A queda de um avião de pequeno porte no Bairro Silveira, na Região Nordeste de Belo Horizonte, na tarde desta segunda-feira (4/5), mobilizou equipes de resgate, autoridades de segurança e órgãos de investigação. O acidente ocorreu poucos minutos após a decolagem da aeronave, que havia saído do Aeroporto da Pampulha às 12h16 com destino a São Paulo.

A aeronave permaneceu no ar por cerca de cinco minutos antes de colidir contra um prédio residencial na Rua Ilacir Pereira Lima, em uma área urbana densa, cercada por comércios e instituições de ensino.

Até o momento, duas mortes foram confirmadas: a do piloto, Wellinton de Oliveira Pereira, de 34 anos, e a de Fernando Moreira Souto, de 36, filho do prefeito de Jequitinhonha, no vale homônimo, Nilo Souto. Fernando estava sentado no assento do copiloto, embora não exercesse essa função.

Outras três pessoas sobreviveram e foram socorridas com ferimentos graves. São eles: Arthur Schater Berganholi, de 25, que teve fratura no pé; seu pai, Leonardo Berganholi Martins, de 50; e Hemerson Cleiton Almeida Souza, de 53. Os três sobreviventes foram levados ao Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. 

O avião, de prefixo PT-EYT, é um modelo EMB-721C, fabricado em 1979, com capacidade para até cinco passageiros, além do piloto. Segundo registros, a aeronave pertence a Flávio Loureiro Salgueiro e era operada por uma empresa de internet sediada em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri.

A aeronave havia sido adquirida recentemente e ainda estava em processo de transferência, de acordo com informações da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG).

Falha logo após a decolagem

O voo teve origem em Teófilo Otoni e faria escala em Belo Horizonte antes de seguir para São Paulo. Na parada na Pampulha, duas passageiras desembarcaram e outra pessoa embarcou, segundo a PCMG. Ao todo, cinco pessoas estavam a bordo no momento da decolagem em Belo Horizonte.

Informações preliminares indicam que o piloto enfrentou dificuldades para ganhar altitude logo após deixar a pista. Segundo dados da NAV Brasil, responsável pelo controle do espaço aéreo, o comandante chegou a emitir um alerta de emergência (mayday), relatando falhas críticas. A torre de controle orientou o retorno imediato ao aeroporto, mas não houve resposta posterior.

O último contato registrado indica que o piloto ainda tentava recuperar a altitude antes da queda. Testemunhas também relataram comportamento anormal da aeronave ainda nas proximidades da Pampulha.

“As informações que temos de uma testemunha é que já no próprio Aeroporto da Pampulha a decolagem já não foi a correta, que estava perdendo altitude aqui na Pampulha”, afirmou a delegada da Polícia Civil, Andréa Pochmann, em coletiva de imprensa.

Sem conseguir recuperar desempenho, o avião seguiu em baixa altitude até atingir a fachada de um prédio entre o terceiro e o quarto andar. Parte da aeronave ficou presa à estrutura, enquanto outros destroços foram lançados para o estacionamento de um supermercado.

A investigação das causas ficará a cargo do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), vinculado à Força Aérea Brasileira (FAB). Técnicos do órgão foram acionados ainda nesta segunda-feira. Segundo nota, a chamada “ação inicial” envolve coleta de dados, preservação de elementos e análise dos danos à aeronave e ao local.

Impacto em área urbana

O acidente ocorreu em uma região de alta densidade urbana. Próximo ao local há escolas, incluindo uma unidade do Colégio Magnum a cerca de 600 metros e uma escola pública a aproximadamente 160 metros. O horário do acidente coincidia com a saída dos alunos.

Apesar do cenário potencialmente mais grave, não houve vítimas entre moradores ou pedestres. Todos os ocupantes do prédio atingido conseguiram sair com segurança. 

O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) foi acionado logo após o impacto, seguido por equipes da Polícia Militar (PM), que isolaram a área. A Polícia Civil realizou os primeiros levantamentos e acionou o rabecão para remoção dos corpos, encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML) Dr. André Roquette.

Segundo o major Johnny Franco, do Corpo de Bombeiros, a posição em que a aeronave ficou dificultou o resgate inicial dos moradores. “Todos foram retirados com segurança. Naturalmente, há impacto psicológico em situações como essa, mas, do ponto de vista físico, estavam preservados”, disse.

Ainda de acordo com o major, a fragmentação da aeronave será analisada pela perícia. “Com relação à dinâmica do acidente, é complexo passar qualquer informação do porquê houve a fragmentação da aeronave”, afirmou.

O combustível da aeronave estava concentrado nas asas, que permaneceram fora da estrutura principal do prédio, o que reduziu o risco de explosão. Mesmo assim, equipes aplicaram espuma no local como medida preventiva, já que havia forte odor de combustível.

Moradores relatam pânico e confusão

Para quem estava dentro do prédio atingido, ou nas imediações, o acidente foi percebido como uma ruptura súbita da rotina. A representante comercial Avani Soares, de 67 anos, estava sozinha no apartamento quando ouviu o impacto. 

“Eu estava olhando o computador, fazendo minha comida da semana, quando escutei o barulho. De repente escureceu tudo. Eu falei: ‘Meu Deus, Jesus voltou’”, contou. Segundo ela, a poeira tomou conta do ambiente. “Quando eu fui até a janela, estava tudo escuro, parecia noite. Mas era poeira, muita poeira."

Na descida apressada, o cenário se tornou ainda mais tenso. “O povo já estava gritando: ‘socorro, tô vivo, tô ferido’. Aí começou o medo mesmo.” Avani relata que hesitou por causa do cheiro de combustível. “Lá embaixo estava tudo molhado de combustível, estilhaço por todo lado.”

Em um prédio vizinho, o personal trainer Gabriel Silva Campos Moreira percebeu primeiro o som incomum. “Achei que não era nada, mas dois, três segundos depois ouvi a colisão”, disse em conversa com a reportagem. Ele descreve o barulho como semelhante a uma explosão. “O susto foi muito grande”, resume.

Outro morador, Paulo Henrique de Oliveira Laureano, afirmou que já vinha notando voos em baixa altitude nas últimas semanas. “Na última vez, achei que um deles ia bater na minha casa. Ele deu um rasante”, disse. Segundo ele, a situação causava preocupação entre moradores. “Temos crianças, famílias em casa”, disse.

Dentro do prédio atingido, o aposentado Oduvaldo Marinho, de 75, também relata surpresa. “Eu estava assistindo TV. De repente, ouvi só o barulho e senti um cheiro forte de combustível.” Ele conta que a evacuação foi rápida, feita pela garagem. Antes de sair, tomou uma medida preventiva e desligou a chave geral do edifício.

Confira o mapa do acidente e informações sobre a aeronave

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Soraia Piva e Paulo Miranda/EM/D.A.Press

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