Juiz de Fora: por que não deu tempo de salvar dezenas de pessoas?
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais identificou em 2023 Juiz de Fora como a cidade do interior brasileiro com mais pessoas vivendo em áreas de risco a enchentes e deslizamentos.
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Autoridades já tinham conhecimento dos riscos muito elevados de uma tragédia devido às chuvas em Juiz de Fora (MG), inclusive em áreas onde ocorreram deslizamentos na terça-feira (24/2), mostram documentos produzidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Mesmo assim, a tragédia não foi evitada.
A cidade da Zona da Mata foi atingida por um temporal desde a noite de segunda-feira (23/2), com 42 mortes confirmadas e ao menos 17 pessoas desaparecidas, até a noite desta quarta (25/2). A 100 quilômetros dali, em Ubá, foram mais seis mortes confirmadas, segundo dados do governo de Minas Gerais.
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Em 2023, o Cemaden produziu um levantamento para identificar os municípios brasileiros mais suscetíveis à ocorrência de deslizamentos, enxurradas e inundações.
A ideia era orientar ações prioritárias do governo federal, por meio do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), com obras em mitigação, prevenção e preparação das cidades.
Ao todo, foram identificados 1.942 municípios com pessoas vivendo em áreas de risco para problemas ocasionados pela chuva. Eram 8,9 milhões de pessoas vivendo nessas condições — ou 6% dos brasileiros.
Entre todas as cidades, Juiz de Fora aparece como a 9ª com mais pessoas vivendo nessas áreas: cerca de 129 mil. Todas as cidades acima de Juiz de Fora são capitais ou parte de regiões metropolitanas — o que coloca a cidade mineira também como a que tem situação mais crítica no interior do país.
Ubá, também atingida pelas chuvas, tinha 7,4 mil vivendo em regiões vulneráveis.
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Essas são as cidades com mais pessoas vivendo em área de risco para enchentes e deslizamentos no país:
- Salvador (BA) - 1.217.527
- São Paulo (SP) - 674.329
- Rio de Janeiro (RJ) - 444.893
- Belo Horizonte (MG) - 389.218
- Recife (PE) - 206.761
- Jaboatão dos Guararapes (PE) - 188.026
- Ribeirão das Neves (MG) - 179.314
- Serra (ES) - 132.433
- Juiz de Fora (MG) - 128.946
- São Bernardo do Campo (SP) - 127.648
São locais, segundo o Cemaden, em que há características de ocupação e urbanização propícias a desastres ambientais.
"Um desastre ocorre quando a chuva atinge população vulnerável, porque chuva muito volumosa em área plana, desabitada ou bem preparada para resistir não causa desastre", diz Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden.
Segundo o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), entre 17h do dia 23 e as 5h do dia 24, choveu 220 milímetros na cidade. Para o mês inteiro, a média é de 170 milímetros.
"Você já tinha acumulado anterior do mês (589 mm) que já tinha saturado o solo. Esse ambiente já estava bastante instável. Quando vem mais 220 milímetros, aí você tem uma condição mais derradeira e o solo não suporta mais", explica a professora Cássia Ferreira, coordenadora do laboratório da UFJF.
"Se a gente tivesse um processo de prevenção, esses ambientes talvez estivessem melhor monitorados. Poderia até haver (deslizamentos), mas isso poderia ser reduzido ou minimizado", diz Ferreira.
4ª cidade com mais alertas

Juiz de Fora também está na lista do Cemaden das 10 cidades com mais alertas emitidos em 2025. A cidade mineira fica atrás apenas de Manaus (AM), São Paulo (SP) e Petrópolis (RJ).
Segundo o Cemaden, os alertas mais comuns foram de inundações e, principalmente, deslizamento de terra em encostas habitadas.
Os alertas do órgão federal são enviados diretamente para assessorar a Defesa Civil a tomar decisões na escala local.
Outro documento do Cemaden datado de 2017 mostra o risco elevado de deslizamentos de rocha na região do Morro do Cristo, próximo ao centro de Juiz de Fora. Esse morro foi um dos que registrou deslizamentos sob casas e prédios.
"Observam-se ocupações muito próximas à jusante do maciço, em alta vulnerabilidade", diz o documento, apontando 15 imóveis ameaçados.
Outras 79 localidades são identificadas como áreas de alto risco.
Segundo Seluchi, do Cemaden, Juiz de Fora é tão vulnerável por ter boa parte da população vivendo em moradias inadequadas em áreas de risco, como encostas ou muito perto de rios.
"Quando se constrói nas encostas, a vegetação é suprimida. E a vegetação retarda o processo de deslizamento de terra, porque deixa o solo mais firme e distribui e filtra melhor a precipitação, atuando como espécie de guarda-chuva", explica.
Juiz de Fora fica no vale do rio Paraibuna e está cercada por morros. Como explica professora Cássia Ferreira, ou a população mora "no fundo do vale ou está na encosta".
Nas áreas centrais, diz Ferreira, a urbanização dos morros ocorreu inicialmente com alto emprego técnico e boas moradias. Mas o avanço urbano levou à ocupação com moradias com menores condições e estrutura, expandindo-se à periferia.
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"A grande maioria desses casos que aconteceram agora ocorreu exatamente onde havia moradias de uma população com uma renda mais vulnerável e que tinha menor capacidade de estar contratando o engenheiro para que ele pudesse auxiliar nas questões estruturais", diz Ferreira.
Na avaliação de Ferreira, a Defesa Civil da cidade não consegue dar conta de tantos alertas e acaba atuando no paliativo após os deslizamentos ocorrerem, com pouca ação de prevenção.
Falta, segundo a pesquisadora, estruturação de um sistema de educação ambiental, além de instalação de alarmes, sirenes e criação de rotas de fuga para direcionar pessoas que vivem nas já conhecidas regiões de risco.
Seluchi, do Cemaden, também defende que a Defesa Civil dos municípios brasileiros precisa estar mais bem preparada para lidar com a quantidade de alertas emitidos diante de uma maior frequência de eventos extremos.
Ele defende uma mudança jurídica para que o órgão consiga retirar pessoas de casa em áreas de risco — hoje, se um morador não quiser seguir a orientação da Defesa Civil, pode permanecer no local.
Para ele, as cidades precisam estruturar um plano de redução do risco, inclusive com possibilidade de mudança de bairros de lugar, como ocorreu em São Sebastião (SP) após as chuvas de 2023. O coordenador também defende foco na fiscalização e em um plano diretor que não permita construir em áreas de risco.
Recursos do PAC
Mesmo com tanto indicativo de perigo iminente no município mineiro, a tragédia aconteceu.
A lista dos municípios em risco, encomendada pela Casa Civil do Governo Federal, serve de base para ações prioritárias nos projetos do PAC Seleções, que permite a Estados e municípios enviarem propostas para receber investimentos em obras e equipamentos prioritários.
Segundo documentos disponibilizados pela Casa Civil, há quatro projetos em andamento para Juiz de Fora dentro do PAC Seleções para prevenção de desastres, sendo três de contenção de encostas.
Em 2012, a cidade recebeu R$ 40 milhões em recursos para encostas. Há atualmente R$ 18 milhões previstos para conclusão de obras do PAC na cidade.
Já em 2023, a prefeitura de Margarida Salomão (PT) conseguiu a autorização de mais R$ 21 milhões para obras de encostas em três bairros.
Na justificativa do pedido, a gestão disse que a "instabilidade de encostas no município representa um sério risco para a segurança de pessoas, bens materiais e infraestrutura local, podendo causar danos significativos e até mesmo perda de vidas".
Essa verba, porém, ainda não foi liberada por pendências de documentos que precisam ser enviados pela prefeitura.
Agora, em dezembro de 2025, um novo projeto de Juiz de Fora para encostas foi aprovado no PAC, no valor de R$ 8,5 milhões.
A BBC News Brasil entrou em contato com a Prefeitura de Juiz de Fora e com a Casa Civil para mais detalhes a respeito das obras no município, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O governo de Minas Gerais também não se manifestou.
Plano de prevenção a desastres climáticos
Além do direcionamento de recursos do PAC para cidades vulneráveis, o Ministério do Meio Ambiente tem defendido um plano de prevenção a desastres climáticos, pelo menos desde a tragédia de São Sebastião, quando 64 morreram nas enchentes de fevereiro de 2023.
A ideia ficou ainda mais em evidência após as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.
Em entrevista à BBC News Brasil em 2024, a ministra Marina Silva disse que o governo "decidiu que ia começar um processo de pensar um plano para sair da lógica da gestão do desastre para a gestão do risco e nos anteciparmos o máximo que pudéssemos para preparar os municípios".
Marina também falava da necessidade de se ter um regime jurídico da emergência climática para os municípios mais suscetíveis aos desastres naturais, como Juiz de Fora, o nono com mais gente em risco.
A BBC News Brasil questionou o Ministério do Meio Ambiente, mas não obteve resposta sobre o andamento do plano de prevenção a desastres climáticos.
Para Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, a realidade do Brasil hoje ainda é de esperar que "toda estação chuvosa aconteça algum fenômeno parecido [com o de Juiz de Fora]", especialmente no Sudeste e litoral do Nordeste.
"Não temos terremoto, vulcão, mas pelo tipo de chuva tropical que recebemos na estação chuvosa, a topografia complexa e as áreas de risco, esse é o principal problema do Brasil", diz Seluchi.
Na visão da professora Cássia Ferreira, da UFJF, também falta continuidade nas políticas públicas no Brasil quando se muda o governo.
"Isso é um processo que tem que ser contínuo, né? Estamos sempre correndo atrás desse prejuízo e não antecipando o prejuízo", diz.
As projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas apontam que o Sudeste deverá ter chuvas mais concentradas e mais intensas nos próximos anos. Portanto, com mais ocorrência desses fenômenos extremos.
A última chuva desse porte em Juiz de Fora foi em janeiro de 1985, quando choveu quase 600 milímetros em 20 dias, segundo monitoramento da UFJF.
Demorou 41 anos para a cidade viver cenas de horror novamente.
Mas a previsão dos especialistas é que o "tempo de retorno" de situações extremas como essa agora, com as mudanças climáticas, seja menor.
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