Nesta terça-feira (17/3), Minas Gerais chegou à 90º vítima do atual período chuvoso, que se tornou o mais letal das últimas duas décadas. O recorde anterior era de 2019/2020, com 74 mortes. Ontem o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) encontrou o corpo de Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, última vítima das enchentes na cidade de Ubá (MG), na Zona da Mata. Com isso, o município registra oito mortes causadas pelas chuvas este ano. 

O profissional autônomo desapareceu no temporal que atingiu a cidade em 23 de fevereiro. De acordo com os Bombeiros, os agentes coordenavam a retirada de materiais acumulados na calha do Rio Ubá, quando avistaram um corpo próximo à “ponte do aeroporto” e ao campo do Santo Antônio, na rodovia entre Ubá e Guidoval. O corpo estava aproximadamente a 500 metros de distância da ponte, sentido aeroporto.

Em Juiz de Fora (MG), também na Zona da Mata, Pietro, de 9 anos, o último desaparecido da chuva forte que atingiu a região no fim de fevereiro, foi encontrado na noite do dia 28 do mesmo mês pelo Corpo de Bombeiros. Foi preciso demolir uma casa para ajudar na busca pelo menino. 

Mortes por período chuvoso

  • 2024/2025: 27 
  • 2023/2024: 6 
  • 2022/2023: 22
  • 2021/2022: 30 
  • 2020/2021: 22 
  • 2019/2020: 74 
  • 2018/2019: 18
  • 2017/2018: 12
  • 2016/2017: 18 
  • 2015/2016: 4 
  • 2014/2015: 6 
  • 2013/2014: 23 
  • 2012/2013: 24 
  • 2011/2012: 20
  • 2010/2011: 23 
  • 2009/2010: 20
  • 2008/2009: 44
  • 2007/2008: 20
  • 2006/2007: 26

 

Chuvas em Minas Gerais

A primeira vítima das chuvas foi Luigi de Jesus Aurichio, de 5 anos, que teve morte cerebral em decorrência de soterramento provocado por deslizamento em Sabará (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no dia 16 de dezembro de 2025.

A casa onde Luigi morava foi impactada por um muro de arrimo que desabou devido a um deslizamento provocado pelo chuva forte. A mãe de Luigi e os dois irmãos foram atingidos superficialmente, mas o pai e o menino ficaram soterrados.

Luigi sofreu um corte na boca e parada cardiorrespiratória. Depois de quase uma hora de reanimação, ele foi encaminhado ao Hospital João XXIII, onde ficou internado em estado grave por dois dias até ter a morte confirmada.

Atualmente, 13 mil pessoas em Minas Gerais encontram-se desalojadas e 12 mil, desabrigadas, segundo o boletim diário da Defesa Civil estadual desta quarta-feira (18/03). Um total de 178 municípios decretou situação de emergência. 

Municípios que registram mortes causadas pela chuva

  • Juiz de Fora - 65
  • Ubá - 8
  • Eugenópolis - 4
  • Mendes Pimentel - 3 
  • Mutum -1 
  • Santana do Riacho  - 1
  • Muriaé - 1
  • Santa Rita de Caldas - 1
  • João Pinheiro - 1 
  • Pouso Alegre - 1
  • São Tomé das Letras - 1
  • Sabará - 1
  • Porteirinha - 1

 

Desastre na Zona da Mata

O temporal histórico que atingiu a Zona da Mata foi responsável pela morte de 72 pessoas, o que corresponde a 86,6% das vítimas das chuvas de 2025/2026. Dos 65 casos em Juiz de Fora, 61 tiveram os corpos foram encontrados pelo Corpo de Bombeiros Militar (CBMMG). Outras quatro pessoas foram resgatadas e morreram posteriormente. 

Em Ubá, sete pessoas morreram em desabamentos e deslizamentos e uma oitava morte foi contabilizada indiretamente em decorrência das chuvas, por eletrocussão. Eugenópolis também registrou quatro mortes e Muriaé, uma. 

O principal evento aconteceu no dia 23 de fevereiro, quando foram registrados 185 milímetros de chuva em um intervalo de quatro horas. O volume saturou o solo que já vinha acumulando chuva desde o dia 18, provocando enchentes e deslizamentos que deixaram um rastro de destruição principalmente nos municípios de Juiz de Fora e de Ubá.

Encostas cederam, rios transbordaram, pontes foram destruidas e ruas desapareceram sob lama e escombros. No mesmo dia da tragédia, as duas cidades decretaram estado de calamidade pública, status que permanece até hoje. 

Ao Estado de Minas, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil informou que segue em atenção permanente em relação ao período chuvoso e que o comitê de crise permanece atuando de forma ininterrupta na Zona da Mata desde o episódio mais crítico, com foco na recuperação das áreas atingidas e no restabelecimento da normalidade nos municípios.

Ainda segundo o órgão estadual, o Governo de Minas investiu R$ 13 milhões e empregou mais de 243 equipamentos em ações de limpeza e recuperação das cidades, que incluem limpeza e desobstrução de vias urbanas e rurais, suporte técnico-operacional no pós-desastre, manejo e destinação adequada de resíduos.Além disso, a Defesa Civil já enviou mais de 9.800 itens de ajuda humanitária para a Zona da Mata, entre cestas básicas, colchões, kits dormitório e outros insumos essenciais. 

 

Mais chuva à vista

A meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Anete Fernandes afirma que o primeiro trimestre de 2026, principalmente o mês de fevereiro, foi mais chuvoso que o normal. Juiz de Fora, por exemplo, atingiu a marca de 733,6 milímetros no dia 26/2, o que corresponde a um volume 331% superior ao esperado, uma vez que a média histórica para o mês na cidade é de 170,3 mm. Segundo a especialista, as chuvas atípicas na Zona da Mata ainda serão estudadas por climatologistas.  

“As chuvas acima da média se devem ao fenômeno La Niña que, mesmo que fraco, promove alterações e faz com que tenha uma recorrência maior da formação do canal de umidade entre a Região Amazônica e as Regiões Centro-Oeste e Sudeste. Isso justifica também as Zcas que tivemos em janeiro e fevereiro”, diz.

Anete explica que há previsão de pancadas de chuva isoladas, preferencialmente à tarde, nas Regiões Centro-Sul e Oeste de Minas Gerais até o fim de semana devido à circulação de ventos em médios níveis e áreas de cavado, que são áreas de baixa pressão se propagando na atmosfera e trazendo umidade. 

“Já estamos caminhando para o fim do período chuvoso, mas, por enquanto, a gente ainda espera chuvas frequentes. Abril é um mês de transição entre as estações chuvosa e seca. Depois as chuvas se tornam cada vez mais raras até começar o período seco no mês de maio”, diz Fernandes.

O Inmet emitiu um alerta amarelo para Belo Horizonte e outros 380 municípios mineiros nesta quarta-feira. A previsão é de de chuva de até 50 milímetros por dia e ventos intensos de até 60 km/h. O Inmet reforça que há baixo risco de corte de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e de descargas elétricas.

A Defesa Civil afirmou que mantém monitoramento 24 horas por dia em todo o estado, com atenção a todas as regiões, especialmente durante o período chuvoso. Esse trabalho é coordenado pelo Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec), inaugurado em novembro de 2024, responsável por monitorar em tempo real das condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas a fim de identificar áreas com maior risco de desastres. O investimento para a criação do Cindec foi de R$ 12,5 milhões.

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Desde o início do período chuvoso, em 1º de outubro de 2025, já foram emitidos 3.312 alertas via SMS e 336 envios pelo sistema Defesa Civil Alerta.

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