A preparação física e mental dos 3 mil novos soldados da PMMG
Durante visita do Estado de Minas, novos soldados compartilharam planos e o dia a dia do treinamento da corporação
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O sol atingia o ponto mais alto, e o pátio da Escola de Formação de Soldados, no bairro Gameleira, Região Oeste de Belo Horizonte, fervia. Sob o calor intenso, milhares de alunos se alinhavam em fileiras impecáveis. Todos iguais. Todos atentos. Cada movimento respondia a um comando. “Direita…esquerda!”, ecoava no espaço, acompanhado do som seco dos tênis contra o chão e da cadência da marcha. Foi nesse cenário que a reportagem do Estado de Minas acompanhou, por uma tarde, o treinamento dos calouros da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG).
Na entrada, o slogan anuncia: “Forjando heróis de verdade”. A expressão refere-se à jornada de indivíduos que, através de disciplina, superação física e psicológica, e trabalho em equipe, desenvolvem as qualidades para servir e proteger, tornando-se modelos para a sociedade. Mais de 3 mil aprovados no concurso público da corporação iniciado no ano passado, realizam o Curso de Formação de Soldados (CFSd) 2025 - iniciado em setembro. A capacitação, que terá duração de nove meses em tempo integral, marca a entrada da nova turma de militares.
Os longos corredores da unidade são preenchidos por mil alunos que se concentram na unidade em BH. Homens de cabelo raspado, mulheres - das raras que aparecem entre as turmas - de cabelo preso. Todos igualmente alinhados com calça azul escuro, camiseta branca, tênis preto e um boné numerado que parecia apagar, por instantes, as individualidades. Alguns deles foram selecionados pelas autoridades que guiaram a visita para conversar com a equipe do EM.
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Por trás do número 095 está o aluno-soldado Carlos Eduardo Rocha, de 29 anos, que estudou por três anos até conseguir ingressar na corporação. Filho e neto de militares, ele contou à reportagem como tem sido a rotina e os aprendizados. “É bem desafiador e diferente do que pensei que seria. A corporação nos prepara não só o físico, mas também o lado mental. Questões como hierarquia e disciplina são bem enraizadas na instituição, desde o início vamos sendo lapidados”, relatou.
O respeito às autoridades é bem representado pela continência, simbolizando disciplina, honra e união entre os militares. O movimento é prestado a superiores, bandeiras, hinos e outras tropas, com regras específicas para determinar quem inicia a saudação com base na hierarquia ou na presença da Bandeira Nacional. Na escola de formação, os recém-chegados foram vistos batendo continência sempre que “trombavam” com alguém de farda, de modo quase automático.
Servir e proteger
Carlos Eduardo reforçou a convicção de estar sendo preparado para lidar com qualquer situação. “A todo momento somos treinados. Se ficamos em pé marchando, passamos por uma aula que nos treinou a ficar dessa forma por mais tempo. Cada dia temos um desafio novo”, comentou o aluno, que tem no pai um grande exemplo de profissional. “O amor pela farda desde a infância é comum a muitas pessoas. Meu pai é uma pessoa controlada emocionalmente, me transmite seriedade e firmeza, mas ao mesmo tempo um carinho, é uma honra seguir os passos dele”, acrescentou.
Ele disse ainda, que ao entrar na corporação, teve mudanças de pensamento quanto a sua missão na carreira militar. “Enquanto civil, eu tinha receio da violência, na corporação tenho segurança. A polícia deixou de ser um órgão tão repressivo, hoje atendemos a sociedade como um todo. A imagem que eu tinha de ir para a rua deter infratores mudou, hoje quero servir e proteger, seja ajudando um idoso, ou qualquer civil com alguma dúvida ou questão pertinente relacionada aos direitos”, pontuou Rocha.
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Primeira da família
A aluna Marina Pereira, de 26 anos, que estava debaixo do sol quente obedecendo os comandos da marcha, é natural de Senhora de Oliveira, na Zona da Mata, e foi a primeira da família a entrar para a instituição militar. Ela contou que a admiração pela entidade a fez trocar as lentes da câmera, que a acompanharam em seu trabalho como fotógrafa, pelos dias intensos de treinamento.
“Não é uma rotina fácil, é muito desgastante, mas também é muito valorosa. Aprendemos vários princípios que vamos levar para a vida toda, como hierarquia e disciplina. Foi uma alegria muito grande ingressar, já que não é um concurso fácil. Cada final de percurso e jornada concluída é muito gratificante para nós”, afirmou.
Espírito de corpo
Marina ressaltou a importância das amizades feitas dentro da escola. Por lá, ela disse que o lema é “a união faz a tropa”. “Todos são unidos e movidos pelo mesmo objetivo e sonho, vamos rompendo juntos. É sempre um ajudando o outro”, mencionou. A aliança entre os integrantes alimenta também o desejo da aluna de que sua família e futuros filhos sigam a mesma caminhada escolhida por ela.
Entre os rostos concentrados na formação, surge também o de Daphne Mendes, de 27 anos. Assim como Marina, entre os primeiros aprendizados, ela destaca um que considera determinante: o “espírito de corpo”. “Diz respeito à lealdade uns com os outros. Percebemos que se não nos ajudarmos, não formamos”, confirmou.
Plano de carreira
Para Daphne o ingresso na Polícia Militar de Minas Gerais é a realização de um desejo antigo. “A PM de Minas tem um nome muito forte no país, e eu sempre admirei isso, principalmente pelo plano de carreira e pela estabilidade financeira”, contou. A notícia da aprovação teve impacto imediato em casa. “Minha família ficou feliz demais, minha mãe mais feliz do que eu. Meu avô era militar; não cheguei a conhecê-lo, mas acho que já está no sangue”, relembrou.
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A aluna fala do treinamento com a convicção de quem enxerga nele uma base necessária para, daqui dez anos, se tornar uma oficial. Ela, que foi chamada enquanto fazia aula de defesa pessoal, ressaltou o papel social do policial. “É de extrema essencialidade. Aprendemos disciplina, defesa pessoal e também direitos humanos.Temos que ter preparo e cautela. Com isso, conseguimos contornar qualquer tipo de situação lá fora. Até mesmo a forma de abordar o cidadão precisa sempre resguardar seus direitos”, comentou.
Trabalho transformador
Sob o comando do Tenente-Coronel Leandro Mafra, a Escola de Formação de Soldados da PMMG opera como uma verdadeira fábrica de transformação. A missão, como define o comandante, é séria e de extrema responsabilidade. "Recebemos um jovem oriundo da sociedade e o transformamos, em nove meses, em um profissional de segurança pública", assegurou.
O Curso de Formação de Soldados (CFSd), iniciado em 8 de setembro e com previsão de encerramento em 22 de maio de 2026, mobiliza um contingente impressionante: cerca de mil alunos na capital mineira e mais 2.150 no interior do estado, totalizando 3.150 futuros soldados em Minas Gerais.
Sem trégua
A jornada de treinamento não dá trégua. Os calouros são submetidos a um cronograma contínuo, das 8h às 19h, que equilibra o rigor físico e a capacitação técnica. No pátio, a disciplina é reforçada com marchas exaustivas, frequentemente acompanhadas de canções de instrução como a "Canção do Montanhista", que os recrutas entoam com a letra na ponta da língua.
Nas salas, identificadas e com listas de nomes afixadas nas portas, o conteúdo teórico é ministrado em módulos de 50 minutos, em um revezamento incessante. As disciplinas abrangem toda a missão policial militar, com destaque para provas de cunho técnico relativas a armamento, equipamento e defesa pessoal. Além disso, aulas específicas sobre comunicação organizacional e postura, preparam as turmas para dar entrevistas e lidar com a mídia, incluindo o treinamento de voz.
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À noite, a formação continua com monitorias e simulações de ocorrências, preparando os alunos para lidar com a complexidade da vida real. A única pausa são os breves intervalos para lanche, almoço e jantar. "Buscamos essa qualificação para que na rua, em situações difíceis, eles tenham plenas condições de operar com tranquilidade, mesmo diante dos desafios", concluiu o Tenente-Coronel.
Hierarquia da PMMG
Soldado
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Segundo tenente
Primeiro tenente
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Major
Tenente coronel
Coronel
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O soldado só chega até o subtenente por meio de promoções. Caso queira mudar de patente é preciso realizar outro curso, de formação de oficiais. O salário inicial é de R$ 4.360,83.