MOBILIDADE URBANA

BH: mais motos no trânsito, mais risco de acidentes

Número de veículos de duas rodas nas ruas da capital cresceu 53% em 10 anos. No mesmo período, total de acidentes envolvendo motociclistas saltou 70%

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Belo Horizonte enfrenta um cenário desafiador na mobilidade urbana, com o aumento exponencial de veículos nas ruas, especialmente, de motocicletas, a cada ano. A consequência direta, segundo especialistas, são os acidentes, com destaque para as ocorrências que envolvem motociclistas, que avançam em ainda maior proporção. Em dez anos, o crescimento de motocicletas nas ruas de Belo Horizonte foi de quase 53%, conforme balanço da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que calcula a frota nacional de veículos com base nos registros do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores). Entre o início de 2015 e o fim de 2025, o número desses veículos de duas rodas circulando pelas ruas da capital mineira subiu de 204.465 para 312.527.

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De acordo com dados do painel de trânsito do Observatório de Segurança Pública da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp), a capital registrou em 2025 o maior volume de acidentes da última década – foram 88.731 sinistros, com um aumento de 21% entre 2015 e 2025, que somou 73.009 ocorrências. O número é ainda mais expressivo quando se trata de motocicletas. Em dez anos, o salto foi de quase 70%, passando de 12.464 em 2015 para 21.137 registros no ano passado.

Doutor em engenharia de transportes e especialista em trânsito, Frederico Rodrigues explica que o número de pessoas comprando veículos, principalmente motocicletas, impacta diariamente no fluxo de trânsito, ampliando as ocorrências. Isso porque, segundo ele, com um número maior de pessoas dirigindo, há um acréscimo proporcional de exposição nas estradas e dentro das cidades. Em BH, mais de 800 mil sinistros foram registrados em 10 anos em diversas vias. A facilitação para compra de veículos e para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) também está interligada à situação, conforme o especialista.

“Cada vez mais, estão ocorrendo mudanças como desburocratização do processo de obtenção de habilitação para dirigir, mas a gente vê que deveria haver um maior rigor e não uma facilitação”, afirma. Segundo Rodrigues, existem várias coisas que contribuem para aumentar o número de sinistros. “Mas, de forma geral, cada vez mais o número de motos está maior, assim como a frota (de veículos) está maior, o número de deslocamentos está maior, o que automaticamente aumenta esse índice de ocorrências”, explica.

A quantidade de motos emplacadas também é um indicador que demonstra crescimento da presença desses veículos na capital mineira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), os novos registros de motos 0km chegaram a 2.823 em março deste ano, contra os 2.328 emplacamentos do mesmo período de 2025, um aumento de 21,3%. Se o número do mês passado for comparado com fevereiro deste ano, quando foram vendidas 2.010 unidades, o salto é ainda mais expressivo, de 40%, em apenas um mês.

Em Minas Gerais, o quadro acompanha a alta: o estado passou de 11.653 motos emplacadas em março do ano passado para 15.874 em março deste ano, 36% a mais comparado ao período anterior. Em um mês, o número de emplacamentos de motocicletas no estado também avançou 39% – de 11.458 em fevereiro deste ano para 15.874 em março. Para se ter ainda mais ideia do tamanho do “problema”, no acumulado do ano, até o mês passado, as vendas de motos 0km correspondem a 21% do total de veículos novos em geral comercializados em Minas, ainda segundo dados da Fenabrave.

PREÇO E FACILIDADE

Entre os motivos para o aumento das motocicletas nas ruas está também o preço acessível se comparado a outros veículos e as facilidades de compra. Com pouco mais de R$ 11 mil é possível comprar uma Honda Pop 110 0km. Pagando cerca de R$ 3 mil a mais, o interessado pode levar para casa uma Biz 125, da mesma marca. Já a CG 160, campeã de vendas – 47.965 unidades comercializadas em março – parte de cerca de R$ 18 mil, segundo dados dos próprios sites das montadoras. Juntas, as três somaram 98.550 unidades vendidas no mês passado.

Outras marcas, como Yamaha e Shineray, também têm modelos similares com preços também compatíveis com a faixa. Uma scooter Shineray Jet 125 SS, por exemplo, sai por cerca de R$ 14 mil, divididos em até 48 vezes, sem entrada, o que num cálculo simples, sem os juros, custaria R$ 292 por mês.

Já se a opção for por veículos usados, há opções para todos os gostos e bolsos. O importante é o interessado ficar atento à condição da moto, afirmam especialistas do setor. Outro atrativo é a eficiência energética. Uma Honda Pop 110 faz até 60 quilômetros com um litro de gasolina e chega a até 100km/h,. Em outra conta simples, considerando o litro da gasolina a R$ 6,60, cada quilômetro custaria R$ 0,11.

PERIGO AGRAVADO PELO ÁLCOOL

A morte de um motociclista de aplicativo em Belo Horizonte no domingo, 12 de abril, ilustra os dados preocupantes, e especialistas apontam gargalos. Diante do fluxo maior de motocicletas para serviços de entrega e para transporte de passageiros, o risco de fatalidades sobe drasticamente quando há consumo de álcool envolvido, causando o número recorde de 109 acidentes de moto associados à embriaguez em BH no último ano – 33% a mais do que o total de 2024, de 82, segundo dados da Sejusp.

O motoqueiro Danilo Pereira Marinho havia completado 25 anos no dia 10 de abril e um mês de casado no mesmo dia em que morreu na MGC-356, antiga BR-356, ao ter a moto atingida por uma Ford Ranger Raptor. O rapaz fazia uma corrida por aplicativo quando o veículo foi atingido na altura do Ponteio Lar Shopping, no Sion, na Região Centro-Sul de BH. Na garupa, estava um adolescente de 16 anos que ficou gravemente ferido e deixou o hospital somente nessa terça-feira (21/4), depois de quase dez dias internado.

A morte causou revolta entre os companheiros de categoria, que fizeram manifestações para pedir mais segurança e respeito nas vias. O caso demonstra como a vulnerabilidade dos motociclistas é ampliada quando outros condutores negligenciam normas básicas, como evitar a mistura fatal de álcool e direção. Conforme o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar (PM), o motorista da picape, de 45 anos, se recusou a fazer o teste do bafômetro, mas demonstrou sinais de embriaguez, assim como os outros dois passageiros do veículo. Ele foi preso em flagrante, mas foi solto depois de pagar fiança de mais de R$ 45 mil dois dias depois do acidente.

FALTAM FISCALIZAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO

O engenheiro Frederico Rodrigues ressalta que, embora a fiscalização seja fundamental, a conscientização dos motoristas sobre o impacto de suas escolhas é o que pode, efetivamente, reduzir as estatísticas. Ele explica que, no trânsito, é necessário “educação, fiscalização e engenharia”. “Temos que ter uma fiscalização cada vez maior, especialmente no Brasil. As pessoas não seguem (algumas regras), então tem que ter mais fiscalização, sim. E tem que ter mais conscientização, que começa na infância, para as pessoas dirigirem diferente, pilotarem diferente, terem mais conscientização”, reforça.

O acidente com Danilo Marinho reforça a tendência de crescimento de colisões graves na cidade, muitas delas ligadas à imprudência e ao desrespeito à Lei Seca. Segundo Frederico Rodrigues, a legislação é bastante rígida, mas ainda há brechas na fiscalização, uma vez que há muitas estradas por todo o país, impossibilitando de averiguar todos os pontos o tempo todo.

“A gente tem várias blitz, mas elas são amostrais. A gente não consegue ter uma blitz em cada avenida, em cada ponto. Isso é impossível, então, sem dúvida, todos os dias tem pessoas embriagadas circulando, dirigindo, pilotando, e uma hora essa situação de ‘não consciência completa’ ao dirigir leva à ocorrência de sinistros”, alerta o engenheiro. De acordo com ele, a legislação brasileira é até mais rigorosa quando comparada a outros países, mas ainda há falhas na fiscalização e em campanhas de conscientização. (Colaborou Paulo Galvão)

MUITOS NÚMEROS

204.465

Número de motos em circulação em BH em 2015

312.527

Número em 2025

53%

Aumento de motocicletas no trânsito da capital em 10 anos

12.464

Número de acidentes com motocicletas em 2015

21.137

Número de em 2025

70%

Aumento de ocorrências em 10 anos

2.010

Número de motos 0km vendidas em fevereiro deste ano em BH

2.823

Foram as vendas em março

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40%

Foi o crescimento no número de motocicletas novas nas ruas da capital mineira em um mês

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