A minha primeira vez no Nordeste começou também como a primeira vez que fui tão longe de casa. Eu já tinha visto incontáveis fotos do meu destino nas redes sociais, relatos sobre festas de réveillon agitadas e hospedagens concorridas. Fui para Alagoas querendo entender o que existia por trás dessa fama toda – e encontrei quase o oposto do que imaginava. 

Em vez de badalação constante, encontrei silêncio, sabores, calor, um relógio que passa bem devagar. E, principalmente, confirmei que os 1.980 quilômetros entre Belo Horizonte e São Miguel dos Milagres, não parecem apenas uma longa viagem no mapa. Em muitos momentos, tive a sensação de ter atravessado para outro Brasil.

Até então, eu nunca tinha saído da região Sudeste e, honestamente, cinco dias fora já eram suficientes para o frio na barriga. Minha jornada ao litoral Norte de Alagoas começa com um voo de pouco mais de duas horas. Aqui, sugiro que você ouça o conselho da sua mãe e leve o casaquinho para quando o ar-condicionado se mostrar mais frio que o desejado.

Mas também deixo outra recomendação: tire-o assim que pousar em Maceió. O impacto do calor nordestino na pele faz parte da chegada. Para os motoristas corajosos, o trajeto saindo da capital mineira pode durar cerca de um dia, três horas e 17 minutos de carro.

Chegada ao paraíso

Cheguei no aeroporto de Maceió perto das 17h30 (sim, ainda estava quente). De lá até São Miguel dos Milagres, leva em torno de uma hora e meia. Uma corrida por aplicativo pode ser bem “salgada” (em torno de R$190), embora eu tenha seguido de transfer até a Pousada Haya, minha primeira hospedagem na viagem. A estrada é boa, mas exige atenção. As curvas aparecem uma atrás da outra e, já anoitecendo, eu tentava acompanhar pela janela as mudanças da paisagem até surgirem os primeiros coqueiros. 

Mas, antes mesmo das praias, o que chamou minha atenção foi outra coisa: a simplicidade. Diferente da imagem de luxo que muitas vezes aparece na internet, Milagres é formada por pequenos povoados e vilarejos, ruas tranquilas, casas simples e um cotidiano que ainda parece girar devagar. A diferença é discrepante quando se chega ao glamour das pousadas e hotéis a beira-mar. 

O município faz parte da Rota Ecológica dos Milagres, um trecho de litoral preservado que inclui também as cidades de Passo de Camaragibe e Porto de Pedras. O lugar era uma pacata vila de pescadores, a cerca de 100 quilômetros da capital, até se tornar um dos destinos mais cobiçados do Brasil.

Antes de me hospedar, preciso pontuar sobre a Vila do Marceneiro, que passei pelo caminho. Trata-se de um trecho da extensa estrada tomada por casinhas coloridas, uma ao lado da outra, ocupadas por lojas de artesanato, bijuterias, doces, bares e hamburguerias. Por lá, aproveitei para comprar um souvenir para aumentar minha coleção e experimentei cocada cremosa (a qual reservei espaço na mala para trazer comigo). Outra indicação que ouvi mais de uma vez - e que acabou ficando para uma próxima viagem - foi a tapioca da Elisângela. Não deu tempo de experimentar, o que talvez seja uma boa desculpa para voltar. 

Mesa farta

Na Haya, fui recebida já à noite, mas ainda assim deu para sentir imediatamente a atmosfera do lugar. E talvez o que mais tenha me marcado naquela chegada tenha sido o sotaque alagoano, caloroso, acolhedor, quase musical. Daqueles que fazem a gente prolongar a conversa sem motivo, só para continuar ouvindo. Da recepção, desci direto para o restaurante Banami (a fome ajudou), que funciona dentro da pousada e tem cardápio assinado pelo chef Wanderson Medeiros. O próprio fez questão de participar e vir até a mesa explicar cada prato do menu degustação.

Muitos ingredientes saem diretamente da horta da pousada, enquanto peixes e frutos do mar chegam das redes de pesca da região. Isso aparece no sabor, mas também na forma como os pratos chegam à mesa: sem exageros estéticos, generosos e muito centrados nos ingredientes locais. 

Para abrir a noite, veio o ceviche de peixe sirigado com chips de mandioca, fresco e ácido na medida certa, seguido pelas croquetas de siri com creme de limão siciliano, leves e crocantes. O camarão gratinado ao molho suave de gorgonzola, servido dentro de uma concha, foi outra grata surpresa. Confesso que nessa hora tive que observar ao redor para ver se tinha algum segredo ou técnica para comer. Spoiler: não tinha.

Entre os principais, o arroz de polvo talvez tenha sido o que mais ficou na memória, principalmente pelo contraste com os cubos de banana-da-terra espalhados pelo prato. Também experimentei a costela Angus prensada sobre aligot de tubérculos e molho da própria carne, além do camarão grelhado com massa negra ao molho de cogumelos trufados. 

E há ainda a sobremesa: a cocada cremosa com sorvete de tapioca e fios de mel de engenho, doce na medida certa. Foi também no Banami que tomei café da manhã nos dias seguintes. Logo cedo, os funcionários apareciam sorrindo para montar a mesa com frutas frescas e sucos naturais preparados na hora.

Cartão-postal do amor

Na manhã seguinte, já de barriga cheia, foi hora de perambular pela pousada. São 30 bangalôs com piscina privativa e divididos em quatro categorias. Vou poupar as palavras, mas declaro que moraria fácil em qualquer um deles. O banheiro é espaçoso, e na cama de casal cabe uma família e ainda sobra espaço. A piscina da Haya é um espetáculo à parte. De lá você está a poucos passos da areia da praia São Miguel dos Milagres, praticamente deserta se não fossem outros hóspedes caminhando ou andando de bicicleta. 

A vista ainda é privilegiada para a Capela dos Milagres, cartão-postal da cidade. É possível acessá-la há poucos minutos, pela praia e atravessando o rio que desemboca no mar. Se escolher essa opção, vá cedo, antes que a maré suba, e tome cuidado com as pedras: o rio é de um marrom escuro que dificulta enxergá-las, e informo, por experiência própria, que seus pés podem doer. Mas também é possível ir pela estrada tradicional. 

A igrejinha, além de referência, se tornou um dos endereços mais desejados por casais apaixonados que sonham em dizer “sim”. Construída estrategicamente à beira-mar, sua estrutura branca e delicada contrasta com o azul do oceano e o verde das árvores. Dizem que no pôr do sol, a luz dourada transforma o espaço em cenário de filme, perfeito para fotografias e um momento de contemplação. Na minha vez estava um pouco nublado, mas valeu conhecer mesmo assim.

Com o tempo, a capela deixou o cunho apenas religioso e se transformou em um espaço de eventos intimistas, permitindo cerimônias ao ar livre com uma vista de tirar o fôlego. O local oferece suporte para decoração personalizada, iluminação especial e um ambiente para noivos e convidados. As visitas precisam ser agendadas e são exclusivas, podendo ser feitas individualmente, em casal ou grupos de família. O visitante tem direito a 30 minutos no espaço, que possui bancos de madeira e chão de areia. A dica é entrar descalço para sentir a energia.

O valor das visitas (em torno de R$50), é destinado ao instituto Tamo Junto, que trabalha com ações socioambientais na comunidade e realiza os casamentos comunitários. Os interessados precisam viver há pelo menos dez anos juntos em uma das três cidades da Rota Ecológica, ou ter nascido em alguma delas. Um edital é lançado com todas as regras e um formulário de inscrição. Em seguida, os casais passam por entrevistas. Só dez são selecionados. A gestão da capela entra em contato para realizar o registro civil e, finalmente, organizar a festa. Cada casal tem direito a dez convidados. Já para celebrações privadas, não há limite, e o espaço comporta até 2500 pessoas.

Destino cobiçado

O terceiro dia de visita à Milagres foi de mudança para a outra hospedagem, o Maré Hotel, com terreno de 40 mil metros quadrados, também 30 bangalôs com piscina privativa, e localizado em frente a barreira de corais. Essa estrutura natural explica o mar calmo, de águas claras e com piscinas naturais para serem visitadas na maré baixa. Aqui já começo a concluir a fama de destino cobiçado, especialmente por aqueles que buscam exclusividade e contato direto com a natureza. 

Um dos principais passeios realizados foi a jangada privativa, recomendada para grupos de até seis pessoas. O ideal é sair cedo, quando a maré ainda está baixa e o mar parece quase imóvel. A pequena embarcação leva até as piscinas naturais em alto mar. A maioria dos visitantes aproveita para descer e caminhar pela área. Particularmente, preferi evitar para não correr o risco de pisar nos corais.

Apesar de lindos e atrativos, faço questão de destacar que são colônias de animais vivos e frágeis; o pisoteio esmaga e mata décadas de crescimento em segundos. Ainda na jangada, há possibilidade de incluir à bordo o churrasco de frutos do mar ou carnes, e café da manhã. Mas, a ideia de comer junto com o balançar das ondas pode não ser adequada para todos.

Seguindo no catálogo da exploração, os roteiros de buggy revelam diferentes cenários da Rota Ecológica alagoana. Saí do hotel em direção a Praia de Lages e, em seguida, até a famosa Praia do Patacho. A última consegue ser mais azul e é praticamente uma piscina, não por acaso estava mais cheia, com famílias e várias crianças. A aventura de buggy pode ser feita ao clarear do dia, no pôr do sol e no roteiro “ponta a ponta”, que permite conhecer tanto a rota sul quanto a norte de São Miguel dos Milagres em um único dia. 

Masterchef

Para fechar o dia, não deixe de passar no Tahí. Batizado com nome de música da cantora Carmen Miranda, o restaurante tem um cardápio extenso assinado pelo chef carioca Rafa Gomes, e uma carta de drinques proposta pela especialista em destilados e cachacière, Isadora Bello Fornari.

A recomendação é começar pelos pastéis de lagosta servidos com tartare de banana, os tacos de camarão, acompanhados de guacamole, pimenta sriracha e queijo coalho, e a pipoca de camarão com molho ranch. Experimente também a batata frita trufada com grana padano, sequinha e crocante; o bobó de camarão, que serve facilmente seis pessoas; e a moqueca de dourado.

Para adoçar o paladar, o cremoso de chocolate branco com coulis de maracujá é uma boa pedida. A sobremesa é campeã do MasterChef e vale o título. Já nas bebidas, o “pimenta doce”, com american uísque, goiaba, melancia, tangerina, laranja e limão, acrescenta um toque frutado e levemente picante à refeição. 

Mais tarde, arrumando as malas para retornar à BH, coloquei tudo em seu devido lugar, e separei um espaço particular na bagagem da memória para São Miguel dos Milagres. Voltei entendendo por que tanta gente transforma São Miguel dos Milagres em tradição de fim de ano, refúgio ou cenário de amor. Saí de Alagoas com a sensação de que o Nordeste merecia ser um país à parte — grande demais para caber em poucas definições. A certeza que fica é a de que, depois da primeira vez, será difícil saciar a curiosidade de conhecer cada canto dessa região.

Arroz de polvo, camarão grelhado com massa negra ao molho de cogumelos trufados e peixe do dia com farofa de castanhas Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Café da manhã à bordo oferecido no Mahré Hotel Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
São Miguel dos Milagres Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Pousada Haya Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Capela dos Milagres Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Mahré Hotel Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Vista da pousada Haya para a Capela dos Milagres Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Costela Angus prensada sobre aligot de tubérculos e molho da própria carne Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Camarão gratinado ao molho suave de gorgonzola, servido dentro de uma concha Ana Luiza Soares/EM/D.A Press
Praia de São Miguel dos Milagres Ana Luiza Soares/EM/D.A Press

Quanto custa e como chegar?

A melhor forma de chegar a Milagres são os voos diretos para o Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares (MCZ) em Maceió. As principais origens, operadas por companhias como Azul, Gol e LATAM, incluem São Paulo (Guarulhos e Congonhas), Rio de Janeiro (Galeão e Santos Dumont), Belo Horizonte (Confins), Campinas (Viracopos), Ribeirão Preto, Presidente Prudente, Recife, Salvador e João Pessoa, Brasília, Cuiabá e Goiânia, e Curitiba e Cascavel. Da capital mineira, as passagens custam, em média, R$ 900 a R$ 1.200. Junho costuma ser o mês mais econômico, enquanto dezembro e janeiro são os períodos mais caros.

A exclusividade do destino tem seu preço, e a hospedagem é o principal fator de custo. Pousadas mais simples podem ter diárias que variam bastante conforme a temporada, enquanto as pousadas e hotéis-boutique praticam valores significativamente mais elevados, especialmente na alta temporada e em feriados.

O que diz a lenda?

A lenda de São Miguel dos Milagres conta que um pescador encontrou, na praia, uma estátua de São Miguel Arcanjo. Ao limpá-la, descobriu que se tratava da imagem do santo e, naquele momento, foi curado de um problema de saúde. Há também outra versão, segundo a qual um pescador, ao enfrentar dificuldades no mar, fez uma promessa a São Miguel Arcanjo para que o ajudasse a voltar à costa em segurança.

Fonte Milagrosa - acredita-se que a lavagem da estátua ocorreu na antiga Cacimba dos Milagres, hoje conhecida como a famosa Fonte Milagrosa, situada no Centro Histórico da cidade e próxima ao Mirante do Cruzeiro. 

VALORES

Passeios:

Jangada privativa até 6 pessoas - R$550

Com churrasco de frutos do mar - R$400 por pessoa 

Com churrasco de carne - R$400 por pessoa.

Passeio de buggy até 4 pessoas:  

até Praia do Patacho - R$350

Pôr do Sol - R$400

Ponta a ponta - (conhecer as 2 rotas, Sul e Norte) R$550

Associação Peixe-Boi - R$100 por pessoa.

Mergulho cilindro  - R$300 por pessoa

Quadriciclo - R$350 até 2 pessoas

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*A repórter viajou a convite das duas hospedagens

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