Em nome da paz, dos filhos e da esperança de diálogo em todo canto, seguindo o caminho que começa em casa, conduz à escola e se propaga mundo afora. Nesses tempos de incertezas e conflitos, quando crianças são bombardeadas por informações na velocidade dos acontecimentos – e os pais fazem das tripas, coração, para livrá-las das múltiplas faces do mal –, as palavras construção, entendimento e fé na vida trafegam em sentido único para transpor barreiras que impedem conquistas no presente e acender o sinal verde rumo a um futuro promissor. Há saídas? Sim, como mostram, no domingo de Páscoa, crianças de uma escola da rede municipal de Belo Horizonte.
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Deixando de lado coelhos e chocolate, a turma fez um painel com elementos fundamentais à vida contemporânea, com destaque para este dia especial. Entram em cena, símbolos de paz, respeito pelos animais, compaixão, carinho e basta ao racismo, bem como reciclagem, acessibilidade, universo digital, empatia, cuidado no dia a dia e o maior de todos: o amor ao próximo, nesse caso traduzido, de forma física, com as mãos dadas e abraços apertados. Como vem aí a Copa do Mundo, meninos e meninas não se esqueceram da logomarca da Fifa.
Então, vamos à paz, segundo as crianças. “A paz é construída”, aprenderam Júlia, Wesley, Matheus Terra de Deus, Mateus Ângelo, Malu e Pietro, todos de 7 anos, alunos do segundo ano do ensino fundamental do Centro de Educação das Infâncias (CEI) Imaculada, no Bairro Lourdes, na Região Centro-Sul de BH. Participaram também do trabalho coletivo as crianças de 5 anos da educação infantil. Nos dias que antecederam os feriados da Semana Santa, orientados pela professora Érica Lopes, eles fizeram desenhos no caderno, em sala de aula, e, na sequência, construíram o painel.
A mão humana está presente em todas as etapas e ficaram marcas no papel, com a palma e os dedinhos impressos em guache verde, azul e laranja. Sem os humanos, nada faz sentido. E, assim, os alunos da classe recortaram figurinhas representando cada um deles, e as colaram no grande cartaz.
Em outras regiões da cidade, pais e filhos veem o mundo com os olhos da confiança, embora preocupados com os males que afligem a sociedade, especialmente a violência. E o que fazer para garantir a tranquilidade? “Em qualquer situação, em casa ou na rua, a melhor solução é o diálogo”, acredita piamente, e com larga experiência, a motorista Elizângela Almeida Braga, mãe de Maria Clara, de 8, e Maya, de 6. Casada há 34 anos, ela tem mais seis filhos, o mais velho de 33, e três netos. “Casei aos 14, meu marido tinha 18.” Hoje e sempre, ela deseja ver o mundo “recalculando a rota” para que todos conheçam a felicidade.
Esperança
Ao som da canção “A paz”, de Gilberto Gil – aquela que diz assim: “A paz invadiu o meu coração, de repente me encheu de paz, como se o vento de um tufão...” – os alunos do segundo ano do ensino fundamental do Centro de Educação das Infâncias (CEI) Imaculada, no Bairro Lourdes, na Região Centro-Sul de BH, se dedicam atentamente aos desenhos para o painel. A música está num volume bem baixinho, quase imperceptível, apenas trilha sonora para a criançada dar asas à imaginação. “Nosso objetivo é trabalhar os sentidos contemporâneos da Páscoa, e, consequentemente, falar também sobre a paz com as crianças do infantil e do segundo ano. O painel resulta da construção de atitudes. Assim, nada de coelhinho ou chocolate”, conta a professora Érica Lopes.
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No corredor da escola (antigas dependências do Colégio Imaculada, na Rua Espírito Santo), está afixado o painel “Símbolos da Páscoa 2026”, criação coletiva com palavras e desenhos retratando os tempos atuais. Do grupo de 45 alunos do segundo ano do ensino fundamental e do infantil, seis falam sobre o mundo e suas urgências.
Para Júlia Possato, tudo é uma questão de amor e harmonia, elo essencial para que cessem as guerras e vigore mais entendimento. No painel, se vê o símbolo de Paz e Amor (círculo com três linhas internas) popularizado internacionalmente, nas décadas de 1960 e 1970, pelo movimento hippie.
A palavra guerra causa impacto diário nas crianças, daí a necessidade de “união” entre os povos, defende Wesley Lorenzo. Mãos que se apertam, dentro de um coração, eternizam esse desejo infantil e valoroso. A vida, em primeiro lugar, observa Matheus Terra de Deus, que se mostra preocupado com os “bombardeios” no Oriente Médio e na Ucrânia.
Enquanto observam a obra feita em cores, papel e observações sobre o planeta, as crianças conversam e se abraçam. Está ali, no encontro da inocência com a descoberta do mundo, um flagrante da história recente da humanidade. Duas cruzes, uma com a palavra compaixão, outra, com as três letras que formam a paz, se encontram na base do cartaz, dando sustentação à obra conjunta.
Observando cada detalhe, Matheus Ângelo está certo de que ações positivas são o alicerce para garantir a segurança de todos, enquanto Malu Alves imagina o mundo unido não como sonho, mas realidade que não pode demorar muito.
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São muitos os desafios que cada símbolo provoca em quem vê o trabalho das crianças. Não passou despercebido o ECA Digital, que entrou em vigor em 17 de março atualizando o Estatuto da Criança e do Adolescente para o universo on-line. Quem aponta a logomarca de uma empresa de tecnologia, e observa sobre as muitas armadilhas que as redes sociais podem conter para crianças e adolescentes, é Pietro Ribeiro, também de 7 anos.
O caso envolvendo Orelha, cão comunitário de Santa Catarina que morreu em janeiro, não sai da memória dos meninos e meninas da escola. Assim, ele e outros bichos alvos de crueldade são lembrados no painel, com duas mãos em concha que têm, no meio, as patas de animal.
Força do diálogo
“Fazer o bem e não olhar a quem”. “Você colhe o que planta”. Frases como essas, plenas de experiência e sabedoria, passadas de geração a geração, são transmitidas diariamente pela engenheira civil Edna Norberto Noronha Mercês aos filhos Caio, de 12, e Arthur, de 6. Moradora do Bairro Juliana, na Região Norte de Belo Horizonte, Edna, casada com Álvaro Guilherme de Souza Mercês, mestre de obras, está certa de que conversas em família são fundamentais para garantir a harmonia não só em dias especiais como a Páscoa, quando os cristãos celebram a ressurreição de Cristo, mas durante o ano inteiro.
“Sempre repito essas frases pois contêm muito do que penso e aprendi com os meus pais. ‘Você colhe o que planta’, então, se torna de grande valor na atualidade, pois está no sentido de semear valores positivos para construir um mundo melhor. Inseparáveis, Caio e Arthur prestam atenção ao que diz a mãe. “Cresço ouvindo os ensinamentos dos meus pais, e começo a aplicar cada frase na prática”, conta o primogênito.
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A motorista Elizângela Almeida Braga, de 48, moradora do Bairro São João Batista, na Região de Venda Nova, vê no diálogo em família a melhor forma de encarar os problemas e, principalmente, resolvê-los. História e experiência de vida não lhe faltam. Natural de São Pedro do Suaçuí, no Vale do Rio Doce, ela se casou aos 14 anos – o noivo, Sérgio José Braga, tinha 18 – e lá se vão 34 anos de vida conjugal. Motorista de caminhão, Sérgio tem hoje 53.
“Temos oito filhos, o mais velho com 33, e três netos”, afirma Elizângela, ao lado das caçulas Maria Clara, de 8, e Maya, de 6. “São a rapa do tacho”, brinca a motorista diante do olhar indagativo das meninas sobre o que a popular expressão dita por ela à reportagem significa. Em tantos anos de vida, trabalho e lutas diárias, Elizângela busca priorizar a compreensão, que passa por “se colocar no lugar outro” e abrir o coração.
Cuidar do outro
Residente no Bairro Jaqueline, na Região Norte de BH, o casal Inácio Oliveira da Silva, analista comercial, e Nathália Silva, atendente, aposta na empatia, respeito e cuidado com o outro para educar os filhos Miguel, comemorando 10 anos neste domingo de Páscoa; Maria Cecília, de 3; e Matias, que fará 2 em maio. “Desde cedo, ensinamos a eles sobre o cuidado um com outro, de conviver em harmonia, com afeto. Assim, esperamos, ficará mais fácil a vida lá fora, na escola e, futuramente, no trabalho.”
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O cuidado, na verdade, envolve todos, acrescenta Nathália. “O Miguel está maior, já entende mais, e vamos trabalhando esses valores também com os menores”, diz a mamãe, que fez questão de levar os filhos às celebrações do Domingo de Ramos na Catedral Cristo Rei, em construção no Bairro Juliana, também na Região Norte.
A participação religiosa está presente também no dia a dia de Cristina Munhoz, analista de sistemas, e dos filhos gêmeos Lucas e Rafael, de 11. “Rafael foi à via-sacra das crianças”, diz Cristina, que ficou viúva quando os meninos tinham dois anos e meio. Diante das novidades tecnológicas, de forma especial o “universo” existente na tela do celular e nas redes sociais, Cristina mantém o controle, embora sem deixar de conversar com os filhos sobre todos os assuntos.
Recentemente, proibiu que os gêmeos acessassem uma plataforma de jogos on-line. “Há muitos perigos na internet, e nada melhor do que a boa educação para o entendimento”.
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Significado
A Páscoa é a maior festa do cristianismo, da religião católica – a segunda é o Natal. A ressurreição de Jesus vem em primeiro lugar. Os judeus, no Antigo Testamento, já celebravam a Páscoa, porque é a festa que relembra a saída deles do Egito, onde foram escravizados, rumo à Terra Prometida. Então, essa é passagem (na Páscoa Judaica, “Pessach”) da escravidão para a liberdade. Os cristãos veem a Páscoa de forma diferente: a passagem é a ressurreição de Jesus, passagem da morte para a vida, uma vida nova em Cristo, um renascer. Neste dia, se celebra a vitória de Jesus sobre a morte e o pecado.
