A tentativa de unificar a direita em Minas Gerais para as eleições de 2026 se transformou numa disputa interna que envolve algumas das principais lideranças desse campo político no estado e no país. Os embates, com trocas de farpas e recados diretos se intensificaram nas últimas semanas. Em jogo, está não só a escolha do candidato ao governo e dos nomes que vão concorrer ao Senado e à Câmara dos Deputados, mas também o protagonismo dentro do PL: quem será o porta-voz do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso na Papudinha, em Brasília, no momento da escolha das chapas no estado.

A disputa começou de fato em abril do ano passado, quando o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) declarou que poderia disputar o governo de Minas. Na ocasião, disse que abriria mão da candidatura caso o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) despontasse como melhor nome da direita, ressaltando que os eleitores de ambos eram semelhantes e que não faria sentido dividir o campo conservador.

Em outubro, foi a vez de o vice-governador Mateus Simões colocar o time em campo. Ele se filiou ao PSD e lançou a frente “Juntos por Minas”, reunindo PSD, PP, União Brasil, Podemos, PRD, DC e outras siglas. O movimento fortaleceu sua musculatura partidária, mas também o vinculou diretamente ao projeto nacional do governador Romeu Zema (Novo), que passou a se movimentar como presidenciável.

Dois meses depois, a tensão ganhou dimensão nacional quando Jair Bolsonaro anunciou Flávio Bolsonaro como seu candidato à Presidência. A partir desse momento, Minas Gerais deixou de ser apenas uma disputa regional e passou a ser peça estratégica para o projeto presidencial bolsonarista, pois não seria politicamente viável sustentar dois presidenciáveis, Zema e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sob um mesmo palanque estadual.

Em dezembro, Simões se reuniu com Cleitinho. O encontro foi interpretado como gesto de aproximação em meio às articulações para 2026. Flávio chegou a defender convergência para evitar segundo turno em Minas, versão negada por Cleitinho, que, àquela altura, já demonstrava incômodo com movimentos que poderiam esvaziar sua candidatura.

Em janeiro, o racha interno do PL-MG tornou-se explícito também na disputa pelas duas vagas ao Senado. Pelo menos sete nomes passaram a circular internamente, acirrando a divisão entre o presidente estadual da legenda, Domingos Sávio, e o deputado estadual Cristiano Caporezzo.

Antes da prisão de Bolsonaro, Caporezzo havia participado de reunião com Domingos Sávio e o próprio ex-presidente, na qual teria sido sinalizado como nome para o Senado. Posteriormente, porém, o diretório estadual passou a frear sua movimentação, sob o argumento de que a definição dependeria do projeto majoritário. Caporezzo reagiu com dureza, ironizando declarações e questionando a autoridade de Nikolas para influenciar decisões sobre o Senado. Domingos, por sua vez, buscou conter a crise.

Falta de unidade tem sido uma constante entre os líderes da Direita

Soraia Piva

No mesmo mês, outro conflito: o ex-deputado Eduardo Bolsonaro criticou Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro por não demonstrarem apoio explícito à pré-candidatura de Flávio. Nikolas respondeu dizendo que “Eduardo não está bem” e saiu em defesa da ex-primeira-dama. Em seguida, Michelle publicou imagem de bananas fritas nas redes sociais, gesto interpretado por aliados de Eduardo como provocação ao apelido “bananinha”.

No início deste mês, mais um mal-estar na direita em Minas: o vice Mateus Simões declarou ao Estado de Minas que Cleitinho não estaria “preparado” para o cargo. A resposta veio dias depois, em tom elevado. Cleitinho questionou por que deveria abrir mão da disputa se liderava o campo conservador, deixando claro seu desconforto com pressões por recuo.

Enquanto Cleitinho esbravejava, Nikolas e Simões intensificaram a aproximação ao cumprirem quatro agendas conjuntas em cinco dias no interior do estado. A movimentação gerou desconforto dentro do PL, onde parte da bancada passou a questionar se a ligação de Simões com Zema inviabilizaria um palanque exclusivo para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, já que o vice-governador teria obrigação política de apoiar o projeto presidencial do governador.

Há pouco mais de uma semana, Nikolas visitou Jair Bolsonaro na Papuda e declarou ter recebido aval do ex-presidente para participar ativamente da definição do palanque mineiro. A declaração reforçou sua posição como puxador de votos e peça-chave na formação das nominatas proporcionais, ampliando seu protagonismo nas decisões estaduais. Anteriormente, o deputado já havia mostrado desconforto com a formação de chapas, pois, segundo ele, seria o puxador da maioria dos nomes da bancada.

A tensão aumentou no início desta semana com a divulgação de anotações manuscritas atribuídas a Flávio Bolsonaro, nas quais constava que a candidatura de Mateus Simões “puxa para baixo” o campo da direita. Paralelamente, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou que Zema seria o “vice ideal” para Flávio, destacando o peso eleitoral de Minas, ao que o governador respondeu, por diversas vezes, que levaria sua pré-candidatura “até o final”, mantendo a indefinição.

Em meio ao desgaste, Flávio Bolsonaro buscou reorganizar o grupo durante reunião da bancada do PL, realizada na quarta-feira (25/02). No dia seguinte, afirmou: “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição”, numa tentativa de sinalizar que as divergências internas não poderiam comprometer o objetivo maior.

Críticas e farpas entre aliados

“Cleitinho não me assusta, mas preocupa”

MATEUS SIMÕES
Vice-governador, em entrevista ao Estado de Minas, sobre uma possível candidatura de Cleitinho. Segundo ele, o senador ainda está no “início da carreira” e não causa incômodo

“Eu não estou preparado pra roubar. Eu não estou preparado pra colocar carguinho comissionado de amigo lá dentro”

CLEITINHO
Senador responde ao vice-governador sobre as declarações e afirma que será candidato ao governo

"Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Não vi nenhum apoio da Michelle, nenhum post a favor do Flávio. Ela compartilha o Nikolas a toda hora"

EDUARDO BOLSONARO
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro critica a falta de apoio do parlamentar e de Michelle à candidatura de Flávio a presidente

“Eduardo não está bem”

NIKOLAS FERREIRA
Deputado federal se defende das acusações de Eduardo Bolsonaro e sai em defesa de Michelle Bolsonaro

“Bolsonaro me deu liberdade para construir Minas, tanto no Senado quanto no governo"

NIKOLAS FERREIRA
Deputado federal, após visita ao ex-presidente na Papudinha. Ele diz que recebeu o aval para montar
as chapas da direita em Minas

“Eu não ouvi o Bolsonaro falar isso, você ouviu? (...) Quem vai decidir é o Jair Bolsonaro, não é o Nikolas Ferreira”

CRISTIANO CAPOREZZO
Deputado estadual, em entrevista ao EM

“Mateus (Simões), infelizmente, está sendo inexpressivo”

CRISTIANO CAPOREZZO
Deputado estadual, em entrevista ao EM, critica o vice-governador e dá seu apoio a Cleitinho

“Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição”

FLÁVIO BOLSONARO
Senador e candidato à Presidência sobre briga entre Nikolas, Michelle e Eduardo

"Até papagaio fala"

CRISTIANO CAPOREZZO
Deputado afirma, em recado ao presidente estadual do PL, Domingos Sávio, que decisão sobre candidatura não cabe ao diretório estadual e que apenas Bolsonaro pode retirá-lo da disputa do Senado

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“Se começarmos a nos digladiar internamente, só temos a perder.”

DOMINGOS SÁVIO
Em entrevista ao EM, presidente do PL tenta acalmar os ânimos no partido

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