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Estado de Minas LITERATURA

Os livros mais marcantes da década, por Mateus Baldi

Vinte críticos, jornalistas e gestores culturais indicam os livros nacionais - romances, contos, poemas - que marcaram suas leituras nos últimos dez anos


16/04/2021 04:00 - atualizado 16/04/2021 08:09



Mateus Baldi 
Crítico e criador do canal Resenha de Bolso 

“Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”, de Elvira Vigna (Cia das Letras, 2016) 
Meu livro favorito da década. Aqui, João e uma designer estão confinados em um escritório no verão carioca e ele conta suas aventuras com prostitutas, que ela nos repassa. Uma obra-prima, que nas frases cortantes de Elvira Vigna fica ainda melhor. 
“Noite dentro da noite”, de Joca Reiners Terron (Cia das Letras, 2017) 
 Caudaloso, “Noite dentro da noite”é a história de uma memória perdida, mas também é a de um país que poderia ter sido. Nazistas, plantas assassinas, literatura: assim como o que foi perdido no Ano do Grande Branco, as fronteiras se perdem aqui para que a literatura seja [re]criada em toda a sua força. 

“A vista particular”, de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2016) 
 Meu livro preferido para entender o que foi o Rio de Janeiro na última década. Ricardo Lísias escreveu uma sátira para rir de nervoso: um artista plástico se alia ao chefe do tráfico da comunidade do Pavão-Pavãozinho com o objetivo de produzir uma instalação. O resultado, aterrador, é uma soma de consequências truculentas e imprevisíveis. 

“O livro das semelhanças", de Ana Martins Marques (Cia das Letras, 2015)
Acho difícil encontrar alguém que não foi arrebatado pela simplicidade desse livro. Ana Martins Marques é uma força e seus poemas falsamente banais escondem todo o furacão de uma existência que pede um olhar mais honesto para tudo aquilo que nos cerca. 

“Marrom e amarelo”, de Paulo Scott (Alfaguara, 2019) 
Federico e Lourenço são irmãos negros, porém um tem a pele clara e o outro, escura. A partir desse fio, surge um romance arrasador sobre o caos sociopolítico do Brasil nos anos 2010, uma pancada sobre o racismo estrutural. Poucos escritores têm aquilo que sobra em Paulo Scott: uma voz bem marcada e a consciência da melhor forma de aplicar as possibilidades estéticas na literatura. 

“O senhor do lado esquerdo”, de Alberto Mussa (Record, 2011) 
Alberto Mussa vai na contramão de uma tendência que parece firmar a cidade como um labirinto de concreto inexpugnável, a exemplo de São Paulo. Aqui, o autor carioca recria o Rio de Janeiro do início do século 20 para falar de sexo, religião, identidade e o que é pertencer a um lugar que existe pelas frestas. 

“Tudo pode ser roubado”, Giovana Madalosso (Todavia, 2018) 
Só a protagonista excepcional, cujo apelido é um indefectível Rabudinha, já valeria o romance. Mas Giovana Madalosso criou uma história simples, o roubo da primeira edição de “O Guarani”, para subverter as fórmulas da narrativa policial e narrar as agruras de existir numa cidade que parece um abismo. 

“Opisanie swiata”, de Veronica Stigger (Editora Sesi-SP, 2018) 
 Único romance da escritora gaúcha, cujos contos são cheios de esquisitices e outras farras adoráveis, trata-se de uma história polifônica na década de 1930. Opalka, um polonês, descobre que tem um filho no Brasil e decide viajar para encontrá-lo. No navio, conhece um brasileiro que decide acompanhá-lo. Esqueça a aparente simplicidade – nada é simples em se tratando de Veronica Stigger. 

“Pssica”, de Edyr Augusto (Boitempo, 2015) 
Um livro com menos de 100 páginas e mais acontecimentos que muito calhamaço por aí. No Norte do país, piratas de rio e traficantes de escravas sexuais se fundem num caldo de adrenalina pouco visto na literatura contemporânea. Edyr Augusto domina como poucos a arte de escrever boa literatura carregada de violência. Daqueles livros obrigatórios para quem quer conhecer o Brasil. 

“Repátria”, Francesca Cricelli (Demônio Negro, 2015) 
 Simples e eficiente, Repátria faz uma investigação metalinguística acerca do que é pertencer. Um livro de poemas em português e italiano, sem saber em qual língua foram escritos originalmente. Um livro de traduções de outros autores. Foi das obras de poesia que mais me marcaram na última década e merece demais ser lido.

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