CINEMA

'Anatomia do caos' quer interromper o esquecimento da tragédia da pandemia

Documentário de Dandara Ferreira, que estreia nesta quinta-feira (2/7) em BH, resgata o período mais dramático da história do Brasil

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“O último momento que tive com meu filho, ele estava dentro de um saco”. O depoimento de Márcio Antônio Silva na CPI da Covid foi noticiado largamente em 18 de outubro de 2021. As imagens da TV Senado rodaram o país, acompanhadas de outras de junho de 2020. Nelas, Márcio, em luto, recolocava na areia da Praia de Copacabana cruzes em memória das vítimas da doença. Elas haviam sido arrancadas por apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro.

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Este é um dos poucos momentos de “Anatomia do caos”, documentário que chega hoje (2/7) aos cinemas, no qual assistimos à fala de um membro da sociedade civil. A maior parte do longa de Dandara Ferreira se concentra em acompanhar parlamentares e autoridades. Entre abril e outubro de 2021, a Comissão de Parlamentar de Inquérito do Senado investigou as omissões do governo federal no enfrentamento da doença.

“O filme não é só sobre a crise sanitária. É também sobre como um país viveu durante o governo negacionista e, ainda, como ele trabalha sua memória. Fala sobre Brasil, sobre responsabilidade das instituições e, principalmente, sobre o valor da vida humana diante das decisões do Estado”, afirma Dandara.

Seis anos após o início da pandemia que matou 700 mil brasileiros, o documentário revê o período por meio de grupos diversos. Na seara política, estão a oposição à frente da CPI (os senadores Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Humberto Costa) e parlamentares da situação, que defendiam o governo. O senador Flávio Bolsonaro sempre se destaca nas discussões em plenário.

Há ainda um terceiro grupo, de pessoas convocadas pelo governo federal para atuar na crise. O depoimento errático da médica Nise Yamaguchi, grande defensora do “tratamento precoce” à base de cloroquina, é recuperado no filme. A narrativa foi construída a partir dos registros da TV Senado e das imagens que a própria Dandara realizou ao longo da CPI.

Como diretora, ela estreou em longas-metragens com “Meu nome é Gal” (2023). A impossibilidade de realizar a cinebiografia, de certa forma, a levou para “Anatomia do caos”. O projeto em torno da cantora baiana deveria ser filmado em 2018, mas só foi concretizado cinco anos mais tarde. Nesse meio tempo, ela idealizou o documentário “Vou tirar você desse lugar”, sobre Odair José, já exibido em festivais, porém inédito no circuito comercial.

Até que veio a pandemia. “Senti que tinha de documentar aquilo, mas não sabia exatamente o que faria.” Telespectadora assídua da CPI da Covid, Dandara decidiu, em maio de 2021, passar uma temporada em Brasília, na casa do pai, Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma e ex-secretário de Cultura de BH.

Filme de guerrilha

A realização começou como um filme de guerrilha. “Sou diretora, mas não opero as câmeras. Peguei uma câmera emprestada, aprendi a lidar com microfone, tive de fazer produção, pois não tinha equipe. Era eu sozinha. Meu foco era o bastidor, pois não concorreria com a TV Senado. O filme, na verdade, se formou na montagem”, conta ela.

Isso levou muito tempo, pois Dandara havia captado material enorme. Ao longo desse período, ela filmou e lançou “Meu nome é Gal” e “Vou tirar você desse lugar”.

Dandara voltou para “Anatomia do caos” somente em 2024. Mesmo sem saber para onde o filme iria, ela sabia que não “abriria a câmera”. Ou seja, tudo o que está na tela foi produzido em 2021, durante o período da CPI. A exceção são imagens de prédios públicos de Brasília, como o Congresso Nacional, realizadas por Roberto Stuckert, que assina a direção de fotografia.

“Desde o começo, queria que o filme tivesse cara de reality. Tanto que a forma que filmei é com a câmera mais viva, acompanhando tudo. Para mim, a CPI foi meio um ‘Big brother’”, continua. “Mas a gente demorou para desvendar o filme”, diz ela, que trabalhou com dois montadores.

 Durante a CPI da Covid, no Congresso, parlamentares seguram cartazes de fundo preto onde estão escritas em letras brancas as palavras vacina, responsabilidade e luto, entre outras
Filme 'Anatomia do caos' acompanha a guerra política travada na CPI da Covid entre parlamentares negacionistas e a oposição ao governo Jair Bolsonaro Descoloniza Filmes/divulgação

A primeira montadora foi Lara Beck. “Em certo momento, senti que a gente tinha de chamar outra pessoa, pois eu e ela já estávamos viciadas e não conseguíamos agregar nada. No final do ano passado, trouxe o Renato (Sircilli), que deu cara de cinema para o filme.”

Lançar o documentário no início de nova corrida eleitoral não foi premeditado, mas veio em boa hora, diz Dandara.

“Este momento tem uma importância enorme. Vivemos em um período em que a memória é constantemente disputada. Existe a tendência de seguir em frente muito rapidamente, sem elaborar tudo o que aconteceu. O cinema pode interromper esse esquecimento e devolver a complexidade a um período que marcou profundamente o nosso país. O papel do documentário é dialogar com o presente, sem deixar de construir a memória para o futuro”, diz.

Trilogia

“Anatomia do caos” é o primeiro documentário da “Trilogia da memória”, série de títulos nacionais sobre o Brasil recente que a distribuidora Descoloniza Filmes está lançando neste ano.

Os dois outros longas são “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai, que acompanha um grupo de meninas do interior do Piauí (em 30/7 nos cinemas), e “Não existe almoço grátis”, de Pedro Charbel e Marcos Nepomuceno, sobre três mulheres que lideram a cozinha do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) numa comunidade do Distrito Federal, com lançamento em 3 de setembro.

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“ANATOMIA DO CAOS”

(Brasil, 2026, 90min.) – Direção de Dandara Ferreira. O filme estreia às 19h desta quinta-feira (2/7), na Sala 1 do Cine Belas Artes.

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