EXPERIÊNCIA COMPROVADA

Aos 105 anos, ex-motorista de BH ensina a 'pegar estrada' sem acidentes

Morador da Região Leste de BH, Onofre Ferreira da Silva, ex-motorista de ônibus, caminhões e até trólebus dá lição sobre segurança no trânsito

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As avenidas de Belo Horizonte e as rodovias mineiras guardam, na pressa do asfalto cotidiano, cicatrizes recentes que escancaram a vulnerabilidade do trânsito moderno. Dez pessoas feridas após um ônibus bater na traseira de uma carreta no Barreiro; um engavetamento monumental envolvendo mais de 20 veículos na BR-040, em Nova Lima, na Região Metropolitana; e pessoas atropeladas diariamente. O cenário se parece com uma arena de urgência. Mas, a poucos quilômetros, vive alguém que cruzou os séculos vendo a civilização sobre rodas se erguer, sem jamais ter ouvido o som de uma sirene policial para lhe aplicar uma multa, tampouco sentido o baque de uma batida.

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Aos 105 anos, Onofre Ferreira da Silva olha para trás e, sempre com um sorriso no rosto, se lembra de seus tempos de volante, os quais compartilhou ao Estado de Minas. O morador do Bairro Nova Vista, na Região Leste, passou quase seis décadas trabalhando como motorista de ônibus, carretas e caminhões, e carrega na memória as mudanças na mobilidade da cidade e uma verdadeira cartilha de como domar a máquina e dirigir sem perder a humanidade.

A história de Onofre na direção começou antes mesmo de sua maioridade oficial, lá em 1929, quando o pai comprou um “Chevroletzinho de chassi limpo”. Não havia concessionárias modernas ou carrocerias prontas de fábrica, os carpinteiros moldavam o piso de madeira, ajustavam bancos rústicos semelhantes a bancos de igreja e forravam a estrutura à mão. “Naquela época não tinha asfalto, não. Era terra só. Estrada tudo de terra. Tinha que andar muito devagar, e não tinha negócio de correria. Nem sinal não tinha”, recordou ele. Quando a prefeitura precisava organizar o trânsito, colocava um homem com uma bandeira nos cruzamentos para indicar o fluxo aos motoristas.

Para tirar a primeira carteira de motorista, Onofre precisou desembarcar na delegacia local e passar pelo crivo do cabo da Polícia Militar. Fez a manobra, voltou para a delegacia e ouviu do delegado: "Cuidado, rapazinho, cuidado com esse negócio perigoso". De menino que puxava toras de madeira em fazendas isoladas com estradas de dois metros de largura, ele evoluiu para os caminhões, depois para as pesadas carretas e, por fim, para o transporte coletivo. Dirigiu de tudo: Chevrolets clássicos, Fords, Volvos e até os “trólebus” – ônibus elétricos que desfilavam pelas praças de BH na metade do século passado.

Com o trólebus Marmon Herring Ton, modelo 1952, que fazia a linha Coração de Jesus
Com o trólebus Marmon Herring Ton, modelo 1952, que fazia a linha Coração de Jesus ARQUIVO PESSOAL

O RITUAL SAGRADO

Enquanto hoje muitos motoristas entram no veículo com o celular em uma mão e o acelerador pressionado na outra, o método de Onofre Ferreira começava muito antes de o motor roncar. Perguntado sobre qual era o primeiro passo de sua rotina diária, ele detalhou um verdadeiro ritual de respeito ao veículo. Antes de colocar qualquer coletivo ou caminhão em movimento, o primeiro passo era percorrer o veículo batendo com uma barra de borracha em cada um dos quatro pneus para sentir o som e garantir a calibração exata.

Em seguida, debruçava-se sobre o motor para checar o nível de água do radiador e puxar a vareta de óleo, assegurando que o coração mecânico estivesse saudável. Quando o transporte envolveu cargas pesadas, a atenção se voltava para a caixa de mercadorias, conferindo detalhadamente o carregamento junto à nota fiscal. Só então, após dar a partida, deixava o motor funcionando parado por longos cinco minutos para atingir a temperatura e a pressão ideais. Esse cuidado era, além de técnica, uma extensão de seu carinho pelos passageiros. Em uma época de relações mais humanas no trânsito, Onofre tratava cada passageiro como amigo.

Inauguração da linha Anchieta, em 1952, com o Ford 46
Inauguração da linha Anchieta, em 1952, com o Ford 46 ARQUIVO PESSOAL

MANTENHA DISTÂNCIA

O segredo para atravessar um século de tráfego sem um único arranhão em sua ficha reside em uma filosofia simples. “Se você mantiver a sua distância de outro, você nunca bate. Eu nunca bati. Nunca paguei uma multa. Não sei o que é pagar uma multa”, repetiu o motorista durante a conversa com a reportagem.

Nas garagens da capital mineira, onde colegas por vezes disputavam rotas ou se desgastavam em jornadas exaustivas, Onofre mantinha a serenidade. Mesmo quando aceitava dobrar o turno para cobrir colegas faltosos – acumulando horas ao volante –, ele nunca permitia que o cansaço atropelasse a sua atenção. Seu refúgio contra a exaustão era uma parada rápida no Centro de BH para tomar um prato quente de caldo de mocotó acompanhado de um refrigerante, recusando categoricamente as doses de bebidas alcoólicas que insistiam em lhe oferecer.

Com o caminhão da família, o clássico Ford V8
Com o caminhão da família, o clássico Ford V8 ARQUIVO PESSOAL

LIÇÕES DO SÉCULO PASSADO

Olhando o cenário atual, marcado por ocorrências graves, a jornada de Onofre surge como um manifesto contra o caos. Segundo ele, os acidentes recentes nascem da pressa e, às vezes, da vaidade. “O motorista que cola na traseira do outro ou acelera para aproveitar os últimos segundos do sinal verde está apenas flertando com a tragédia.” Respeitar o ritmo da via, manter a distância de segurança e entender que o espaço do asfalto é coletivo são preceitos que ele praticou por quase cem anos e que hoje parecem esquecidos.

Em seus conselhos, o idoso afirma que bebidas alcoólicas e drogas são incompatíveis com a vida na estrada, servindo apenas para encurtar caminhos rumo ao desastre. Ele acredita que dirigir bem não é uma questão de habilidade exibida, mas de consideração pelo próximo. Aposentado dos grandes coletivos, mas com a mente ainda afiada, Onofre segue acreditando que “o destino mais importante de uma viagem é sempre chegar com vida”.

CASOS E NÚMEROS

Em um intervalo de poucos dias, a capital mineira e seu entorno testemunharam episódios graves. Em 8 de outubro, dez pessoas ficaram feridas após um ônibus da linha 3052 bater na traseira de uma carreta na Avenida Waldir Soeiro Emrich, no Bairro Diamante, no Barreiro. Três homens e sete mulheres precisaram de atendimento do Samu e foram levados a hospitais da região. No dia anterior, o Km 548 da BR-040, em Nova Lima, na Grande BH, ficou caótico quando uma carreta desgovernada desencadeou um engavetamento envolvendo seis caminhões e 22 carros no sentido BH. O impacto deixou destroços espalhados pela via, seis pessoas hospitalizadas no João XXIII – três delas com maior gravidade – e a rodovia bloqueada.

Já no dia 13, uma mulher de cerca de 40 anos, em situação de rua, morreu atropelada por um ônibus da linha 5503B na Avenida Professor Alfredo Balena, no Santa Efigênia, Região Leste, ficando presa sob as rodas do veículo após ter desembarcado próximo à Alameda Ezequiel Dias. Pouco antes, na manhã de 28 de setembro, um idoso também perdeu a vida atropelado por um ônibus metropolitano da linha 2290 no cruzamento da Avenida Augusto de Lima com a Rua Santa Catarina, ao lado do Mercado Central.

Os casos refletem a estatística. Segundo dados da Superintendência de Mobilidade de Belo Horizonte (Sumob), 2025 encerrou como o mais violento da última década na capital mineira, contabilizando 13.887 sinistros de trânsito - superando marcas históricas anteriores como 2023, 2024 e 2019 -, com um saldo de 148 mortes e 13.739 feridos. Naquele ano, 834 ônibus e 447 caminhões se envolveram em acidentes nas ruas municipais. Este ano, os números continuam nas alturas. Até o momento, a Sumob registra 9.055 acidentes na capital, sendo 72 fatais, com envolvimento de 525 ônibus e 265 caminhões, além do fato de que as colisões traseiras, laterais e transversais representam mais da metade de todas as ocorrências na cidade, somando 4.803 registros.

A malha rodoviária federal, por sua vez, também contabiliza ocorrências. Nos primeiros sete meseks de 2026, os sinistros envolvendo ônibus e micro-ônibus nas BRs mineiras subiram para 159 ocorrências, contra 143 no mesmo período do ano anterior. Mais alarmante ainda é a letalidade dos casos: enquanto de janeiro a julho de 2025 foram registradas 27 mortes e 351 feridos nesses acidentes, no mesmo intervalo de 2026 o número de vítimas fatais saltou para 49 mortos e 443 feridos nas estradas federais do estado.

Carteira de habilitação datada de 28 de janeiro de 1948
Carteira de habilitação datada de 28 de janeiro de 1948 ARQUIVO PESSOAL

ANOTE AS DICAS DE OURO DO ‘SEU’ ONOFRE

Inspeção prévia
Nunca saia sem conferir os quatro pneus, a água do radiador e o óleo do motor.

Aquecimento do motor
Deixar o veículo funcionando parado por cerca de 5 minutos antes de rodar para ajustar a pressão e a temperatura da máquina.

Manter a distância de segurança
O segredo supremo para não bater é dar espaço.

Respeitar o tempo do sinal e da via:
Não tentar "apertar" ou acelerar para passar no sinal que está fechando. Espere a sua vez com paciência.

Atenção inegociável
Falta de atenção é a causa raiz de qualquer colisão. O motorista precisa estar 100% focado no trajeto.

Zero álcool e drogas
Cachaça e substâncias são incompatíveis com o volante

Cuide da sua saúde e alimentação
Em momentos de cansaço na jornada, faça pausas para se alimentar bem, em vez de recorrer a estimulantes ou bebidas.

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