Frio e tempo seco, uma combinação de risco
Doenças respiratórias lotam hospitais e centros de saúde em Belo Horizonte. Aumento da circulação de pessoas em ambientes fechados agrava disseminação dos vírus
compartilhe
SIGA
Salas de espera, leitos de UTI e enfermarias de hospitais, UPAs e centros de saúde de Belo Horizonte enfrentam superlotação em meio ao aumento dos casos de doenças respiratórias. Crianças e idosos lideram a procura por atendimento, enquanto famílias relatam demora, dificuldade para conseguir vagas e preocupação com agravamento dos sintomas. O avanço dos quadros respiratórios ocorre justamente no outono e inverno, estações mais frias e secas que favorecem a circulação de vírus como Influenza, Vírus Sincicial Respiratório (VSR), Rinovírus e Covid-19, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).
No Hospital Infantil João Paulo II, na Região Centro-Sul da capital, a ocupação da UTI pediátrica chegou a 100% no último sábado (23/5). Já a enfermaria registrou taxa de 82%. Ao longo dos últimos cinco dias, a ocupação da UTI não voltou a ficar lotada, mas teve variação entre 78% e 96%, enquanto a enfermaria ficou entre 80% e 91% (veja quadro).
Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pela gestão do hospital infantil, neste ano, a unidade registrou crescimento de até 50% tanto nos atendimentos do pronto-socorro quanto nas internações pediátricas.
Para enfrentar esse aumento nos casos de doenças respiratórias e reforçar o atendimento às crianças nesse período sazonal, a unidade ampliou a estrutura assistencial desde abril. Foram abertos sete novos leitos de UTI, 19 leitos de enfermaria, dois consultórios de urgência, oito vagas na sala de observação e cinco pontos na sala de medicação. Além da expansão física, o hospital reforçou a equipe com 150 novos profissionais, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas respiratórios.
Leia Mais
Mesmo com as medidas emergenciais, a procura continua intensa. Na sala de espera do hospital, pais e responsáveis aguardam atendimento para crianças com febre alta, tosse persistente, chiado no peito, dificuldade respiratória e suspeitas de bronquiolite ou pneumonia.
A diarista Iara Adriane Sales, de 32 anos, mãe de Alice, de 3, e Mavie, de 9 meses, procurou atendimento no João Paulo II para a caçula após semanas de sintomas persistentes.
“Tem mais de 15 dias que ela está passando mal e já fui no Odilon Behrens e não teve vaga. Desde fevereiro que ela vem tendo esses problemas e sempre estou procurando atendimento e está difícil, já vim mais de cinco vezes. Tudo por causa de doenças respiratórias”, contou.
Ela relata que a bebê apresenta suspeita de bronquiolite e que o quadro recorrente aumenta a preocupação da família. “Como ela é uma criança muito ativa, quando adoece eu fico ainda mais preocupada. Tenho medo de ser algo mais grave”, afirmou. Iara retornou com a pequena para ser atendida na unidade e enfrentou horas de espera. “Tive aqui também na semana passada e eu fiquei cinco horas esperando para ela ser atendida. Hoje foi mais rápido”, relatou.
Outro pai que procurou atendimento no João Paulo II foi o barbeiro Daniel Costa Soares, de 21 anos. Ele levou os dois filhos – Noah, de 1 ano, e Kelvin, de 1 mês – ao hospital, após o caçula apresentar sintomas de doença respiratória. Acompanhado da esposa, ele conversou com a reportagem enquanto o bebê era atendido na unidade.
O jovem contou que a família já havia procurado outro hospital antes de buscar atendimento no João Paulo II. “O Kelvin começou a passar mal há 20 dias. A gente já tinha ido à Santa Casa. E viemos para o CGP [Centro Geral de Pediatria] porque a tosse dele não estava parando”, contou.
O movimento intenso na unidade chamou a atenção da família. “Chegamos aqui tem 40 minutos e estamos sendo atendidos rápido porque o Kelvin está com a pulseira amarela, mas percebemos que as crianças com pulseira verde estão demorando mais para serem chamadas”, relatou.
A empreendedora Júlia Alessandra Batista Fernandes, de 19, mãe da pequena Ágatha, de 8 meses, que tem asma, também buscou atendimento na unidade. “Ela estava com febre alta e respirando muito fundo. Cheguei às 7 horas da manhã, ela estava com febre de 38°C e 39°C e respirando muito fundo e foi atendida perto do meio-dia”, contou.
A jovem disse que teme uma piora no estado de saúde da filha porque a bebê já ficou internada duas vezes. “Ela já ficou internada no CTI daqui duas semanas, em dezembro. Na época, os médicos me mandaram para casa e ela piorou quando chegou lá. Tive que voltar e ela ficou internada de novo. E hoje novamente a médica não soube o que ela tem e falou que se os sintomas voltarem é para trazer ela de novo”, afirmou.
Moradora de Ribeirão das Neves, além da preocupação médica, Júlia destaca a dificuldade de deslocamento. “A distância é muito longa. Dá uma hora e meia daqui até nossa casa. Tenho medo de acontecer de novo”, disse.
Pressão sobre a rede municipal
Dados da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) mostram que a pressão sobre a rede municipal também aumentou. Somente neste ano, as nove UPAs e os 154 centros de saúde da capital já realizaram mais de 34 mil atendimentos de pessoas acima de 60 anos com doenças respiratórias. Apesar de alto, o número é menor do que o registrado entre janeiro a maio de 2025, quando houve cerca de 42 mil atendimentos. Entre crianças de 0 a 9 anos, o número já chega a 59 mil atendimentos em 2026 até o momento. No mesmo período de 2025, foram cerca de 82 mil.
Na capital, foram registradas até o momento 153 mortes pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) neste ano. Desse total, 123 ocorreram entre idosos acima de 60 anos e quatro entre crianças de até 9 anos. No mesmo período do ano passado, foram 285 óbitos de pessoas acima de 60 anos e outros dois de crianças entre 0 e 9 anos.
Em todo o estado, SES-MG já contabiliza 14.953 mil internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) este ano. Do total, 6.669 são de crianças de 0 a 9 anos e 4.803 de pessoas com 60 anos ou mais. No mesmo período de 2025, foram 18.039 casos de hospitalização pela síndrome, sendo 8.867 de crianças de 0 a 9 anos e 5.410 de idosos.
Minas registrou, entre janeiro e maio de 2026, 656 mortes por SRAG. Dessas, 33 eram crianças de 0 a 9 anos e 500 idosos. No mesmo intervalo de 2025, foram 1.139 óbitos, sendo 74 de crianças de 0 a 9 anos e 846 de 60 ou mais. Segundo a Secretaria de Saúde, para acompanhar a evolução desses casos, o estado mantém uma sala que monitora em tempo real casos, internações, ocupação de leitos e óbitos, permitindo respostas mais rápidas, como a ampliação de leitos e ajustes na rede de saúde.
Atenção aos sintomas
O médico pneumologista Daniel Bretas explica que a combinação entre clima seco, temperaturas mais baixas e aumento da circulação de pessoas em ambientes fechados favorece a disseminação dos vírus respiratórios. “Entre maio e agosto há um pico histórico das doenças respiratórias em Belo Horizonte. O frio e o tempo seco facilitam a circulação dos vírus. A baixa cobertura vacinal também preocupa”, afirmou.
Outro fator importante destacado pelo especialista é a retomada total das atividades presenciais nas escolas e creches, sem o uso de máscaras, somada à queda da imunidade coletiva após a pandemia, o que favorece a transmissão dos vírus respiratórios. “Além disso, BH enfrenta no inverno episódios frequentes de inversão térmica, que prendem os poluentes no ar e irritam as vias respiratórias, aumentando o risco de infecções”, completou.
O especialista alerta que alguns sinais indicam necessidade imediata de atendimento hospitalar. “Falta de ar, lábios arroxeados, febre acima de 39°C, sonolência excessiva e esforço para respirar”, explicou. Nas crianças pequenas, o esforço respiratório é um dos principais sinais de gravidade. “Quando o tórax afunda para respirar, isso mostra esforço respiratório importante e exige avaliação urgente”, explicou.
Daniel Bretas orienta ainda que os pais observem mudanças no comportamento das crianças, como prostração, recusa de líquidos e aumento da frequência respiratória. “Bronquiolite costuma começar com coriza e depois evoluir com chiado e falta de ar. Já a pneumonia geralmente vem acompanhada de febre alta, prostração e respiração acelerada”, afirmou.
O médico também alerta para práticas inadequadas durante o tratamento em casa. “Os pais nunca devem dar antibiótico por conta própria, usar xaropes para tosse em menores de 2 anos ou esperar melhora em casa quando a criança apresenta lábios roxos ou esforço para respirar.”
Entre as recomendações do médico para reduzir a transmissão das doenças respiratórias estão manter a vacinação em dia, higienizar as mãos com frequência, utilizar máscara em casos de sintomas gripais e evitar aglomerações.
A SES-MG reforça que a vacinação continua sendo a principal estratégia para evitar casos graves e internações. Minas já recebeu mais de 5,2 milhões de doses da vacina contra a influenza, que já foram distribuídas aos 853 municípios.
Além da vacina da gripe, a pasta destaca a importância da imunização contra Covid-19, pneumococo e Haemophilus influenzae tipo b (Hib). Também foram incorporadas novas estratégias de proteção, como a vacinação de gestantes contra o Vírus Sincicial Respiratório e a utilização do anticorpo monoclonal nirsevimabe para crianças com maior risco. Esse anticorpo de ação prolongada oferece proteção imediata contra o VSR. Atua entregando a defesa pronta ao organismo, prevenindo formas graves como a bronquiolite.
Procura também nos particulares
Hospitais da rede privada da capital mineira também enfrentam aumento na demanda por atendimentos respiratórios. No Hospital Felício Rocho, a procura cresceu significativamente nas últimas semanas. A unidade não informou o percentual, mas destaca maior vulnerabilidade entre crianças pequenas e idosos, grupos que concentram os casos mais graves atendidos pelo hospital.
No Hospital Madre Teresa, o aumento da demanda por atendimentos respiratórios foi de cerca de 76,2% entre janeiro e março deste ano, passando de 362 para 638 casos. Mesmo após o pico observado em março, os números permaneceram elevados nos meses seguintes, com 571 atendimentos em abril e 588 casos até essa quinta-feira (28/5). Entre os diagnósticos mais frequentes estão sinusite aguda, infecções das vias aéreas superiores, resfriados, amigdalite, pneumonias e broncopneumonias.
Já a Unimed-BH informou que sua rede assistencial, tanto adulta quanto pediátrica, segue operando normalmente. Segundo a cooperativa, houve apenas um discreto aumento na procura por atendimentos na segunda quinzena de maio, mas a capacidade assistencial segue adequada, com pronto-atendimento, internações e UTIs operando regularmente.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*Estagiária sob supervisão da editora Vera Schmitz