Versão oficial vs. alternativas: o que não foi explicado no Caso Varginha
Entre a versão oficial do Exército, as divergências entre investigadores e as mudanças de postura ao longo de 30 anos, o Caso Varginha segue cercado por lacunas
compartilhe
SIGA
Trinta anos após os acontecimentos que paralisaram o Sul de Minas Gerais, o Caso Varginha deixou de ser apenas uma história sobre “discos voadores” para se tornar um dos episódios mais complexos da história recente do Brasil. Hoje, o que está em disputa não é apenas a possibilidade de contato extraterrestre, mas uma discussão sobre memória, documentação, influência psicológica e os limites entre investigação e crença.
Leia Mais
A seguir, confira alguns pontos-chave para entender o caso.
Avistamento do Jardim Andere: criatura ou “Mudinho”?
O marco zero do Caso Varginha ocorreu na tarde de 20 de janeiro de 1996, no bairro Jardim Andere, quando três jovens relataram ter visto uma criatura agachada em um terreno baldio. A descrição — pele escura e viscosa, olhos vermelhos, odor forte semelhante ao de amoníaco e três protuberâncias na cabeça — se tornaria a imagem mais icônica do episódio.
O Exército Brasileiro dedicou atenção especial a esse ponto ao longo das investigações, oferecendo uma explicação que buscava humanizar o avistamento. Segundo o Inquérito Policial Militar, as jovens teriam confundido a criatura com Luiz Antônio de Paula, conhecido na cidade como “Mudinho”, um homem em situação de vulnerabilidade social, com deficiência mental, frequentemente visto circulando pela região. Agachado, sujo de lama e assustado, ele foi interpretado como algo fora do comum.
No entanto, o ufólogo Vitório Pacaccini, autor do livro “Incidente em Varginha”, questiona essa explicação. “As meninas conheciam o Mudinho. Ele era uma figura comum da cidade. Como três jovens, em estado de choque e pavor, descreveriam um ser com pele viscosa, cheiro de amoníaco e três protuberâncias na cabeça se fosse apenas um vizinho agachado?”, aponta.
A morte de Chereze: fatalidade ou contaminação?
Menos de um mês depois dos primeiros avistamentos, em 15 de fevereiro de 1996, morreu o soldado da Polícia Militar de Minas Gerais Marco Eli Chereze, em Varginha. O agente tinha apenas 23 anos e nenhum histórico de doença anterior. Segundo ufólogos que investigam o caso, Chereze participou de uma operação noturna nas proximidades do bairro Jardim Andere. O objetivo da ação, segundo esses depoimentos, seria a captura de uma criatura descrita por testemunhas como não humana.
De acordo com essas versões, o militar teve contato direto com o ser, sem equipamentos de proteção. Pouco tempo depois, apresentou sinais de mal-estar e foi internado. O quadro evoluiu rapidamente, culminando na morte do policial. Pesquisadores afirmam que a criatura teria liberado uma substância tóxica durante a abordagem.
Um dos aspectos que mais chamou a atenção foi o sepultamento discreto, sem velório público e com o caixão lacrado — procedimento que alimentou especulações e questionamentos na cidade.
As circunstâncias da morte de Chereze foram analisadas no Inquérito Policial Militar (IPM nº 18/97), instaurado após a publicação do livro de Pacaccini. Segundo o relatório final, a morte do soldado ocorreu em decorrência de um choque séptico, após uma cirurgia considerada de rotina. O IPM nega qualquer contato do militar com agentes externos ou substâncias desconhecidas.
Mesmo assim, Edison Boaventura Jr., ufólogo e autor do livro “ETs de Varginha: montando o quebra-cabeça”, contesta essa narrativa. “Tivemos acesso irrestrito aos depoimentos de militares e civis. Chereze era um rapaz extremamente jovem e saudável, mas sua imunidade foi reduzida a zero após a captura. O que o Exército chama de ‘causas naturais’ esconde o fato de que nenhum médico conseguia explicar por que o corpo dele parou de lutar. A família foi mantida sob silêncio e o prontuário médico tornou-se uma peça de Estado”, contrapõe.
A conexão militar e a presença estrangeira
Segundo os ufólogos, a estrutura militar foi usada para a captura, atendimento, necropsia e transporte das criaturas em hospitais locais e, posteriormente, em Campinas (SP). Ainda de acordo com os especialistas, os seres e os destroços de naves foram levados para os Estados Unidos.
Mas o IPM é categórico ao negar qualquer movimentação, afirmando que se tratava de ações de rotina. “Inexiste registro de autoridades da NASA ou do Governo dos Estados Unidos relacionadas aos fatos”, esclareceu o documento.
No entanto, para o coeditor da Revista UFO e membro fundador da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), Marco Antonio Petit, a explicação é uma forma de acobertamento dos movimentos militares.
“O acobertamento é uma política de Estado. Se, oficialmente, o Exército não fala nada, o nível de conhecimento vai subindo. O número cada vez maior de pessoas tem uma visão diferente disso. Varginha segue o padrão de casos como a Operação Prato”, afirma.
A Operação Prato foi uma investigação da Força Aérea Brasileira (FAB) nos anos 1970, especialmente em 1977, sobre relatos de OVNIs e fenômenos inexplicáveis na região de Colares, Pará, onde moradores locais descreviam luzes e objetos voadores que atacavam pessoas, causando queimaduras e mal-estar — fenômeno apelidado de "chupa-chupa". A FAB registrou mais de cem relatos, fotografou objetos e investigou as vítimas, mas a operação foi encerrada sem conclusões definitivas, deixando o caso como um dos grandes mistérios ufológicos brasileiros.
Ubirajara Rodrigues: o ufólogo que mudou de ideia
O ufólogo Ubirajara Rodrigues foi um dos primeiros pesquisadores a se dedicar ao caso Varginha. Na década de 1990, ele se tornou um dos protagonistas da história, até se tornar o principal argumento dos céticos. Rodrigues garante que não houve uma criatura extraterrestre.
“Cometi o grande erro que os ufólogos cometem. Eu disse a elas que o que elas avistaram, a ufologia acredita que sejam seres de outros planetas”, disse no documentário Mistério em Varginha, da TV Globo.
Para ele, a influência direta dos investigadores sobre as testemunhas foi um “erro crasso”, capaz de moldar e reconstruir memórias ao longo do tempo. Após quase 30 anos de reflexão, Rodrigues afirma não ver materialidade no caso. “Eu não acredito mais em nada disso. São praticamente 30 anos de reflexão. Tentei relacionar os meus erros, os meus equívocos com sugestões de como mudar e do que buscar realmente”, explicou.
Para Marco Antonio Petit, a trajetória de Rodrigues não invalida o caso — ao contrário, revela suas tensões internas. “Ubirajara foi o primeiro a chegar às meninas. Ele não foi para confirmar uma crença, ele foi para desmascarar o que achava ser um erro. Mas, ao começar a receber telefonemas de militares da própria guarnição que ele conhecia, a postura dele mudou. Ele percebeu que era um caso de movimentação de tropas no quintal de casa”, aponta.
Petit, que diz que Ubirajara foi pressionado por militares a ficar calado, acredita que a mudança não apaga os indícios acumulados. “Vai chegar um ponto em que tanto faz o Exército continuar a negar ou não, porque as evidências de cooperação internacional são sólidas demais para serem apagadas por um simples relatório oficial”, acredita.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia