APERTE O PLAY

Casas recorrem a playlists próprias para traduzir, em som, suas propostas

Além de preencher o ambiente, trilha sonora reforça o conceito de bares e restaurantes

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Errado está quem pensa que a música pode ser aleatória em um restaurante. A playlist, assim como o menu, o ambiente e o atendimento, deve ser pensada – seja para estar dentro do conceito da casa ou mesmo para traçar o percurso do cliente.

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O restaurante Pacato, no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, tem como sócio o músico Vitor Velloso. Por aí já fica claro que música é coisa séria por lá.


Como ele explica, nos cinco primeiros menus da casa, foram criadas playlists específicas com músicas autorais e inéditas, compostas e gravadas de acordo com o tema – no momento, esse projeto se encontra em um “hiato”, mas deve retornar em breve. “A ideia era fazer uma canção que sintetizasse o que queremos dizer com o menu.”


O primeiro cardápio do Pacato rendeu a canção “Ser Pacato”, parceria de Vitor Velloso e Thiago Delegado. “Ela foi inspirada em um poema de Guimarães Rosa, em que ele diz que Minas é um desafio de serenidade. Achei aquilo a cara do Pacato, e a música fala desse desafio que é ser pacato”, explica. A música fazia parte de uma playlist com obras marcantes de artistas mineiros de diferentes gerações.


Inspirada no segundo menu, a faixa “Descomeço”, de Vitor Velloso e Heitor Branquinho, fala sobre maturidade. “Quando você vai começar um projeto, muita gente fala que o primeiro passo é o mais difícil, mas descobri que o segundo é mais desafiador. E essa música fala sobre sair do começo e entrar no ‘descomeço’, esse momento de continuidade, de amadurecimento”, conta o sócio da casa.


Diferentemente da primeira, essa playlist explorou mais o “lado B” de músicos mineiros – ou procurou ao menos sair um pouco do óbvio, com, por exemplo, uma música do Skank interpretada por Fernanda Takai.

Vale do Jequitinhonha


O terceiro menu, por sua vez, falava sobre o Vale do Jequitinhonha. Intitulada “Tudo vai renascer”, a canção composta para o cardápio com referências nortistas mineiras foi uma parceria de Paulinho Pedra Azul e Vitor Velloso. “Essa letra fala um pouco sobre o nascer do dia. Tem uma coisa bucólica que acredito ter a ver com o Jequitinhonha.”

Sócio do Pacato, o músico Vitor Velloso já compôs com Paulinho Pedra Azul música para menu dedicado ao Vale do Jequitinhonha
Sócio do Pacato, o músico Vitor Velloso já compôs com Paulinho Pedra Azul música para menu dedicado ao Vale do Jequitinhonha Marcelo Guerra/Divulgação


A playlist criada para esse momento começava em Minas e terminava no Nordeste. “Acredito que o Jequitinhonha faz essa junção nítida das duas regiões. E essa é uma das playlists que mais gosto. Chegava um momento da noite e estávamos ouvindo xaxado”, relembra o sócio do Pacato.


Outro cardápio em homenagem à região ganhou a música “Inhaúmas”, de Vitor com Murilo Antunes. A canção leva o nome de um rio que atravessa a cidade de Pedra Azul (onde Murilo nasceu), que está localizada no Vale do Jequitinhonha. “Ela tem um caráter super nostálgico. É interessante o Murilo falando que ‘o rio mais lindo que há é o que passa no meu lugar’”, comenta Vitor.


Para esse segundo menu, a playlist fez o caminho inverso: saiu da Bahia até chegar a Minas, mais especificamente Belo Horizonte, fechando com Milton Nascimento.

O tempo fala


A última música composta por Vitor para um menu do Pacato foi “Redenção do tempo”, criada para um cardápio dedicado ao queijo e todos os seus componentes, sendo o tempo um deles. “Quando o Caio [Soter, chef do Pacato] me falou da ideia de um menu sobre o queijo, pensei no queijo como uma matéria viva e orgânica exposta ao tempo.”


A canção veio subverter um pouco do que costumamos ouvir e falar. “É o tempo falando em primeira pessoa. Acho que, ao longo da vida, a gente o culpa muito, então escrevi sobre o que o tempo nos diria.”


Essa foi a primeira vez em que uma playlist do Pacato se abriu para obras de todo o Brasil e do mundo, inclusive algumas em inglês. “Justamente porque a vida e o tempo [sobre o que a música fala] abrangem o mundo, não só Minas Gerais.”

Bituca e Lô


Como o foco agora no Pacato é o à la carte, a seleção musical não segue um tema específico. “Partimos do princípio de que as pessoas chegam em horários diferentes, comem coisas diferentes, não seguem a mesma sequência, diferentemente da lógica da degustação”, elucida.


Atualmente, o restaurante tem duas playlists que vão sendo alternadas: “Viva Bituca” e “Eterno Lô Borges”. São compostas majoritariamente por músicas de Milton Nascimento e Lô Borges, como o próprio nome indica, mas não se limitam a esses ícones mineiros.

Inspiração japonesa


Também de Vitor Velloso, o bar de coquetéis Chika, localizado na Savassi, é todo baseado em um estilo musical japonês: o city pop. Popularizado nos anos 1980, ele mistura pop, funk, disco, música eletrônica e jazz.

Antes de ter o tema definido o bar Chika já contava com uma playlist baseada no estilo musical japonês city pop, que se popularizou nos anos 1980
Antes de ter o tema definido o bar Chika já contava com uma playlist baseada no estilo musical japonês city pop, que se popularizou nos anos 1980 Daniel Monteiro/Divulgação


“Comecei a ouvir esse estilo musical e, quando o Chika ainda não tinha um tema, sugeri a estética do Japão nos anos 1980 baseado nisso. Desde então, fui montando a playlist e comecei a descobrir músicas pelo mundo que tinham a ver com esse movimento. O próprio álbum “Lilás”, do Djavan, por exemplo, tem muito essa influência”, comenta.


No Chika, a playlist ajuda o ambiente a nos levar para outra realidade – bem o que pede um “speakeasy”, os chamados bares “secretos”, que inspiram a casa. “A ideia é te ‘sequestrar’ de um ambiente e te colocar em outro lugar.”

Axé da Bahia


Há uma casa colorida e cheia de vida no Bairro Sion, Região Centro-Sul de BH, que nos leva diretamente para a Bahia. Ao entrar no Alguidares, que celebra seu 30º aniversário neste ano, os inúmeros quadros e esculturas nas paredes, as roupas dos garçons e, claro, a música cuidadosamente selecionadas nos fazem pensar por um instante que fomos transportados para terras baianas.

Deusa Prado procura canções mais 'suaves' para que os clientes saiam de um dia agitado e encontrem no Alguidares um lugar calmo
Deusa Prado procura canções mais 'suaves' para que os clientes saiam de um dia agitado e encontrem no Alguidares um lugar calmo Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


Deusa Prado, proprietária da casa, conta que, ao lado de Carlos Ramos, gerente do restaurante, procura nunca tirar o foco da Bahia. “Usamos músicas baianas ou MPB. De vez em quando, aparece um Chico Buarque, por exemplo.”


A seleção que, vez ou outra, muda fica em um pen drive e costuma ser tocada em volume moderado. “Procuro canções mais ‘suaves’, que façam o cliente que sai de um dia agitado encontrar um lugar calmo”, explica Deusa.


Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa, esses baianos gigantes da música, não só no Brasil mas no mundo, estão sempre na playlist da casa, inclusive com músicas por vezes menos difundidas. Uma das que mais toca Deusa é “Um dia de domingo”, composta por Michael Sullivan e Paulo Massadas e interpretada por Gal Costa e Tim Maia.

Em cada lugar, um som

O DJ Leandro Rallo não monta trilhas sonoras apenas para as casas das quais é sócio, faz disso um ofício. Shoppings, lojas em geral e até clínicas costumam requisitar o serviço, afinal, são décadas dedicadas à música.


“Todo mundo percebe o som ao chegar em um lugar. Se as músicas tocadas não tiverem a ver com o ambiente, muita gente até vai embora. A música é um dos pilares que conecta o cliente com o espaço, ela pode abraçar ou expulsar”, reforça o DJ, que se vê nesses casos como um “sommelier musical”.

Para o DJ Leandro Rallo, que monta playlists para todo tipo de negócio, a música é o que conecta o cliente ao espaço
Para o DJ Leandro Rallo, que monta playlists para todo tipo de negócio, a música é o que conecta o cliente ao espaço Arquivo pessoal


Para entender a necessidade de quem requisita uma playlist, Rallo precisa de informações como: qual é o produto do estabelecimento, o que o proprietário quer passar e quem é o cliente.


No Amy Wine Bar, localizado no Bairro Olhos D’Água, Região Oeste de BH, onde Rallo também é sócio, o público-alvo é “moderno, formado por pessoas que prezam pela experiência sonora além da gastronômica”.


A escolha para a playlist da casa foi focar em música eletrônica, que o profissional associa muito aos clientes de lá. “Às vezes, as pessoas se assustam quando escutam esse nome, que ficou muito ligado à boates e raves, mas, quando falamos em música eletrônica, estamos nos referindo ao fato de ser feita por sintetizadores e computadores”, explica.


Ele acrescenta que remixes de canções diversas também são incluídos entre as faixas tocadas no Amy Wine Bar – inclusive, da musa inspiradora, a cantora Amy Winehouse.

Ritmo e ordem


Rallo destaca que, ao montar uma trilha, é essencial pensar no ritmo. “Não dá para fazer uma salada musical, é preciso ter uma ordem lógica.” O que ele faz no seu bar é aumentar a velocidade da música ao longo da noite – esse cálculo é feito pelo número de batidas por minuto, o famoso BPM. “As pessoas que ficam até mais tarde já comeram e querem mais diversão, mais agito”, explica, destacando a relação clara da música com o consumo do menu.


Aliás, isso reforça a importância da ordem das músicas. Diferentemente do que muita gente faz, para o DJ, as músicas não devem ser tocadas em ordem aleatória. “Conto uma história musical pela playlist. Sempre aviso para quem me pede para montar uma para que ela seja tocada na ordem dela, até porque geralmente vai aumentando o BPM com o tempo.”

Duas casas, duas atmosferas


À frente do Cabernet Butiquim e do Rex Bibendi, duas casas na Região da Savassi, Pablo Teixeira separa bem as duas operações em muitos aspectos, inclusive o musical. “A música sempre foi muito importante para mim, até inegociável. No Cabernet, especificamente, investimos muito em acústica [no Rex isso deve ocorrer logo, logo], e isso é muito importante para que o cliente coabite com o som.”


A seleção do que toca no Cabernet é bem diversa – são 22 playlists que mesclam vários ritmos e propostas. No geral, Pablo destaca a forte presença de músicas brasileiras, “que vão do Caetano Veloso a Marina Sena”.


“No almoço, de terça a sexta, opto por algo como um jazz mais tranquilo ou lounge, até porque nossa cozinha não é expressa e não posso agitar meu cliente. No fim de semana, durante o dia, costumo colocar samba e, à noite, já busco opções mais agitadas e aceleradas”, conta Pablo, explicando basicamente a dinâmica do Cabernet.


Por outro lado, no Rex Bibendi, que já tem um perfil mais de restaurante, as músicas tendem a ter ritmo mais tranquilo. “É uma casa que tem o histórico do jazz na calçada, tem a questão da acústica não ser igual à do Cabernet e sinto que as pessoas gostam mais de conversar lá.”

A palavra do momento


Depois de “cozinha afetiva”, a palavra da moda no meio gastronômico é, sem dúvida, “experiência”. O termo, que passou a ser usado de forma quase descontrolada – exatamente como ocorreu com “afetividade” –, é, de fato, muito importante. Ele diz respeito à união de fatores que citamos nesta matéria, como ambientação, atendimento e sabor. A música, portanto, soma na experiência do cliente à mesa. Aliás, o fato de muitas casas trabalharem com playlists em aplicativos como o Spotify possibilita que parte da “atmosfera” do restaurante seja levada para casa pelos consumidores.


Há muito por trás


Além do gosto pessoal, a seleção musical para uma operação gastronômica leva em conta outros diversos fatores. Ela pode ser feita para transportar o cliente para um outro lugar, como é o caso do bar Chika e do Alguidares, pode ser pensada em uma ordem cronológica que acompanha o percurso do cliente, como é o caso do Pacato e do Amy Wine Bar, e pode levar em conta o perfil do público, como fazem o Cabernet Butiquim e o Rex Bibendi.

Segundo o musicoterapeuta Luís Leão, há estudos que relacionam a forma de consumo ao ritmo das músicas
Segundo o musicoterapeuta Luís Leão, há estudos que relacionam a forma de consumo ao ritmo das músicas Arquivo pessoal


Luís Leão, musicoterapeuta, destaca que pode ser possível melhorar uma experiência por meio da escolha musical correta. “Há uma dificuldade de comprovar cientificamente que foi o som que gerou determinado gosto ou experiência, mas sabemos que na musicoterapia, através de um estudo individualizado, dá para identificar a possibilidade de melhorar uma experiência.”


Não há uma “receita de bolo”, no entanto. Se uma casa contrata um musicoterapeuta, ele precisará entender o “histórico sonoro musical, o perfil da casa, do dono e do cliente, a acústica do espaço…” E quando falamos em proposta da casa, leva-se em consideração se o restaurante ou bar pretende ser um espaço para conversa, para sentir algo novo e fora do comum, se é temático, e por aí vai.

Boa acústica


Para uma experiência incrível, uma boa acústica faz a diferença. “O ouvido humano é extremamente rigoroso com música. É preciso pensar na arquitetura sonora de um ambiente, ver se o som é distribuído igualmente e ter caixas de qualidade.”

Ritmo e volume


Assim como o DJ Leandro Rallo, Luís destaca a importância do BPM no momento de consumo de comidas e bebidas. “Há estudos que relacionam a forma com que consumimos com o ritmo de músicas. Se um dono de restaurante quer que o cliente fique mais tempo na casa, por exemplo, ritmos de conforto, com menos batidas por minuto, devem ser trabalhados. Bares de consumo mais rápido já optam por músicas mais aceleradas.”


Nesse sentido, o volume do som também afeta a experiência do cliente. “Um ambiente com músicas mais alta e com comida pode ser prazeroso, mas geralmente quando busco a comida como um complemento. Quando estou em busca de uma experiência mais gastronômica, tendo a desejar a música mais baixa”, explica.

E o marketing?


A noção do marketing conversa muito com a música nessa busca por uma experiência completa. Quando falamos nisso, não precisamos nos fechar a bares e restaurantes. A marca italiana de massas Barilla, por exemplo, lançou há alguns anos uma campanha interessante: criou playlists no Spotify com o tempo exato de cozimento de algumas das massas que vende – atribuindo a função de cronômetro à seleção de músicas.


A ação conectou a marca com os clientes de forma efetiva e barata, por meio de uma plataforma on-line que está difundida mundialmente. Quando restaurantes e bares também propagam suas atmosferas e gostos por meio dessas plataformas musicais, criam uma verdadeira comunidade.

Serviço


Pacato

  • Rua Rio de Janeiro, 2735, Lourdes
  • (31) 98324-8736
  • De quarta a sexta, das 12h às 15h e das 19h às 23h;
  • Sábado, das 12h às 16h e das 19h às 23h;
  • Domingo, das 12h às 16h.
  • @pacatobh

Chika

  • Rua Sergipe, 629, Savassi
  • De quinta a sábado, das 19h às 23h30
  • @barchika.jp

Amy Wine Bar

  • Rua Adriano Chaves e Matos, 100, Olhos D'Água
  • (31) 99895-6968
  • De quarta a sexta, das 18h à 1h;
  • Sábado, das 16h à 1h.
  • @amy.winebar

Alguidares

  • Rua Pium-í, 1037, Cruzeiro
  • (31) 3221-8877
  • Terça e quarta, das 12h às 15h e das 18h30 às 23h;
  • De quinta a sábado, das 12h às 23h;
  • Domingo, das 12h às 18h.
  • @alguidares

Cabernet Butiquim

  • Rua Levindo Lopes, 22, Funcionários
  • (31) 98447-4102
  • De terça a sábado, das 11h30 às 23h30;
  • Domingo, das 11h30 às 16h.
  • @cabernetbutiquim

Rex Bibendi

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  • Rua Antônio de Albuquerque, 917, Funcionários
  • (31) 97507-4751
  • De terça a quinta, das 11h30 às 15h e das 18h às 23h;
  • Sexta, das 11h30 às 15h e das 18h às 23h30;
  • Sábado, das 11h30 das 23h;
  • Domingo, das 12h às 16h.
  • @orexbibendi

*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino

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