O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) saiu em defesa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a divulgação de mensagens atribuídas ao magistrado encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O parlamentar afirmou que os registros que circularam na imprensa não indicariam, de fato, uma conversa direta com o ministro.

Em conteúdo divulgado à imprensa, Correia disse que teve acesso aos documentos que chegaram à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS e decidiu torná-los públicos diante da repercussão do caso. Segundo ele, o material mostra que a mensagem apontada como tendo sido enviada por Vorcaro ao ministro teria sido digitada no aplicativo de notas do celular, e não em uma conversa do WhatsApp.

“A tal mensagem que foi divulgada como se Vorcaro tivesse enviado ao ministro Alexandre Moraes está nos documentos da CPMI como um print não endereçado a ninguém”, afirmou o deputado. “Essa foto chegou assim nos documentos para a CPMI. São sigilosos, mas, diante das últimas notícias, me senti na obrigação de divulgar. Essa foto mostra que a mensagem foi digitada no app de notas, não na conversa com ninguém”, declarou.

Correia acrescentou que decidiu divulgar o registro para evitar interpretações equivocadas sobre o material. “Não poderia omitir a verdade diante de um vazamento tão grave”, disse o parlamentar.

As suspeitas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes surgiram após o vazamento de mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal. Reportagem do jornal O Globo afirma que os diálogos teriam sido trocados entre os dois no dia da prisão do empresário, em 17 de novembro de 2025, e citou perícia técnica da PF que apontaria a autenticidade das conversas extraídas dos aparelhos.

O ministro já vinha sendo alvo de questionamentos em razão da relação do Banco Master com o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O escritório assinou um contrato de R$ 129 milhões com a instituição financeira investigada por fraudes contra o sistema financeiro. O acordo previa o pagamento de R$ 3,6 milhões por mês durante três anos, entre 2024 e 2027. Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, os repasses foram interrompidos.

Além disso, o escritório aparece em um processo sigiloso que tramita na Justiça Federal de São Paulo como representante do Banco Master na condição de terceiro interessado, embora não seja parte na ação. Informação também revelada pelo jornal O Globo, que também apontou que a advogada segue atuando em favor da instituição financeira, conforme já havia sido divulgado anteriormente.

O que diziam os supostos diálogos?

A polêmica envolve mensagens que teriam sido trocadas entre Vorcaro e Moraes em 17 de novembro de 2025, data em que o banqueiro foi preso. O conteúdo das conversas veio à tona após reportagem do jornal O Globo, que afirmou ter tido acesso a imagens de nove mensagens supostamente trocadas entre os dois ao longo daquele dia.

De acordo com a reportagem, a primeira mensagem teria sido enviada às 7h19 por Vorcaro, que escreveu ao ministro relatando movimentações com investidores e mencionando preocupações com possíveis vazamentos de informações. “Bom dia. Tudo bem? Estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte”, teria dito o empresário no início da conversa.

Ainda segundo o material revelado, outras mensagens foram enviadas ao longo do dia. Em uma delas, às 17h22, Vorcaro perguntou: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Quatro minutos depois, às 17h26, ele voltou a questionar: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

O conteúdo das respostas atribuídas a Moraes não pôde ser recuperado integralmente porque, segundo a reportagem, teriam sido enviadas como mensagens de visualização única no aplicativo, o que impede o armazenamento permanente do texto.

Mais tarde, às 19h58, Vorcaro voltou a perguntar se havia novidades. Às 20h48, ele enviou outra mensagem afirmando ter fechado negociações com investidores estrangeiros e mencionando movimentações relacionadas ao mercado financeiro.

Moraes se defende

O gabinete de Alexandre de Moraes negou, em nota, que as mensagens divulgadas sejam do ministro. Segundo o comunicado, uma análise técnica realizada nos dados telemáticos do celular de Vorcaro indicou que os prints atribuídos ao magistrado não correspondem aos contatos de Moraes nos arquivos apreendidos.

“A análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”, informou o gabinete.

A nota acrescenta que os prints divulgados estão vinculados a pastas de outras pessoas da lista de contatos de Vorcaro e não aparecem como direcionados ao ministro do STF. Os nomes desses contatos não foram divulgados porque o caso está sob sigilo, determinado pelo ministro André Mendonça.

Mendonça também determinou a abertura de um inquérito para investigar o vazamento das mensagens sigilosas. A medida foi tomada após pedido da defesa de Daniel Vorcaro.

Os advogados do ex-banqueiro afirmaram que os diálogos divulgados na imprensa podem ter sido editados ou retirados de contexto. Na solicitação enviada ao Supremo, a defesa mencionou “supostos diálogos com autoridades”, incluindo Moraes, e afirmou que o material tem sido divulgado para diversos veículos de comunicação.

Perícia da PF

A Polícia Federal também se manifestou sobre o caso. Em nota divulgada nessa sexta-feira (6/3), a corporação afirmou que seus relatórios de investigação não incluem informações sobre a intimidade ou a vida privada de investigados e solicitou a Mendonça uma investigação específica sobre o vazamento de dados sigilosos.

Segundo o comunicado, os documentos produzidos no âmbito da Operação Compliance Zero contêm apenas informações relevantes para a investigação. A PF ressaltou ainda que não edita nem manipula dados extraídos de equipamentos apreendidos.

“Não compete à Polícia Federal editar conversas, selecionar ou manipular dados extraídos de equipamentos apreendidos, sob pena, inclusive, de violação ao direito ao contraditório e à ampla defesa”, afirmou o órgão por meio de nota.

A corporação também informou que os materiais da operação estão sob sua guarda desde novembro do ano passado e foram encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR) em janeiro. A defesa dos investigados teve acesso integral ao conteúdo por determinação do ministro Dias Toffoli. Além disso, parte das informações foi compartilhada com a CPMI do INSS por decisão do relator do processo.

Enquanto o STF questiona a autenticidade das mensagens, reportagem de O Globo afirmou que a perícia técnica da Polícia Federal teria confirmado a autenticidade das conversas extraídas dos aparelhos de Vorcaro. Segundo o jornal, o laudo forense teria identificado metadados que indicariam a bilateralidade das comunicações, sugerindo que o número atribuído ao ministro não apenas recebeu, mas também respondeu às mensagens.

De acordo com a análise citada pela reportagem, as conversas teriam ocorrido em momentos considerados sensíveis de investigações envolvendo o banqueiro, incluindo questionamentos sobre decisões judiciais e possíveis pedidos de auxílio em processos.

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Com a divergência entre as versões apresentadas, o material passou a ser analisado pela Procuradoria-Geral da República, que poderá avaliar eventuais desdobramentos jurídicos do caso.

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