Homem se passa por investidor e aplica golpe de R$ 3 milhões em amigos
Ao menos 44 pessoas foram vítimas de estelionato, segundo advogado do caso. Suspeito abusou da confiança de amigos e familiares para aplicar o golpe
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“É de perder a esperança no ser humano”, desabafa o web designer Bruno Nascimento, de 40 anos, sobre ter sido vítima de um golpe aplicado pelo próprio amigo M.T.F.A. Além dele, cerca de outras 50 pessoas também transferiram dinheiro acreditando estar investindo em um banco internacional. “Eram 14 anos de amizade. Então é uma quebra de confiança muito grande. E quando vi os outros relatos me deu uma angústia muito grande”, relata.
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Bruno conta que conheceu M. em 2013 na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde estudaram juntos. A amizade se manteve mesmo quando se mudaram para outras cidades, com encontros e visitas ao longo do tempo. O designer, inclusive, conhecia os pais de M. e esteve presente no casamento dele.
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Segundo ele, o homem afirmava que trabalhava como representante de um banco alemão e começou a falar sobre investimentos nas rodas de amigos. Em 2022, Bruno passou a investir e, ao longo dos anos, nunca teve problema com a aplicação. Conta inclusive que, quando precisava tirar alguma quantia para arcar com despesas, o valor era prontamente entregue na sua conta pessoal.
Tudo começou a mudar em dezembro de 2025, quando Bruno foi desligado da empresa onde trabalhava e M.T.F.A. chegou a sugerir que ele investisse todo o dinheiro do FGTS em uma "carteira coletiva" para que, futuramente, comprasse a casa própria. “Ali me deu um estalo e não dei. Mesmo a gente tendo uma amizade de anos e ele sabendo que estava desempregado, foi frio, não perdoou nem um desempregado. E de fevereiro para cá passei a ter dificuldade para sacar o dinheiro”, conta.
Bruno relata que, desde então, M. passou a dar desculpas como falta de limite para transações, o banco atrasou o repasse, pedido de prazo, entre outras. Em determinado momento, o designer comentou com um outro amigo que também tinha investimento com M. e ouviu a mesma reclamação. A partir desse momento começou a desconfiança de que algo não estava certo.
Em 10 de setembro, M. parou de responder. Os amigos foram se comunicando e criaram um grupo no WhatsApp para tentar entender a situação. Foi então que chegaram à conclusão de que haviam sido vítimas de um golpe e que o prejuízo total chegaria próximo a R$ 3 milhões. Somente de Bruno foram cerca de R$ 75 mil em investimento ao longo de quatro anos. Bruno registrou um boletim de ocorrência no dia seguinte junto à Polícia Civil de São Paulo, onde mora atualmente.
“A minha ficha caiu quando mandei mensagem para a esposa dele e ela me disse que estava na delegacia registrando um boletim de ocorrência contra ele. Alguns do grupo acham que ela é cúmplice e outros acham que ela é vítima”, comenta Bruno.
Para ele, o maior baque foi perceber que foi traído por alguém que considerava próximo e que abusou de sua confiança: “Não era um cara anunciando investimento nas redes sociais, era um amigo. Então, ninguém esperava. Ele não enganou estranhos, enganou amigos. Eu conhecia os pais dele, fui no casamento dele. É chocante por isso. Tem pessoas no grupo que estão deixando de comprar remédio, que investiu o dinheiro dos pais. Agora a gente acha que ele não fazia amigos, ele captava possíveis clientes”.
Devido à confiança, ninguém chegou a desconfiar dos relatórios e a maioria não assinou um contrato oficializando o investimento. Planilhas manipuladas eram enviadas àqueles que solicitavam algum tipo de comprovação.
O Estado de Minas entrou em contato com o banco onde M. afirmava trabalhar, mas, até o momento de publicação desta matéria, não obteve resposta. O site da instituição informa que encerrou as atividades no Brasil em 2023.
A dor da traição
Rafael Costa também sentiu na pele o baque da perda da confiança em M.: “Meu prejuízo emocional é maior que o financeiro. Temos muita história juntos e eu o chamava de irmão, de frequentar a casa um do outro”. Os dois também se conheceram em Viçosa, em 2013, e chegaram a morar na mesma república na época.
Ele ainda conta que em 2015 M.T.F.A. viajou com a família de Rafael e pegou dinheiro emprestado tanto com Rafael quanto com os pais dele. Quando retornaram a BH, o amigo sumiu por cerca de um mês. Quando voltou, ele apareceu com um envelope cheio de dinheiro e devolveu a quantia que tinha pego emprestado.
“Fui a pessoa que tirou o dinheiro do meu bolso para pagar o aluguel dele. Sempre com a esperança de que ele iria aparecer, que alguma coisa tinha acontecido. Ele retornou com um envelope com dinheiro vivo e me disse que tinha sido preso, não sei se isso é verdade, mas que queria pagar todo mundo e recomeçar a vida em Belo Horizonte e me disse que estava no Narcóticos Anônimos”, relata.
Segundo Rafael, M. passou a estudar economia e começou a trabalhar com investimentos financeiros por volta de 2018, mas apenas em 2022 decidiu aplicar valores com o amigo. Nesse meio tempo, se mudou para o Canadá. “Pagava muito bem, muito acima do mercado. Ou seja, o esquema dele, seja lá o que ele estivesse fazendo, funcionou durante um tempo”.
Como o primeiro investimento foi positivo, decidiu investir R$ 12 mil na "carteira coletiva" em dezembro de 2025. Em março deste ano, investiu mais R$ 30 mil, sendo metade dele e metade da mãe, para ser resgatado em junho deste ano, quando passaria as férias em Minas Gerais. “Falei com a minha mãe: ‘Ele melhorou, a vida dele mudou e está casado agora, me pagou certinho nas férias passadas’”.
Porém, quando Rafael desembarcou no Brasil, M. passou a enrolar para entregar o dinheiro e apresentar diversas desculpas, sempre prometendo que “em breve” faria o depósito.
“Depois disso, a nossa relação deu uma abalada forte, porque ele dizia ‘daqui a cinco dias’, ‘daqui a três dias’, ‘vou fechar o relatório te mando’, e não me mandava nem qual era o valor total a ser recebido”, relata. “Mas eu ainda me preocupava com ele, e cheguei a perguntar se estava tudo bem e se ele precisava de alguma coisa”, completa.
Depois de muito insistir, Rafael conseguiu recuperar apenas os R$ 12 mil inicialmente investidos com M.. Seu último contato com o amigo foi em 11 de setembro.
“A maioria das pessoas vai falar que ele é golpista. Se ele for, merece tudo de ruim que acontecer com ele. Mas eu estou tentando não acreditar nisso. Pensando se não aconteceu algo que não sabemos, porque tem alguma coisa nessa história que não bate, ele não levava uma vida luxuosa, igual os golpistas que fazem isso normalmente levam: não tinha carro, não tinha casa própria, morava no apartamento de um quarto em Belo Horizonte”, refletiu Rafael, ainda abalado com toda a situação.
Estelionato e falsificação de documentos
Na última semana, Felipe Velloso, advogado criminalista que representa 44 vítimas de M.T.F.A., entrou com representação criminal na Delegacia Especializada de Investigação de Fraudes e Crimes Cibernéticos solicitando a abertura de um inquérito para apurar as ações de M., reunir os boletins de ocorrência já registrados e que a Polícia Civil represente ao juízo competente pelo bloqueio de contas e bens, assim como a quebra de sigilo bancário fiscal e telemático.
“Ele criou uma mentira durante anos e tinha uma lábia muito boa, parecia entender muito do mercado financeiro. Aparentemente, ele nunca nem trabalhou em um banco. O pessoal perguntava: "Como está meu rendimento esse mês?" e ele mandava uma planilha com gráfico e percebemos que era tudo editado. No mesmo dia, ele mandava três planilhas editadas, uma atrás da outra, para quem pedia”, relata Velloso
O advogado também explica que, quando um dos “clientes” precisava fazer uma retirada, M. mandava mensagem para outra pessoa sugerindo investir naquele mês. Prometia até 12% de rendimento ao mês e afirmava ter certificados para atuar no mercado financeiro.
Também era comum que entrasse em contato com os amigos pedindo dinheiro para “bater meta” no banco em que dizia trabalhar, devolvendo no mês seguinte. Até o momento, o maior prejuízo foi a uma vítima que perdeu R$ 286 mil. Velloso acredita que há a possibilidade de existir mais vítimas.
M.T.F.A. pode ser acusado de praticar os crimes de estelionato, adulteração de documento, falsidade documental, lavagem de dinheiro e, caso seja comprovado que houve participação de outras pessoas, associação criminosa.
Sem notícias
Desde o dia 11 de setembro, nenhum dos entrevistados pela reportagem teve notícias de M. Em 9 de setembro, M.T.F.A. enviou e-mails para ele mesmo se despedindo da esposa, com quem é casado há oito anos: “Me despeço da vida por medo e vergonha de toda a morte social que construí nesses 10 anos. Bebi, comi e vivi empilhando os sonhos das pessoas, sonhos esses que vão junto comigo. Espero que minha morte seja um consolo”.
Entretanto, ele desistiu de tirar a própria vida e demonstrou arrependimento por ter aplicado o golpe. “Cheguei a conclusão de que sou um covarde, essa é a verdade. Estou aqui me perguntando se minha história daria um bom livro, bom a ponto de pagar todo mundo”, escreveu ele.
Segundo registros do Corpo de Bombeiros Militar, há um chamado de tentativa de suicídio em 10 de setembro. O documento aponta que ele estava sentado em um pontilhão em Nova Lima, na Grande BH, mas, quando os bombeiros fizeram contato, ele afirmou que não tinha a intenção de se jogar e estava apenas refletindo sobre a morte do irmão, que teria morrido naquele ponto há dois anos.
No registro, M. também afirma que tinha acabado de voltar de uma temporada de quatro anos na Austrália, o que é refutado pelas vítimas entrevistadas. Ele saiu voluntariamente do pontilhão dizendo que estava indo para o trabalho. Rafael afirma que não sabe de nenhum irmão de M. que tenha se suicidado.
De acordo com a Polícia Militar de Minas Gerais, uma ocorrência de pessoa desaparecida em nome de M.T.F.A. foi registrada em 12 de setembro.
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O Estado de Minas tentou falar com M.T.F.A. e com sua esposa, sem sucesso. A reportagem também entrou em contato com a Polícia Civil de Minas Gerais e aguarda resposta.