiano da profissão. “Eu peguei histórias de professores, de colegas, absurdos do mundo jurídico que realmente existem e coloquei tudo em um personagem. Ele é um retrato dos advogados brasileiros numa lente de aumento, de forma cômica”, conta. 

Grande parte das perguntas respondidas nos vídeos, como a que abriu esta reportagem, envolve temas sexuais – algo que, segundo ele, ajuda a explicar a popularidade do conteúdo. “Não é que seja meu tema favorito. É polêmico e universal. O sexo não tem lado político. Todo mundo entende. Todo mundo transa”, diz. 

O humorista diz que a abordagem acabou aproximando especialmente o público LGBTQIA+, o que rendeu ao Doutor o título de “advogado das passivas”, alcunha que defende com orgulho. 

“A comunidade LGBT me abraçou muito e ajudou meu conteúdo a furar bolhas. No início, só pessoas do Direito me conheciam”, reconhece. Ele rejeita, porém, a ideia de que produza conteúdo direcionado apenas a esse público.

“Eu não sou um influenciador LGBT. Eu sou um influenciador que não teve medo de falar de um assunto que muita gente evita”, esclarece. 

Criador e criatura

Segundo o criador de conteúdo, “Doutor” é o personagem — enquanto Felipe Arthur é apenas sua assinatura artística, mas muita gente confunde isso.  “O nome do personagem mesmo é "Doutor". É uma referência cultural, porque no Brasil as pessoas costumam chamar advogado de doutor. Então eu coloquei ‘Doutor’, mas não consegui registrar só esse nome nas redes sociais”, explica.

Ele afirma que o uso do nome também tem origem na sua carreira anterior nas artes. Felipe Arthur era o nome usado por ele quando na vida artística antes mesmo de ingressar no Direito. Enquanto advogado, ele usava outro sobrenome. Além disso, ele diz que nunca gostou ou pediu para ser chamado de doutor durante o exercício da profissão.

@dr.felipearthur

DENUNCIADO PELA OAB-SP A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo, por meio da sua Comissão de Ética, apresentou denúncia contra mim. Eu nunca advoguei em São Paulo. Não possuo e nunca possuí qualquer processo naquele estado. Desde que comecei a ganhar notoriedade nas redes sociais, renunciei à advocacia. Nunca recebi clientes nesse período. Meu trabalho aqui é 100% artístico e jamais atuei como advogado nesta página. Esta página não é, nunca foi e jamais será um escritório de advocacia digital. O que vocês veem nas redes é um personagem de ficção. O advogado sempre foi discreto e nunca apareceu publicamente enquanto exercia a profissão. Naquela época eu sequer tinha rede social. As redes só passaram a existir no momento em que deixei de advogar e me tornei exclusivamente artista. Portanto, a Comissão de Ética da OAB-SP não está perseguindo um advogado, porque o advogado já não existe mais. Está mirando um artista.

som original - Dr. Felipe Arthur

Para diferenciar, ele adicionou o próprio nome artístico ao perfil. “Felipe Arthur é a minha assinatura, como todo artista tem. É como se fosse ‘Doutor por Felipe Arthur’ ou ‘Doutor by Felipe Arthur’. O personagem é o doutor, não sou eu”, afirma. 

Segundo ele, a diferença costuma aparecer até nas interações com o público. “Quando as pessoas começam a pergunta com ‘doutor’, eu sei que estão falando com o personagem. Quando chamam ‘Felipe’, estão falando comigo, com o artista”, diferencia.

Críticas e denúncias na OAB

Para o criador, as críticas fazem parte do papel da comédia. “O humor tem a função de incomodar. Ele pega as mazelas da sociedade e coloca numa lente de aumento. Quando eu falo de assédio ou de situações absurdas em escritórios, não estou inventando. Estou mostrando que isso existe”, explica. 

Felipe afirma que interpreta a investigação da OAB como uma reação institucional ao tipo de crítica que o humor pode gerar. “Quando vejo uma instituição usar meios institucionais para me perseguir, eu vejo como uma perseguição política de alguém que não quer que a realidade seja mostrada”, afirma.

Entre as possíveis consequências do processo está a suspensão ou até a perda da carteira da OAB. Felipe afirma que a hipótese o afetaria mais por razões pessoais do que profissionais.

“Não era o meu sonho ser advogado. Era o sonho do meu avô. A carteira da OAB é uma forma de manter viva a memória dele”, destaca.

Ainda assim, ele diz acreditar que não há base jurídica para uma punição. “Nunca tive infração ética, nunca usei a internet para captar clientes. Não tem link de WhatsApp, não tem site, não tem escritório. Meu conteúdo é entretenimento”, esclarece. 

Segundo ele, no início da criação do perfil ainda mantinha alguns casos antigos, mas sem relação com o conteúdo publicado na internet. “No começo eu ainda advogava, mas eram clientes que eu já tinha antes da fama. Eu mantive esses casos até terminar e depois não aceitei mais nenhum”, conta. 

@dr.felipearthur

Meus acusadores não tiveram nem o trabalho de estudar meu perfil. Esse vídeo antigo, por si só, já prova que eu não posto conteúdo para captar clientes como advogado. Ali eu deixo claro que meu trabalho na internet é exclusivamente artístico. Aos invejosos que precisam de uma carteira para provar algum talento, eu só lamento. O meu talento está no corpo e na alma, não apenas em um documento. Talento vale mais que sobrenome, e isso incomoda os nepolawyers. Respeitem a instituição e a advocacia. Não usem a instituição para perseguir opositores ou qualquer pessoa que mexa nessa estrutura de oligarquia que certos lobistas insistem em manter. Se vocês têm o mínimo de respeito pela instituição, arquivem. Arte que não incomoda a opressão não é arte. Arte é resistência. Eu prefiro morrer por um legado do que estar vivo sem deixar nenhum.

som original - Dr. Felipe Arthur

Felipe diz que sempre deixou claro para os seguidores que o perfil não era um espaço para aconselhamento jurídico e, sim, um conteúdo de humor. 

Debate sobre liberdade artística

Para o humorista, o caso pode levantar uma discussão mais ampla sobre liberdade de expressão e arte. “Esse processo pode virar um debate constitucional sobre liberdade artística. Nunca chegou ao Supremo um caso de alguém usando a arte sem atacar ninguém, sem agredir instituições”, avalia. 

Felipe afirma que todos os vídeos são roteirizados e planejados e que sempre traz um ensinamento para os vídeos, mesmo que o espectador não veja dessa forma. “Nunca postei nada por impulso. Tudo é escrito, interpretado e editado. Meu trabalho é técnico”, defende. 

Apesar da polêmica, ele diz não se arrepender do caminho escolhido. “Falo de Direito para quem precisa ouvir, não para quem pode pagar. Eu não vendo Direito, eu ensino Direito”, sinaliza.

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