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Estado de Minas EFEITOS

Músicos de BH sentem impacto da pandemia da COVID-19 no setor

Resultados de pesquisa da UFMG revelam cenário de redução salarial, mudanças de carreira e desafios na adaptação on-line


15/07/2021 16:47 - atualizado 15/07/2021 18:01

Luis Teixeira não vai deixar a música, mas vai focar seu trabalho em startups(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )
Luis Teixeira não vai deixar a música, mas vai focar seu trabalho em startups (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )

O impacto da pandemia da COVID-19 na cadeia de produção musical de Belo Horizonte levou à redução de salários, desemprego, migração para outras carreiras e readaptação para o meio digital. Uma pesquisa realizada pelo Escutas - Grupo de Pesquisa em Sonoridades, Comunicação, Textualidades e Sociabilidade do Departamento de Comunicação Social da UFMG, mostrou que  em grupos socialmente mais vulneráveis, as consequências são ainda mais graves e a adaptação ao universo on-line dificulta ainda mais resultados financeiros para a grande maioria dos músicos. 
Foram entrevistados 171 profissionais da música (como cantores, compositores, instrumentistas, técnicos de som, DJs, produtores executivos, luthiers, entre outros) entre 10 de agosto e 06 de outubro de 2020. O resultado revela uma situação de redução salarial e reinvenções profissionais do setor na capital mineira.
 

Retomada gradual 

 
Uma nova fase do levantamento vem sendo desenvolvida pelo grupo, para avaliar como o setor reagirá à retomada gradual dos eventos, shows e funcionamento de casas noturnas e de festas. Para alguns profissionais, faltou diálogo por parte das autoridades governamentais sobre políticas de apoio ao setor. 
 
Os dados indicam precarização no setor musical, em um cenário com alta ocorrência de informalidade. O abandono ou a mudança de atividade se fizeram muito presentes. Alguns optaram por dirigir carros de aplicativos, atividades gastronômicas, entregas e serviços. 
 
A pesquisa indicou que antes da pandemia 5,8% dos entrevistados diziam ganhar mensalmente o equivalente a um salário mínimo com a música (R$ 1.045). Com a pandemia, houve um aumento significativo de pessoas ganhando pouco. Quase metade dos entrevistados (43,9%) viu sua renda despencar a esse patamar de um salário mínimo mensal obtido com a atividade, impacto que atinge os músicos e dependentes diretos. Dos 171 profissionais ouvidos, 145 afirmaram que vivem da própria renda com música  (84,8%).  Desse total, 77 disseram que têm um ou mais dependentes dessa renda.
 
Os dados também revelam que a precariedade é distribuída de forma diferenciada com base em gênero, sexualidade, raça e etnia, geração e classe, variáveis que também foram consideradas pela pesquisa. Entre os profissionais negros entrevistados, que representam 37,4% do total, metade estava na faixa de um salário mínimo mensal antes e continuou nesse patamar durante a pandemia.
 

Necessidade de sobrevivência 

 
De acordo com Graziela de Mello Vianna, professora e coordenadora do grupo Escutas, boa parte dos entrevistados disse, que na persistência das restrições, não mais poderia continuar no ramo musical, por necessidade de sobrevivência.
 
Mais de 37% responderam que as atividades foram interrompidas completamente, 29,8% mantiveram atividade, com adaptações, mas que ficaram comprometidos, e 20,5% consideraram as atividades razoavelmente comprometidas. Entre os que respoderam, 52% afirmaram que migraram para o ambiente on-line, fizeram reuniões e professores de música tiveram que se adaptar a esse formato.
 
Os resultados foram publicados em uma edição especial da Frontiers in Sociology, revista internacional que dedicou um volume a estudos sobre os impactos da pandemia na música em todo o mundo. Além disso, as informações foram apresentadas e estão disponíveis no YouTube do grupo responsável pela pesquisa.
 
Em sua próxima etapa, a pesquisa ainda vai investigar questões específicas que emergiram nas respostas do questionário da primeira fase - como o impacto das leis de incentivo à cultura e 'o desafio da barreira tecnológica do virtual, seja para dar aulas, produzir e monetizar lives, entre outros aspectos', explicou Graziela de Mello Vianna. 
 
Luis Gustavo Teixeira, além de produtor, era músico. Deixou a carreira de jornalista, publicitário e engenheiro elétrico para se dedicar à música. Chegou a tocar todos os dias da semana, e algumas vezes até três shows em um só dia. Mas foi impactado em cheio pela pandemia. "Quando veio a pandemia, estava formal e informalmente desempregado. Comecei a estudar algumas coisas de marketing digital." Montou uma startup e passou a empreender. Contou com a ajuda de um amigo e acabou montando uma empresa, com clientes on-line, trabalhando em casa, atendendo a um mercado cada vez mais dependente do e-commerce. 
 
Teixeira diz que neste um ano conseguiu se superar. Sobre apoio aos setor musical cobrou diálogo do poder público com o setor. "Antes de qualquer auxílio, faltou diálogo." Diz que não abandonará a música, mas passará a focar no seu novo ramo de negócio. "Mesmo porque são ainda muitas as incertezas dos rumos e consequências da pandemia."
 

'Perdemos o chão' 

 
Flavio  Boca, também conhecido como Flavio Caixeiro, vocalista e instrumentista da Banda Carnavalesca Volta Belchior, disse que eram muitos os projetos antes da pandemia. "De repente, a partir de março de 2020, perdemos o chão, tanto para quem executava quando para quem promovia. Sentimos muito a falta de apoio, principalmente do município, com o qual contribuímos muito com grandes eventos, como o carnaval, onde a cadeia turística trazia muitos recursos."
 
Flávio conta que a única fonte financeira foi um projeto aprovado na Lei Aldir Blanc "e só". Mas reonheceu que a situação ficou ainda mais difícil para as pessoas de apoio técnico, que não tiveram qualquer acesso a incentivos. 

Aos poucos, Flávio vem retomando as atividades. Já houve um show na semana passada e no próximo final de semana já tem apresentação no bar Fundo da Floresta. "Tudo de forma muito comedida, cautelosa."
 
Deiwson Born, além de chefe de cozinha, é cantor e compositor. A partir de 2017, formou um grupo, o Trio Nienio, com dois ex-componentes da banda Sexo Explícito, que se apresentava em BH nos anos 1980 e 1990.  "Primeiramente, compusemos várias músicas, eu o Mário e o Roger, e depois começamos os ensaios. Quando nos preparávamos para a estreia, veio a pandemia." Deiwson, que trabalhava em um restaurante, perdeu o emprego. Com três filhos que cria sozinho, tentou trabalhar com comida delivery "mas não tive fôlego, não consegui receber nem o auxílio emergencial". 
 
Para agravar ainda mais a situação de um dos integrantes, o Roger morreu em novembro do ano passado. "Foram momentos muito difíceis. Mas o Mário e eu estamos retomando os ensaios." O cantor e chefe montou um tropeiro delivery, "Quintal do Chefe", no Instagram, onde tenta sobreviver até que "as coisas se definam melhor".
 

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