Jornal Estado de Minas

LITERATURA

Os livros mais marcantes da década, por Mateus Baldi



Mateus Baldi 
Crítico e criador do canal Resenha de Bolso 

“Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”, de Elvira Vigna (Cia das Letras, 2016) 
Meu livro favorito da década. Aqui, João e uma designer estão confinados em um escritório no verão carioca e ele conta suas aventuras com prostitutas, que ela nos repassa. Uma obra-prima, que nas frases cortantes de Elvira Vigna fica ainda melhor. 





Leia: Os livros brasileiros de ficção mais marcantes da última década

“Noite dentro da noite”, de Joca Reiners Terron (Cia das Letras, 2017) 
 Caudaloso, “Noite dentro da noite”é a história de uma memória perdida, mas também é a de um país que poderia ter sido. Nazistas, plantas assassinas, literatura: assim como o que foi perdido no Ano do Grande Branco, as fronteiras se perdem aqui para que a literatura seja criada em toda a sua força. 

“A vista particular”, de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2016) 
 Meu livro preferido para entender o que foi o Rio de Janeiro na última década. Ricardo Lísias escreveu uma sátira para rir de nervoso: um artista plástico se alia ao chefe do tráfico da comunidade do Pavão-Pavãozinho com o objetivo de produzir uma instalação. O resultado, aterrador, é uma soma de consequências truculentas e imprevisíveis. 

“O livro das semelhanças", de Ana Martins Marques (Cia das Letras, 2015)
Acho difícil encontrar alguém que não foi arrebatado pela simplicidade desse livro. Ana Martins Marques é uma força e seus poemas falsamente banais escondem todo o furacão de uma existência que pede um olhar mais honesto para tudo aquilo que nos cerca. 





“Marrom e amarelo”, de Paulo Scott (Alfaguara, 2019) 
Federico e Lourenço são irmãos negros, porém um tem a pele clara e o outro, escura. A partir desse fio, surge um romance arrasador sobre o caos sociopolítico do Brasil nos anos 2010, uma pancada sobre o racismo estrutural. Poucos escritores têm aquilo que sobra em Paulo Scott: uma voz bem marcada e a consciência da melhor forma de aplicar as possibilidades estéticas na literatura. 

“O senhor do lado esquerdo”, de Alberto Mussa (Record, 2011) 
Alberto Mussa vai na contramão de uma tendência que parece firmar a cidade como um labirinto de concreto inexpugnável, a exemplo de São Paulo. Aqui, o autor carioca recria o Rio de Janeiro do início do século 20 para falar de sexo, religião, identidade e o que é pertencer a um lugar que existe pelas frestas. 

“Tudo pode ser roubado”, Giovana Madalosso (Todavia, 2018) 
Só a protagonista excepcional, cujo apelido é um indefectível Rabudinha, já valeria o romance. Mas Giovana Madalosso criou uma história simples, o roubo da primeira edição de “O Guarani”, para subverter as fórmulas da narrativa policial e narrar as agruras de existir numa cidade que parece um abismo. 





“Opisanie swiata”, de Veronica Stigger (Editora Sesi-SP, 2018) 
 Único romance da escritora gaúcha, cujos contos são cheios de esquisitices e outras farras adoráveis, trata-se de uma história polifônica na década de 1930. Opalka, um polonês, descobre que tem um filho no Brasil e decide viajar para encontrá-lo. No navio, conhece um brasileiro que decide acompanhá-lo. Esqueça a aparente simplicidade – nada é simples em se tratando de Veronica Stigger. 

“Pssica”, de Edyr Augusto (Boitempo, 2015) 
Um livro com menos de 100 páginas e mais acontecimentos que muito calhamaço por aí. No Norte do país, piratas de rio e traficantes de escravas sexuais se fundem num caldo de adrenalina pouco visto na literatura contemporânea. Edyr Augusto domina como poucos a arte de escrever boa literatura carregada de violência. Daqueles livros obrigatórios para quem quer conhecer o Brasil. 

“Repátria”, Francesca Cricelli (Demônio Negro, 2015) 
 Simples e eficiente, Repátria faz uma investigação metalinguística acerca do que é pertencer. Um livro de poemas em português e italiano, sem saber em qual língua foram escritos originalmente. Um livro de traduções de outros autores. Foi das obras de poesia que mais me marcaram na última década e merece demais ser lido.



CLIQUE E CONFIRA A LISTA DE CADA UM DOS CONVIDADOS

Andréa Soares Santos (MG), professora do departamento de Linguagem e Tecnologia do Cefet-MG

Darwin Oliveira (CE), crítico e criador do canal “Seleção Literária”

Etiene Martins (MG), coordenadora da Bantu, livraria especializada em literatura negra
 
Guiomar de Grammont (MG), coordenadora-geral do Fórum das Letras

José Castello (RJ), jornalista, escritor e crítico literário

José Eduardo Gonçalves (MG), jornalista, editor e escritor

Josélia Aguiar (SP), jornalista e diretora da Biblioteca Mário de Andrade

Juliana Gomes (SP), coordenadora do Leia Mulheres, clube de leitura dedicado à autoras

Larissa Mundim (GO), coordenadora da Nega Lilu Editora

Luciana Araujo Marques (SP), crítica e doutoranda em teoria e história literária

Luís Augusto Fischer (RS), professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Mateus Baldi (RJ), crítico e criador do canal “Resenha de Bolso”

Ney Anderson (PE), jornalista, escritor e crítico literário do blog “Angústia criadora”

Regina Dalcastagnè (DF), professora do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB

Rogério Coelho (MG), articulador do Coletivoz sarau de periferia e do slam Clube da Luta

Rogério Pereira (PR), jornalista, escritor e editor do jornal de literatura “Rascunho”

Schneider Carpeggiani (PE), editor do "Suplemento Pernambuco"

Sérgio de Sá (DF), crítico literário e professor na Universidade de Brasília (UnB)

Simone Pessoa (MG), livreira da Livraria Ouvidor

Stefania Chiarelli (RJ), professora de literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF)

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