Dados indicam chuva normal antes de problemas em minas da Vale
Estação pluviométrica do Cemaden próxima dos locais registra volume de precipitação considerado usual por especialistas. Empresa diz que apura as causas
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Depois do registros dos extravasamentos nas minas de Viga e de Fábrica, a Vale atribuiu o problema ao alto volume de chuva registrado na Região Central do estado nos dias que antecederam os fatos. No entanto, números oficiais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), consolidados pelo Núcleo de Dados do EM, mostram que a chuva na área foi de 93,5 milímetros entre 22 e 25 de janeiro, ou seja, dias antes e na própria data quando ocorreram os problemas. Na avaliação de especialistas, o número é normal para o período chuvoso.
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O dado vem de uma das estações do Cemaden, localizada em Santo Antônio do Leite, distrito de Ouro Preto, a cerca de 26 quilômetros de distância da Mina de Viga e a aproximadamente 18 do complexo minerário de Fábrica. “É comum termos pancadas de 40, até 50 milímetros, numa só tarde durante o período chuvoso. Isso acontece, duas, três vezes por temporada (de precipitação). Então, cerca de 90 milímetros em quatro dias é, relativamente, bem comum, principalmente nos meses de novembro, dezembro e janeiro”, afirma Lizandro Gemiacki, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Lizandro Gemiacki ressalta, ainda, que o fenômeno da precipitação é desarticulado, portanto pode haver diferenças entre a estação do Cemaden e os pluviômetros da Vale, ainda que eles estejam próximos (leia mais abaixo).
O vice-presidente técnico da companhia, Rafael Bittar, afirmou, na semana passada, que “o plano de chuva não foi suficiente nesses dois locais para absorver” o volume de água que desceu dos céus. Em nota (leia o texto completo abaixo), a Vale informou que apura as causas dos problemas e que "utiliza estações meteorológicas próprias instaladas nas áreas das operações, além de dados de órgãos oficiais, como a Agência Nacional de Águas (ANA)", mas não detalhou o volume exato de precipitação na semana dos fatos.
Para efeito de comparação, em dezembro do ano passado, a mesma estação pluviométrica do Cemaden, localizada perto das minas da Vale, registrou um volume de 86,2 milímetros entre os dias 2 e 5, bastante semelhante ao acumulado nos dias anteriores aos problemas ocorridos em Congonhas.
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Na entrevista que deu à imprensa, Rafael Bittar, vice-presidente da Vale, falou que “choveu de uma maneira concentrada” na região das minas, mas esta afirmação também não se sustenta quando se olha para os dados do Cemaden. Entre 18 e 21 de janeiro, ou seja, no início da semana quando ocorreram os extravasamentos, a estação pluviométrica de Santo Antônio do Leite registra um volume de 33 milímetros, considerado baixo para esta época do ano. Ou seja, o volume total de precipitação da semana dos problemas, entre 18 e 25 de janeiro, foi de 126,5 milímetros no pluviômetro citado.
“Pelas experiências que temos tido, de forma direta, esse volume citado, dentro de um mês como janeiro, eu não consideraria anormal para essa região. É o auge da estação chuvosa, que se inicia em outubro. Houve uma influência da Zona de Convergência do Atlântico Sul, então esses episódios de 100 milímetros em poucos dias são até frequentes”, diz Carlos Wagner, doutor em geografia e professor do Cefet-MG.
Empresa se posiciona
Demandada pela reportagem, a Vale enviou a seguinte nota de posicionamento: “As causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e os aprendizados extraídos serão incorporados aos processos da companhia”.
“Com relação aos volumes de chuva, a Vale utiliza estações meteorológicas próprias instaladas nas áreas das operações, além de dados de órgãos oficiais, como a Agência Nacional de Águas (ANA). Esse monitoramento permite uma avaliação mais precisa das condições locais, que podem variar significativamente dentro de uma mesma região”, completou a empresa.
Outros fatores
Ainda que a chuva da semana dos extravasamentos não seja anormal para os especialistas ouvidos, o mês de janeiro de 2026, como um todo, concentra uma quantidade de chuva acima do mesmo período de 2025 e 2024 na estação pluviométrica de Santo Antônio do Leite, segundo os dados do Cemaden. No primeiro mês do ano passado, o órgão federal registrou 307 milímetros no equipamento, ante 466 neste ano, portanto uma alta de 51%. Em relação a 2024, houve um acréscimo ainda maior, de 166%.
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Independentemente do volume de chuva, os especialistas ouvidos pela reportagem ressaltam que outros fatores podem influenciar nos impactos que uma determinada precipitação tem sobre uma área. “A gente tem que ter cautela nessa análise. Os valores estão dentro do que se espera para a região. Mas, qual o contexto hidrológico? O solo estava saturado por chuvas anteriores? Qual a capacidade de drenagem das estruturas de contenção? E o histórico de manutenção? São dados que não temos de maneira pública”, afirma Carlos Wagner, do Cefet-MG.
Outro ponto de atenção, desta vez na opinião do meteorologista Lizandro Gemiacki, do Inmet, é o relevo da região onde as minas estão instaladas. "Depende da característica local e da vulnerabilidade de cada município. Cair 50 milímetros numa tarde em BH é diferente de 50 milímetros em Chapada Gaúcha (Norte de Minas) ou no Triângulo Mineiro, onde o relevo é mais plano”, diz.
No escuro
Uma falta de transparência que dificulta a análise de especialistas e a fiscalização das autoridades. Em entrevista ao Estado de Minas, o professor de física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) de Ouro Preto, Daniel Neri, contestou a tese de que o alto volume de chuva contribuiu para os problemas registrados nas minas de Fábrica e Viga, no último dia 25. Para ele, a ausência de informação clara por parte da Vale sobre a quantidade exata de precipitação registrada nos arredores dos seus complexos minerários dificulta um exame fiel dos fatos.
“Não sabemos, de fato, o acumulado de chuva que as estações pluviométricas da empresa estão medindo. Tem um índice que chama de erosividade, que depende da intensidade da chuva de curta duração. Porque uma coisa é eu falar assim: ‘teve uma chuva de 200 milímetros em 24 horas’. Mas, se desses 200 mm, 100 caíram em apenas uma hora, isso derruba qualquer coisa”, diz.
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Segundo ele, a falta de transparência das empresas coloca a população e até os órgãos responsáveis pela fiscalização “no escuro”. “Além da precariedade das estações meteorológicas, é preciso criar escoamento para a água que acumula na cava. É preciso dar vazão para ela, tem que ter drenagem, monitoramento”, afirma.
O professor ainda ressalta que a cava 18 da Mina de Fábrica não tem registro público como dique nem como barragem, mas estava sendo usada para armazenar água. “Se ela não estava registrada (publicamente), quer dizer que não temos informação nenhuma sobre essa estrutura. Quando ocorre um transbordamento desse, fica todo mundo às cegas”, diz.
De fato, em consulta ao painel da Agência Nacional de Mineração (ANM), que reúne informações sobre represas de todo o Brasil, não há informação sobre a cava 18 da Mina de Fábrica. Em Ouro Preto, a Vale relaciona 10 estruturas, mas apenas uma delas se trata de um dique: o chamado Dique de Pedra, um equipamento inativo localizado na mesma mina que apresentou problemas em 25 de janeiro deste ano.
Chuva normal
Daniel Neri, do IFMG, concorda com as fontes ouvidas pela reportagem na página anterior: a milimetragem de precipitação registrada no dia dos extravasamentos das minas de Fábrica e de Viga é considerada normal para o período. Como mostrou o EM, uma estação pluviométrica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) próxima das minas registra 126 milímetros de precipitação na semana dos fatos, sendo 93 nos quatro dias anteriores.
“Essas cavas, que estão sendo usadas para guardar rejeito, ou dique de contenção ou sumps não estão dimensionados para chuvas mais fortes. Essas estruturas estão no topo do morro. Embora eles digam assim: ‘Ah, foi uma cava que extravasou’. A água não vaza para cima, a água sempre desce”, afirma Neri, que também é membro da Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração (FLAMa-MG).
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Segundo o professor de física, a água que escorre cidade abaixo provoca um “efeito cascata”, o que pode resultar em situações mais graves. “Quando desce, inunda, por exemplo, a estrutura do escritório da CSN. Também pode ter sedimentos. Essa água vai caindo em cima de outros diques ou em cima de outras barragens, o que pode provocar um colapso muito maior”, diz o professor.
“Então, as barragens são feitas de acordo com a capacidade de armazenamento e o consequente tempo de retorno de uma chuva extrema”, acrescenta Daniel Neri. No entanto, o professor comenta que as cavas acabam sendo transformadas em barragens e diques. “Se elas estão transbordando com essa chuva normal, o que vai acontecer se tivermos uma chuva de ocorrência extrema, como 200 ou 300 milímetros?”, questiona.
Autoridades se posicionam
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) informou não ter registro de chuvas para a cidade de Congonhas, na Região Central, e justificou que “os pluviômetros automáticos disponíveis estão inoperantes e são de responsabilidade do Cemaden".
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Questionado sobre a inatividade de alguns pluviômetros próximos, o Cemaden, por sua vez, disse que o funcionamento é dinâmico. “Às vezes por causa de uma folha que cai ele para temporariamente de registrar dados, mas isso logo é resolvido pela instituição que fica responsável por eles no município ou, quando necessário, pela empresa de manutenção”, informou em nota.