Formada pela UFMG, atua no jornalismo desde 2014 e tem experiência como editora e repórter. Trabalhou na Rádio UFMG e na Faculdade de Medicina da UFMG. Faz parte da editoria de Distribuição de Conteúdo / Redes Sociais do Estado de Minas desde 2022
Recorte de jornal que aparece em uma das cenas conta desfecho de Armando crédito: Divulgação
Indicado a quatro estatuetas do Oscar, o filme “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, provoca debates intensos sobre a conclusão da trama, já que traz um final que evita explicações diretas. Em vez de oferecer uma conclusão fechada, o diretor constrói um desfecho que precisa ser montado pelo próprio espectador.
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Mas um detalhe em uma das cenas dá pistas do que aconteceu no final do filme. Na trama, a historiadora Flávia (Laura Lufési) funciona como o elo entre o presente e o período da ditadura militar. Intrigada com inconsistências na história oficial sobre Armando, personagem vivido por Wagner Moura e que adota o nome falso de Marcelo para se esconder, ela decide aprofundar sua investigação.
Flávia mergulha em arquivos físicos e documentos históricos até encontrar a peça que faltava para completar o quebra-cabeça: um antigo recorte de jornal. E é justamente nesse trecho que o filme revela, de forma sutil, o que aconteceu com o protagonista.
O documento encontrado por Flávia é uma reportagem de 1977 do Diário de Pernambuco. No texto, assinado pelo repórter Cleudson Coelho, aparece a confirmação do assassinato de Armando de Melo Solimões, morto a tiros no Recife (PE) depois de ser perseguido por dois assassinos contratados. Muitos espectadores pausaram a cena para ler a reportagem completa e descobrir o desfecho sugerido pela narrativa.
Reportagem conta destino de Armando O agente secreto / reprodução
Quem era Armando?
O texto jornalístico apresentado no filme traz duas visões opostas sobre o personagem. De um lado, aparece o relato humano de quem conviveu com ele. Do outro, a versão oficial da polícia.
Dona Sebastiana, administradora do edifício Ofir e interpretada por Tania Maria, defende o antigo morador. “Ele era um bom homem, tenho certeza. Essa história de corrupção não pode ser verdade. Ele veio para cá para começar uma nova vida, perto do filho”, afirma a personagem na reportagem.
Já o delegado responsável pela investigação, identificado no texto como Marcos Porto, apresenta uma visão diferente. “Esse aí não valia muita coisa não. Essa história de que era cidadão do bem, não tem nada disso. O cabra tava envolvido em coisa bem feia por lá”, declara o delegado na reportagem.
Segundo o texto, Armando era acusado de corrupção e de desviar recursos públicos destinados a pesquisas científicas em Brasília. A suspeita seria o motivo de sua fuga para o Recife, onde passou a trabalhar como arquivista na Secretaria de Segurança Pública usando identidade falsa.
O jornal também revela aspectos pessoais: Armando era pernambucano, viúvo e tinha um filho de 8 anos, Fernando, que vivia com os avós maternos na capital pernambucana.
Tânia Maria, atriz potiguar de 78 anos, foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago, no Chile, pelo papel deSenastiana em “O Agente Secreto”. Moradora de um pequeno povoado do Rio Grande do Norte, ela chegou ao audiovisual por acaso, ao ser convidada para “Bacurau”.
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Desde então, acumulou seis filmes e passou a ser citada por veículos como The New York Times, Variety e The Hollywood Reporter como possível candidata ao Oscar. O jornal americano destacou até a naturalidade com que ela fuma em cena, hábito que manteve por mais de seis décadas.
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Para não perder novas oportunidades, Tânia decidiu parar de fumar e agora sonha em viajar para a cerimônia do Oscar, rejeitando qualquer limite imposto pela idade.
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Embora o tabaco seja notoriamente prejudicial à saúde e, em muitos casos, fatal, o cigarro ainda é largamente consumido. E campanhas de conscientização tentam desestimular essa prática. Dia 29 de agosto é Dia Nacional de Combate ao Fumo.
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O cigarro como instrumento de inclusão é um problema que foi debatido desde os tempos áureos do cinema, quando o fumo era considerado charmoso.
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Impossível saber o alcance do mal causado pelos filmes da época na saúde dos espectadores, tamanha a quantidade de personagens fumantes que inspiraram jovens ao longo de décadas. Nos anos 1920, o cigarro representava glamour e rebeldia.
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Muitas vezes, uma metáfora para a sedução, como em “A Carne e o Diabo” (1926), com Greta Garbo. Entre as décadas de 1930 e 1960, houve uma sucessão de filmes em que os atores fumavam em ambientes que atraíam a atenção pelo requinte e autonomia.
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James Dean, jovem e belo ator que servia de inspiração para milhares de fãs, apareceu fumando no clássico “Juventude Transviada” (1955). Olhe a foto e pense: quem, na época, não acharia um charme?
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A bela Audrey Hepburn com sua piteira marcou época – um gesto hoje condenável.
Domínio público
Humphrey Bogart, no clássico “Casablanca”, interpreta o charmoso Rick Blaine. Personagem tão cativante que divide o coração de Ilsa Lund (Ingrid Bergman). E em cenas atraentes, ele dava uma tragada no cigarro.
Divulgação Humphrey Bogart Casablanca
Bette Davis foi uma das atrizes que mais vezes apareceu na tela com um cigarro nas mãos. Era um companheiro quase permanente.
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O cigarro era até mesmo um instrumento de sedução, como nesta cena de “Now Voyager” (1942), em que o galã Paul Henreid acende o cigarro de Bette Davis, ambos num clima de sensualidade.
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Aqui é o oposto. A mulher é que acende o cigarro do homem. Clark Gable, símbolo sensual de sua geração, dá aquela olhada em Joan Crawford com o cigarro a postos.
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Marlene Dietrich foi outra, quase sempre com um cigarro na boca na personagem. A atriz chegou a fazer propaganda de cigarro. No cartaz, ela aparece sofisticada, maquiada, com cabelos alinhados, vestido de gala, e uma piteira. A propaganda diz que o Lucky Strike é mais brando que outros.
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Os filmes de faroeste também não largavam o cigarro. Clint Eastwood, um dos ícones do western americano, desejado pelas moças e por rapazes em sua época de herói, a todo instante tinha um cigarro na boca.
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John Wayne e Gary Cooper chegavam a receber dinheiro de fabricantes de cigarro para promover o produto nos filmes. Ambos morreram de câncer. Na foto, propaganda da marca Camel feita por John Wayne.
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Mais recentemente, o cigarro ainda marcava presença, embora com menos intensidade e sem associação a charme e elegância. Além disso, passou a haver uma resistência a esse tipo de apelo.
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Tanto que o cartaz promocional do filme Coco Chanel foi vetado, em 2009, na publicidade na França, pois tem Audrey Tautou segurando um cigarro – o que foi considerado uma propaganda de cigarro (proibida no país).
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Hoje, o apelo pelo cigarro já foi bastante reduzido. O cinema parou de glamourizar o fumo. Não há mais propaganda de cigarro. E os alertas são explícitos nas embalagens numa tentativa de dissuasão.
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