PANDEMIA DE COVID-19

Filme expõe contradição dos discursos de Flávio na CPI da COVID e campanha

Documentário 'Anatomia do caos' relembra embates de Flávio Bolsonaro na comissão e evidencia o contraste entre suas falas na pandemia e seu discurso atual

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Pouco mais de seis anos depois do início da pandemia de Covid-19, o documentário “Anatomia do caos”, dirigido por Dandara Ferreira e estreado na última quinta-feira, revisita um dos episódios políticos mais marcantes da crise sanitária: os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado.

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Entre depoimentos, imagens inéditas dos bastidores e reconstituições dos principais momentos da investigação, o filme dedica espaço à atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), então um dos principais defensores do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seu pai, dentro da comissão.

Ao longo da produção, Flávio aparece contestando a legitimidade da CPI, minimizando as conclusões do colegiado, confrontando jornalistas e sustentando argumentos utilizados pelo governo federal para defender sua condução da pandemia. As declarações resgatadas pelo documentário contrastam com o momento político atual de Flávio Bolsonaro. Hoje pré-candidato à Presidência da República, o senador se apresenta como o “Bolsonaro que tomou vacina”.

O filme reconstrói os trabalhos da CPI instalada em abril de 2021, quando o Brasil já acumulava quase 400 mil mortes pela Covid-19. A comissão foi criada para investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia e terminou recomendando o indiciamento de 80 pessoas, entre elas ministros, médicos, parlamentares e o então presidente Jair Bolsonaro.

Entre os crimes apontados estavam charlatanismo, prevaricação, epidemia com resultado morte, crimes contra a humanidade, entre outros. Apesar da repercussão dos trabalhos, nenhuma prisão decorreu diretamente da comissão. O relatório final acabou arquivado pelo então procurador-geral da República, Augusto Aras.

Confira o trailer do documentário:

Defesa do governo

Logo nos primeiros minutos do documentário, Flávio aparece defendendo a instalação da CPI como uma oportunidade para que o governo federal apresentasse sua versão sobre a condução da pandemia, ao mesmo tempo em que acusa adversários de utilizarem a comissão como instrumento eleitoral.

"Aquele parlamentar que tiver nessa CPI e quiser subir nos caixões dos quase 400 mil mortos para fazer política rasteira e barata, para atacar o presidente Bolsonaro, o governo, a população vai saber identificar". Na mesma fala, ele sustenta que a comissão serviria para esclarecer as decisões tomadas pelo governo.

O documentário insere essas declarações em meio a imagens do avanço da pandemia, hospitais lotados, filas de caixões, falta de oxigênio e do luto provocado pelas mais de 700 mil mortes registradas pela doença no país. Também é recuperada uma das primeiras falas do vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), ao defender a abertura da investigação. Segundo ele, a CPI não investigaria pessoas específicas, mas "fatos" relacionados às ações e omissões no enfrentamento da pandemia.

Embates

Um dos primeiros confrontos envolvendo Flávio Bolsonaro exibidos no documentário acontece durante os trabalhos iniciais da CPI. Na ocasião, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) ironiza o fato de Flávio estar utilizando máscara naquele momento e relembra que poucos dias antes o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello havia aparecido sem proteção em um shopping de Manaus.

“Quero parabenizar Vossa Excelência. Vossa Excelência está diante de um álcool em gel, porque domingo o ex-ministro da Saúde estava desfilando no principal shopping da minha cidade, lamentavelmente sem máscara, dando um péssimo exemplo ao povo amazonense”. O episódio é apresentado como parte do ambiente de tensão que marcou praticamente todas as sessões da comissão.

Pfizer e atraso nas vacinas

Outro trecho destacado pelo documentário trata das negociações frustradas entre o governo brasileiro e a Pfizer. O filme relembra o depoimento do gerente-geral da farmacêutica na América Latina, Carlos Murillo, segundo o qual uma carta foi enviada a Jair Bolsonaro e a integrantes do governo reforçando a oferta de vacinas ao Brasil. Segundo o executivo, não houve resposta às tentativas de contato.

Na sequência, o documentário exibe jornalistas questionando Flávio Bolsonaro sobre o intervalo entre a oferta da Pfizer e a ausência de resposta do governo. O senador responde afirmando que havia preocupação com as cláusulas do contrato. Segundo ele, tratava-se de um "contrato leonino", argumentando que o Brasil teria de antecipar parte do pagamento sem garantia de entrega das doses.

Na montagem do filme, essa justificativa é colocada junto de uma das declarações mais conhecidas do então presidente Jair Bolsonaro sobre a vacina da Pfizer, quando afirmou que, caso alguém "virasse jacaré" após tomar o imunizante, a responsabilidade seria da fabricante.

Covaxin

O documentário também recupera momentos em que Flávio Bolsonaro é pressionado pela imprensa sobre a compra da vacina indiana Covaxin, cuja negociação se tornou alvo de suspeitas durante a pandemia. Questionado repetidamente se a vacina havia ou não sido comprada pelo Ministério da Saúde, o senador evitou responder diretamente.

Durante a conversa, um jornalista insiste diversas vezes com perguntas objetivas sobre a existência do contrato. Flávio responde dizendo que o Ministério da Saúde deveria tratar do assunto e procura inverter o questionamento, reproduzindo uma estratégia semelhante à utilizada em embates da própria CPI.

Relatório final e "peça de ficção"

Um dos momentos centrais do documentário ocorre na entrega do relatório final da CPI, em outubro de 2021. Na ocasião, Flávio Bolsonaro foi abordado por jornalistas sobre o pedido de indiciamento de Jair Bolsonaro. "Não há uma coisa diferente a ser feita pela Procuradoria-Geral da República, a não ser arquivar essa maluquice, essa peça de ficção, essa peça medonha", relembra o documentário.

A previsão acabaria se confirmando posteriormente, quando o então procurador-geral Augusto Aras decidiu não dar prosseguimento às recomendações feitas pela comissão. Pouco depois, ao ser perguntado sobre como o pai havia recebido o relatório, Flávio responde imitando a gargalhada característica do ex-presidente. "Conhece aquela gargalhada dele?", afirma, antes de rir diante das câmeras.

Embora concentre sua narrativa nos acontecimentos entre 2020 e 2021, o documentário também evidencia o contraste entre a atuação de Flávio Bolsonaro durante a pandemia e a imagem política construída pelo senador nos últimos anos.

Hoje pré-candidato à Presidência da República, Flávio tem buscado se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo. Em entrevistas recentes, afirmou possuir os mesmos princípios do pai, mas destacou diferenças em relação à condução da pandemia, ressaltando que tomou duas doses da vacina contra a Covid-19 enquanto Jair Bolsonaro optou por não se imunizar.

Bastidores

Além dos embates públicos, "Anatomia do caos" mostra divergências internas entre os próprios integrantes da CPI. Em um diálogo registrado nos bastidores, os senadores Randolfe Rodrigues e Humberto Costa (PT-PE) demonstram preocupação com a decisão do relator Renan Calheiros (MDB-AL) de convocar o empresário Luciano Hang.

Segundo os dois senadores, a medida poderia representar um "tiro no pé" para a própria comissão. O episódio integra uma série de imagens inéditas utilizadas para mostrar negociações políticas e discordâncias entre os parlamentares responsáveis pela condução da investigação.

Prevent Senior e depoimentos marcantes

O documentário também resgata alguns dos depoimentos considerados mais impactantes da CPI. Entre eles está o da advogada Bruna Morato, representante de médicos da Prevent Senior. Ela afirmava que profissionais da operadora relataram orientações para reduzir os níveis de oxigenação de pacientes internados por longos períodos, o que, segundo seu depoimento, aceleraria mortes e liberaria leitos hospitalares.

A produção também relembra os depoimentos do então deputado Luis Miranda sobre suspeitas envolvendo a negociação da vacina Covaxin. Após sucessivas perguntas de Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues e Simone Tebet, Miranda afirma que o parlamentar citado por Jair Bolsonaro como suspeito de irregularidades era Ricardo Barros.

Outro momento recuperado envolve o então ministro da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, que durante depoimento afirmou que Simone Tebet estaria "totalmente descontrolada". A fala provocou reação imediata dos senadores, que acusaram Rosário de machismo e de agir como "moleque de recados" do então presidente.

Defesa do tratamento precoce

O filme ainda retorna mostra como parte da defesa do chamado "tratamento precoce" ganhou espaço dentro do Congresso. São relembrados depoimentos da médica Nise Yamaguchi e do pediatra Anthony Wong em comissão da Câmara dos Deputados, antes da instalação da CPI, ambos favoráveis ao uso da hidroxicloroquina e contrários ao isolamento social e à vacinação obrigatória.

A produção contrapõe essas declarações ao consenso científico consolidado, segundo o qual medicamentos como hidroxicloroquina e ivermectina não apresentaram eficácia comprovada contra a Covid-19.

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Serviço

"Anatomia do Caos" está em cartaz em cinemas de diversas cidades do país. Em Belo Horizonte, o documentário é exibido no Cine Belas Artes, no Lourdes, na Região Centro-Sul, com sessão diária às 19h.

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