Trinta anos após o episódio que colocou Varginha, no Sul de Minas, no centro da ufologia mundial, o chamado Caso ET de Varginha permanece cercado por versões conflitantes, contradições oficiais e relatos que resistem ao tempo. Entre testemunhos mantidos, depoimentos desmentidos e investigações inconclusivas, o que se sabe hoje é que o caso está longe de um consenso — mas segue vivo no imaginário coletivo e no debate público.
As principais testemunhas do caso — Kátia Andrade Xavier, Liliane Fátima Silva e Valquíria Aparecida Silva — nunca alteraram seus relatos ao longo de quase três décadas. Mesmo após intensa exposição, preconceito, bullying e impactos psicológicos profundos, as três reafirmam que o que viram não era um animal conhecido nem um ser humano.
Kátia Andrade Xavier, Liliane Fátima Silva e Valquíria Aparecida Silva em 2026
“Durante esses quase 30 anos, a gente nunca mudou uma vírgula do que disse. A nossa verdade é a mesma desde o primeiro dia”, afirmou Liliane ao documentário da TV Globo.
“Aquilo não era um bicho comum. Não era gente. Eu sei o que eu vi”, reforçou Kátia. Parte dos próprios ufólogos passou a tratar os relatos das três mulheres como um núcleo distinto dentro do caso, separado das versões que surgiram posteriormente envolvendo militares e autoridades.
“Na minha concepção, o que há de autêntico no caso é apenas o depoimento das três senhoras; o restante foi sendo construído com suposições e crendices”, avaliou o pesquisador Ubirajara Rodrigues no documentário “O Mistério de Varginha”. Apesar de ser um dos primeiros a se dedicar ao caso, hoje ele nega qualquer indício de criatura não humana.
Militares ampliaram o caso, mas hoje se contradizem
Nos anos 1990, o caso ganhou novas proporções com depoimentos atribuídos a militares do Corpo de Bombeiros e do Exército, que afirmavam ter participado da captura, transporte e atendimento médico de uma criatura não humana.
Três desses relatos se tornaram centrais — e hoje, 30 anos depois, seguem caminhos distintos. Uma das peças mais emblemáticas do caso foi uma fita cassete com a voz de um bombeiro afirmando que a criatura capturada “não era deste mundo”.
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“O Corpo de Bombeiros colocou dentro de uma caixa. Não é deste mundo. Não é”, dizia a gravação, tratada por anos como prova-chave da suposta captura.
Em 2019, no entanto, o autor do áudio foi localizado pelo ufólogo João Marcelo Marques Rios e negou completamente a história, afirmando que o depoimento foi manipulado. “Não teve nada. Nada. Foi tudo uma manipulação. Eu fui orientado a gravar aquilo”, disse o bombeiro à TV Globo.
Segundo ele, o arrependimento veio logo após a gravação. “Depois eu me arrependi. Fiquei com culpa”, contou. O ufólogo Vitório Pacaccini, responsável pelas primeiras investigações do caso, afirmou que orientou militares a negarem relatos caso se sentissem inseguros.
O segundo militar, um cabo do Exército que afirma ter visto uma criatura em um hospital, mantém a versão apresentada há 30 anos, sob condição de anonimato. “Eu me deparei com algo que parecia uma mesa de inox. Vi pés e protuberâncias. Parecia uma pessoa queimada. Foi coisa de segundos”, relatou no documentário.
Apesar disso, outros pesquisadores levantam suspeitas de que ele teria recebido dinheiro para sustentar o relato. O militar nega. “Não ganhei dinheiro. Ofertas eu tive, mas não ganhei”, afirmou.
O terceiro militar, que dizia ter participado do transporte da criatura de Varginha para Campinas, desmentiu completamente a história diante das câmeras após três décadas. “Não existe ET de Varginha. Isso é uma das maiores farsas que já existiu”, declarou à produção de TV.
Ele afirma que o depoimento foi ensaiado, condicionado à promessa de pagamento de cerca de R$ 5 mil — valor alto para a época — que nunca teria sido pago. “Eu era jovem, inocente. Acabei caindo na conversa. Me arrependo muito. A única coisa que ganhei foi culpa”, disse.
Vitório Pacaccini nega veementemente qualquer pagamento ou manipulação e divulgou uma nota pública classificando as acusações como “mentira leviana” e “grave ofensa” à sua trajetória. “Jamais paguei um centavo a quem quer que seja, muito menos induzi, orientei ou manipulei qualquer testemunha a dizer aquilo que eu desejava ouvir. Tal acusação é inteiramente falsa, absurda e desprovida de qualquer lastro na realidade, configurando grave ofensa à minha honra, à minha trajetória e à seriedade do trabalho desenvolvido ao longo de três décadas”, afirmou na nota.
“Ressalto, ainda, que sempre deixei absolutamente claro, desde o primeiro contato com testemunhas e seus familiares, que a segurança física, emocional e institucional de todos era prioridade. Por esse motivo, sempre orientei que, caso em algum momento se sentissem ameaçados, coagidos ou em situação de risco, poderiam negar ou silenciar sobre informações anteriormente prestadas, sem que isso jamais resultasse em qualquer recriminação por parte minha ou de meus colegas de pesquisa”, pontuou.
A morte de um militar e as dúvidas que persistem
Um dos pontos mais sensíveis do caso é a morte do soldado da Polícia Militar Marco Eli Chereze, em fevereiro de 1996, pouco depois dos acontecimentos. Jovem e saudável, ele morreu após um quadro de infecção generalizada.
Morte de Marco Eli Chereze foi ligada ao avistamento do ET de Varginha
Segundo ufólogos que investigam o caso, Chereze participou de uma operação noturna nas proximidades do bairro Jardim Andere. O objetivo da ação, segundo esses depoimentos, seria a captura de uma criatura descrita por testemunhas como não humana. De acordo com essas versões, o militar teve contato direto com o ser, sem equipamentos de proteção. Pouco tempo depois, apresentou sinais de mal-estar e foi internado. O quadro evoluiu rapidamente, culminando na morte do policial. Pesquisadores afirmam que a criatura teria liberado uma substância tóxica durante a abordagem.
O Inquérito Policial Militar (IPM nº 18/97) concluiu que a morte ocorreu por choque séptico após cirurgia de rotina, negando qualquer relação com o caso Varginha. Ufólogos, no entanto, questionam essa versão. “Era um rapaz extremamente jovem e saudável. Nenhum médico conseguia explicar por que o corpo dele parou de lutar”, afirma Edison Boaventura Jr.
O sepultamento discreto, com caixão lacrado, alimentou especulações na cidade e segue como um dos elementos mais controversos da narrativa.
Investigações oficiais não encerraram o mistério
O Inquérito Policial Militar nº 908/1997, do Superior Tribunal Militar, não confirma a existência de uma criatura extraterrestre. “Não foi possível comprovar a existência de criatura extraterrestre, tampouco explicar de forma conclusiva todos os acontecimentos narrados”, diz o relatório.
A investigação ainda afirma que, na verdade, as jovens teriam confundido a criatura com Luiz Antônio de Paula, conhecido na cidade como “Mudinho”, um homem em situação de vulnerabilidade social, com deficiência mental, frequentemente visto circulando pela região. Agachado, sujo de lama e assustado, ele foi interpretado como algo fora do comum.
ET de Varginha, na verdade, seria um homem de cócoras, segundo o Exército
Pacaccini questiona essa explicação. “As meninas conheciam o Mudinho. Ele era uma figura comum da cidade. Como três jovens, em estado de choque e pavor, descreveriam um ser com pele viscosa, cheiro de amoníaco e três protuberâncias na cabeça se fosse apenas um vizinho agachado?”, aponta.
Nova testemunha
O médico neurologista Ítalo Denelle Venturelli afirmou ter visto imagens de uma cirurgia realizada em um “ser estranho”, com características não humanas, e diz que também teve contato visual direto com a criatura dentro de um hospital da cidade, em janeiro de 1996.
Formado há quase 50 anos e ex-diretor de três hospitais de Varginha, Venturelli afirma que manteve o relato em sigilo por medo de descrédito profissional. No entanto, desde 2025, veio a público narrar que viu o suposto ET.
Neurologista Ítalo Denelle Venturelli afirmou ter visto imagens de uma cirurgia realizada em um 'ser estranho' no hospital regional de Varginha, em 1996
Em depoimento ao documentário “Mistério de Varginha”, da TV Globo, ele contou que o contato ocorreu em meio a uma movimentação atípica do Exército nos arredores do Hospital Regional, onde ele atuava à época. Venturelli conta que foi chamado por um colega médico, identificado apenas como Marcos Vinícius — já falecido —, para ver algo “diferente”.
“Ele me mostrou um vídeo. Era como se fosse uma criança, ele dando uns pontos. Perguntei o que era aquilo, e ele apontou para um leito. Quando me afastei um pouco, vi que o alien estava ali”, relatou à atração.
“Não era verde nem marrom. Era branco, branquinho. O crânio tinha forma de gota, a boca era pequena e os olhos, lilás, também em forma de gota. Ele estava tranquilo, consciente. Parecia um anjo”, afirmou.
Segundo Venturelli, o contato visual durou poucos minutos. Ele relata que o ser o observou e chegou a olhar pela janela do quarto antes de voltar o olhar para ele. “Era completamente diferente do humano, mas não causava medo”, disse.
De acordo com o neurologista, o colega médico apresentou versões diferentes sobre o procedimento realizado: inicialmente, teria falado na implantação de uma válvula; depois, disse que apenas suturou um ferimento. “No vídeo, aparece ele dando ponto, usando luvas. Alguém filmou para ele. O Marcos tinha essa fita e mostrava para várias pessoas”, contou.
Venturelli acredita que as imagens ainda possam existir e vir a público. “Se o pessoal ver essa fita, pira”, afirmou.
Um caso sem consenso
Trinta anos depois, o Caso Varginha permanece dividido entre crença, ceticismo e dúvida. Não há consenso científico, nem prova definitiva. O que existe é um conjunto de relatos humanos, documentos incompletos e versões que se chocam.
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“O Caso Varginha não se sustenta por uma única evidência, mas pelo conjunto de fatos nunca esclarecidos”, resume o ufólogo Marco Antonio Petit. Para as testemunhas, no entanto, o legado é mais íntimo e doloroso. “O que dói não é as pessoas não acreditarem. É saber que muita coisa nunca foi explicada”, diz Kátia.
