Ovelhas gays inspiram coleção de moda e viram símbolo LGBTQIA+
Peças criadas com lã de carneiros resgatados do abate unem moda, ativismo e sustentabilidade para desafiar preconceitos e celebrar a diversidade na natureza
Formada pela UFMG, atua no jornalismo desde 2014 e tem experiência como editora e repórter. Trabalhou na Rádio UFMG e na Faculdade de Medicina da UFMG. Faz parte da editoria de Distribuição de Conteúdo / Redes Sociais do Estado de Minas desde 2022
Michael Stücke, agricultor e ativista assumidamente gay, com as ovelhas da fazenda crédito: Rainbow Wool / reprodução
Uma coleção de moda apresentada recentemente em Nova York, nos Estados Unidos, chamou atenção por causa da matéria-prima. As 37 peças da coleção “I Wool Survive” (um trocadilho com I will survive), criada pelo estilista Michael Schmidt em parceria com o Grindr, foram feitas com lãs do primeiro rebanho de ovelhas gays do mundo.
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A matéria-prima vem de uma fazenda chamada Rainbow Wool, em Löhne, na Alemanha. A propriedade é administrada por Michael Stücke, agricultor e ativista assumidamente gay. Ele resgata carneiros que demonstram orientação sexual por outros machos — animais que, segundo a própria Rainbow Wool, costumam ser abatidos em fazendas tradicionais por não cumprirem sua função reprodutiva. Estudos científicos apontam que até 8% dos carneiros apresentam comportamento homossexual.
“A lã dos carneiros não é apenas um material — é uma mensagem tecida a partir de animais que vivem livres e são amados”, afirmou o agricultor em comunicado.
A fazenda de Stücke também se destaca pelo compromisso ambiental. O projeto adota uma agricultura holística e sustentável, em parceria com ambientalistas e autoridades locais. As ovelhas desempenham papel central na preservação da biodiversidade: o esterco é o único fertilizante utilizado nas áreas verdes, servindo de base para insetos que alimentam aves migratórias e espécies raras.
Todo o lucro da venda das peças é revertida para a LSVD , organização não-governamental que apoia comunidades LGBTQIA em países onde ser queer ainda é ilegal ou perigoso Rainbow Wool / reprodução
Além disso, os animais atuam como “cortadores de grama naturais” em áreas protegidas de difícil acesso, ajudando a preservar plantas ameaçadas de extinção na reserva natural Enger Bruch, vizinha à fazenda. A tosquia anual é aberta ao público, garantindo transparência quanto ao bem-estar animal.
Nada se perde: até o excesso de gordura da lã é reaproveitado na produção de protetor labial vendido localmente. Visitas guiadas também ajudam a manter o projeto, com toda a renda revertida para o cuidado dos animais.
Qualquer pessoa também pode apadrinhar um carneiro gay com doações a partir de US$ 35 (R$ 190), garantindo simbolicamente “mais um dia de vida feliz na fazenda” para animais com nomes como Horny, Franz Kafka e Wollie Wonka. Na página da fazenda, é possível ver fotos de cada um dos 21 carneiros que fazem parte do projeto.
Após a tosquia, que é feita sem nenhum dano aos animais, a lã é lavada, escovada e enviada a um parceiro em Barcelona, onde é combinada com fios acrílicos para se tornar adequada à produção industrial das peças.
Toda a renda da venda dos produtos da Rainbow Wool, que incluem bonés e patches, é destinada à LSVD+, organização não-governamental que apoia comunidades LGBTQIA+ em países onde ser queer ainda é ilegal ou perigoso.
Moda e ativismo
A coleção apresentada em Nova York mistura fantasia, fetiche e crítica social. Entre os looks, surgem arquétipos clássicos da cultura gay reinterpretados em lã: uma releitura sensual de Adão, cavaleiros, figuras greco-romanas e personagens inspirados em marinheiros, atletas e trabalhadores braçais. As peças equilibram humor, sensualidade e discurso político.
Peças da coleção 'I wool survive' criada pelo estilista Michael Schmidt em parceria com o Grindr Rainbow Wool / reprodução
Michael Schmidt, conhecido por vestir nomes como Madonna, Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga e Lil Nas X, afirmou que a proposta vai além do impacto visual. “É uma coleção descontraída, mas que aborda um tema muito sério: o preconceito — tanto contra animais homossexuais quanto contra pessoas LGBTQIA+. Mostrar que a homossexualidade existe em todo o reino animal ajuda a desmontar a ideia falsa de que ser gay é uma escolha”, destacou em comunicado.
Peça da coleção 'Rainbow Wool Drama', assinada pelos estilistas de Kilian Kerner e Danny Reinke Rainbow Wool / reprodução
Todas as peças serão leiloadas. Essa não é a primeira vez que a fazenda faz uma ação do tipo. Em abril de 2025, a coleção 'Rainbow Wool Drama', assinada pelos estilistas de Kilian Kerner e Danny Reinke, foi leiloada em prol dos direitos das pessoas LGBTQIA+. As peças eram feitas com a lã das ovelhas do projeto e estrearam em tapetes vermelhos na Europa.
O leque LGBTQIAPN+ tem feito sucesso principalmente em festas e eventos por ser colorido, divertido e expressivo. O calor também contribui, já que ele refresca. Além disso, o barulho ao abri-lo virou marca registrada, chamando atenção e marcando presença com estilo. Divulgação
A origem dos leques remonta à Ásia. Depois se espalharam pela Europa, ganhando destaque em cortes aristocráticas. O leque LGBT reaproveita esse acessório com um símbolo de orgulho e identidade. Divulgação shopee
Ao longo dos séculos, o leque foi reinventado em vários estilos. Hoje, os modernos ganham nova vida em desfiles, festas e manifestações culturais. E abrem espaço para reutilização de leques de modelos clássicos.
-Mnemo/Wikimédia Commons
De acordo com registros antigos, o leque surgiu em 3000 a.C. na China, de onde chegou ao Japão. Ele também foi utilizado por faraós no Egito, assim como por assírios e etruscos. Domínio Público/Wikimédia Commons
Os primeiros leques eram de plumas; os de marfim só surgiram no século 10 a.C. A criação deste objeto foi focado em auxiliar a dissipar a sensação provocada pelo calor, mas logo tornou-se um elemento de distinção de classe. Poderospontes/Wikimédia Commons
Ele chegou a ser usado até para afastar o povo do soberano quando este saía a passeio. Esse objeto era um sinal de poder e dignidade, sendo usado em bailes de máscaras no Japão e em cerimônias tradicionais. Poderospontes/Wikimédia Commons
Em solo grego, um homem, para se desculpar, tinha que abanar sua esposa durante o sono. Já em Roma, o leque era conhecido como flabelum, visto que as senhoras romanas tinham escravos encarregados de abaná-las, conhecidos como flabeliferos. Domínio Público/Wikimédia Commons
Os primeiros leques eram feitos de folhas, penas, pedras preciosas, plumas, folhas ou pergaminhos. Afinal, no século 5, as hastes passaram a ser de marfim, seda, renda e tecido. Além disso, o cabo passou a ser de ouro e prata, tornando-se retráteis no século 15 Imagem de PDPics por Pixabay
A introdução do leque no Ocidente ocorreu por volta do século XVI, durante o período das grandes explorações marítimas. Navegadores europeus que viajavam para o leste trouxeram consigo o leque, juntamente com outras mercadorias exóticas. Divulgação
Aqui na América, após as Cruzadas, o objeto de abano já era conhecido entre os astecas e os incas. Quando os primeiros europeus chegaram, em 1519, Montezuma ofereceu seis leques para Fernando Cortez. Divulgação
Além de dissipar o calor, eles eram usados também, assim como as flores, para transmitirem determinados códigos. Assim, os modos de manejá-los, por homens e mulheres, podiam passar mensagens inteiras sem que trocassem uma única palavra. Divulgação
A coleção de leques da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano encaixa-se na categoria de “leques comemorativos”. A ideia de se perpetuar acontecimentos notáveis nos leques surgiu na França, no século 17. Divulgação
O decreto da Abertura dos Portos às Nações Amigas, assinado em Salvador, em 28 de janeiro de 1808, trouxe o comércio do restante do mundo para o solo brasileiro. Na época, o ato acabou com o Pacto Colonial entre a metrópole, Portugal, e o Brasil Colônia.
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Desse modo, os leques históricos chegaram ao Brasil com a Corte Portuguesa. Eles, então, passaram a ser encomendados nas chamadas “Casas da Índia”, localizadas na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, vindos diretamente da China.
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Na ocasião, junto com o pedido, os chineses recebiam o desenho com os motivos e as imagens que os leques deveriam ter. Assim, o objeto se tornava cada vez mais popular na corte portuguesa, que estava inserida em solo brasileiro. Pratyeka/Wikimédia Commons
Em um mesmo evento, poderia ter três ou mais versões diferentes de leques, com variações, como a cor do fundo, inscrições e outros elementos inseridos pelo artista. ??????/Wikimédia Commons
O auge do leque como acessório de moda no Brasil foi na década de 1920, mas com a invenção do ventilador elétrico, caiu em desuso. Reprodução de revista Antiga
Embora tenha perdido parte de sua popularidade como acessório de moda no mundo ocidental, o leque continua a ser amplamente utilizado em muitas partes da Ásia. Flickr Aninha González
Além disso, o leque ainda é valorizado como uma forma de arte, com colecionadores apreciando leques antigos e contemporâneos por sua beleza e habilidade artesanal. Ele também é usado ??na prática do Kung Fu, como prática de defesa. lzy9290 /Wikimédia Commons
No entanto, no Brasil, houve um ressurgimento do interesse por leques como peças de coleção e itens de moda vintage, especialmente entre os entusiastas da moda e colecionadores. Divulgação
Mais do que sua característica de abanar e afastar o calor, os leques fazem parte da história de luta da comunidade LGBTQIAPN+, na luta contra discriminação de gênero, e levam o arco-íris da bandeira e essa representatividade. Divulgação
A humorista, cantora, atriz e repórter brasileira Nany People sempre carrega consigo um leque. Ela já revelou que usou o leque pela primeira vez aos 18 anos. Instagram @nanypeople
O leque é um acessório usado no carnaval e também era utilizado pelos mestre-salas que cortejam as porta-bandeiras e defendem e apresentam o pavilhão de cada escola de samba. Flickr arquivo Nacional do Brasil
No Carnaval Carioca, os leques chamaram a atenção na comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense, no título de 1994. Com uma coreografia criada pelo saudoso Fábio de Mello, a apresentação sempre é lembrada e ficou marcada na história da folia. Flickr Sandra de Souza
Os leques começaram a ser usados no carnaval no século 19, quando os leques "Mandarim" foram trazidos para a Europa. Atualmente, seguem vivos na festa, ainda mais por ser em época de verão, onde o calor é intenso nas capitais. Flickr Rogerio Santana