NA TV E NOS JORNAIS

30 anos do ET de Varginha: como a mídia brasileira tratou o caso

De um telejornal local ao noticiário internacional, o Caso Varginha virou fenômeno midiático e revelou como a imprensa brasileira construiu o mistério

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Quando o Caso Varginha surgiu, em 1996, o Brasil ainda vivia um ecossistema midiático muito diferente do atual. Não havia redes sociais, portais em tempo real ou vídeos circulando em celulares. Por isso, a cobertura começou de forma tímida, com jornais locais. Semanas depois, já era notícia em todo o país, chegando a estampar jornais e revistas internacionais.

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A primeira reportagem televisiva sobre o mistério foi exibida em 1º de fevereiro de 1996 pela TV Alterosa/SBT, afiliada regional em Varginha. O vídeo, com 2 minutos e 17 segundos, hoje preservado no arquivo dos Diários Associados Minas e digitalizado pelo Estado de Minas, marcou o início da explosão midiática do caso.

Produzida pela repórter Cláudia Tavares, a matéria foi ao ar poucos dias depois do suposto avistamento feito por Liliane, Valquíria e Kátia, em 20 de janeiro. A abordagem seguia o padrão do telejornalismo regional da época: depoimentos diretos, imagens simples e versões conflitantes colocadas lado a lado.

A narração descrevia o episódio com riqueza de detalhes: “Encolhido no canto da parede estava um ser com corpo humano, cabeça triangular, veias estufadas e pele marrom”.

“Tinha pele, braço… mas tinha chifres, os olhos grandes arregalados, vermelho. Careca… na hora que eu vi aquilo eu saí correndo”, detalhou uma das jovens que avistou a suposta criatura. 

A reportagem também ouviu comerciantes, militares e autoridades locais, que, naquele primeiro momento, não tratavam o caso como brincadeira, mas tampouco confirmavam qualquer anormalidade. Além disso, narra que circulavam boatos de que uma das testemunhas, que descobriu que estava grávida logo após o episódio, esperava um filho do ET e teria sido atendida na maternidade local.

"Não há ninguém no hospital com essas características. Eu acho que isso é uma fantasia. Foi criada uma fantasia em cima de alguma pessoa conhecida na cidade”, desmentiu o diretor do Hospital Regional da época.

O Estado de Minas e o início da cobertura contínua

No dia seguinte, 2 de fevereiro de 1996, o Estado de Minas publicou sua primeira reportagem sobre o caso, dando início a uma cobertura quase diária ao longo dos meses seguintes. Diferentemente da TV, o jornal impresso teve espaço para aprofundar relatos, acompanhar investigações e registrar o impacto social do episódio.

Repórteres passaram a acompanhar o trabalho de Ubirajara Rodrigues, advogado e ufólogo, que reunia testemunhas e articulava grupos de investigação. Já nos primeiros textos, o jornal destacava o clima de boatos, contradições e medo na cidade.

“Estou realmente convicto de que elas viram alguma coisa, que ainda não sei o que é”, afirmou Ubirajara em uma das primeiras entrevistas.

O jornal também registrou rumores envolvendo hospitais, bombeiros e supostos atendimentos secretos, sempre contrapondo versões oficiais e relatos extraoficiais.

À medida que o caso ganhava espaço, a cobertura se diversificou. Enquanto reportagens investigativas tentavam organizar os fatos, outras matérias passaram a registrar o efeito cultural e econômico do episódio.

Em março, o EM publicou reportagens mostrando que o ET havia virado garoto-propaganda do comércio local. Bonecos, outdoors, promoções e vitrines passaram a explorar a imagem da criatura.

Uma sorveteria chegou a anunciar o sorteio de uma “viagem a Marte” — que, na prática, era uma taça de sorvete.

O caso também virou tema do humorístico “Casseta & Planeta”, consolidando sua entrada definitiva no imaginário popular brasileiro. A esquete imitava uma reportagem de TV abordando moradores com perguntas debochadas sobre a criatura. “Gostaria de encontrar o ET à meia-luz?”, perguntou o humorista Hélio de La Peña. O programa também fez uma “entrevista” com o ET, que era um dos integrantes com uma prótese na cabeça.

A escalada nacional

A virada definitiva aconteceu quando o caso chegou ao Fantástico, da Rede Globo. A reportagem apresentou depoimentos das jovens, entrevistas com autoridades, negativas do Corpo de Bombeiros e do Hospital Regional, além da análise de ufólogos.

“Elas estão falando a verdade. Eu dou a minha palavra”, garantiu a mãe de Valquíria e Liliane, a aposentada Luísa Helena da Silva, à reportagem. 

O programa também destacou a movimentação militar observada na cidade, embora oficialmente negada. “Nosso serviço é ligado a coisas da terra. Não temos ocorrências fora do comum”, afirmou um representante dos Bombeiros.

A Revista IstoÉ, em maio de 1996, tratou Varginha como o “Roswell brasileiro”, famoso caso ufológico dos Estados Unidos. A reportagem tratou do avistamento da criatura bem como de objetos voadores não identificados.

"O que elas viram era, de fato, uma criatura desconhecida na Terra”, destacou Ubirajara Franco Rodrigues, advogado e ufólogo, na publicação. A reportagem acusava o Exército Brasileiro de ter capturado e ocultado pelo menos uma criatura em uma operação que envolveu o Hospital Humanitas e a Escola de Sargentos das Armas (ESA).

Além disso, dona Luíza afirmou que quatro homens de terno tentaram oferecer dinheiro para que as filhas negassem o contato com o ET publicamente. "Eles falaram que pagariam em dinheiro vivo... Ficaram de voltar, mas não temos como esconder a verdade", declarou.

O Exército e as autoridades hospitalares negaram qualquer envolvimento ou a existência de seres não identificados sob sua custódia, classificando as afirmações como "absurdas". "As afirmações dos ufologistas são tão absurdas que chegam a ser ridículas”, afirmou o general Sérgio Pedro Coelho Lima, então comandante da ESA.

Por fim, a reportagem também abordou a repercussão do caso na cidade. "O ET deu uma tremenda publicidade para Varginha. Estou disposto a patrocinar um encontro internacional de ufologia”, disse Aloysio Ribeiro da Silva, prefeito de Varginha na época.

Varginha no mundo: imprensa estrangeira e documentários

Ainda em 1996, Varginha recebeu equipes de reportagem dos Estados Unidos, Itália e até da Polônia. Ufólogos estrangeiros, como Bob Pratt e Cynthia Newby Luce, concederam entrevistas ao Estado de Minas, afirmando estar impressionados com o volume de relatos.

A revista espanhola Año Cero publicou matéria extensa sobre o caso, enquanto a revista brasileira UFO dedicou capas e dossiês ao episódio.

Diferentemente de outros casos curiosos da década de 1990, o ET de Varginha não desapareceu do noticiário. Ao longo dos anos, o episódio volta e meia retorna para a mídia.

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Um exemplo ocorreu em 2013, quando a então presidente Dilma Rousseff mencionou o ET durante visita à cidade. “Eu tenho muito respeito pelo ET de Varginha. Eu nunca o vi, mas as pessoas que eu conheço daqui, ou já o viram, ou conhecem alguém que o viu", disse em tom bem-humorado. A fala repercutiu em jornais de todo o país.

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