Trinta anos se passaram desde aquele fatídico 20 de janeiro de 1996, em Varginha, no Sul de Minas. Mas para Liliane Fátima Silva, Valquíria Aparecida Silva e Kátia Andrade Xavier, o tempo parece ter congelado no terreno baldio do bairro Jardim Andere, onde viram uma criatura desconhecida, que mudaria o rumo de suas vidas. 

Naquele dia, elas chegaram em casa contando terem visto uma criatura estranha que não parecia um ser humano. Era fim de tarde quando Liliane, então com cerca de 16 anos, a irmã Valquíria, de aproximadamente 14, e a amiga Kátia, de 22 anos, atravessavam um atalho que costumavam usar no caminho para casa.

Segundo relataram, ao se aproximarem de um muro próximo a uma oficina, Kátia gritou. As três, então, viram um ser agachado, que não se parecia com nenhum animal ou pessoa conhecida. A criatura teria pele marrom, aparentemente oleosa, uma cabeça grande com três protuberâncias, olhos vermelhos muito grandes, sem pupilas visíveis, e aparentava estar ferida ou em sofrimento.

Assustadas, as jovens correram. Minutos depois, voltaram ao local acompanhadas da mãe de Liliane e Valquíria, mas não encontraram mais nada além de marcas no chão, um cheiro estranho e um cachorro farejando a área. Um pedreiro que trabalhava nas proximidades teria afirmado que o Corpo de Bombeiros já havia levado “aquele bicho estranho”.

Em poucos dias, o caso ganhou o Brasil e o mundo. As três deram diversas entrevistas e se tornaram famosas na cidade e fora dela. Trinta anos depois, elas seguem defendendo que viram a criatura estranha. 

As testemunhas, hoje mulheres

Apesar das polêmicas, contradições apontadas por críticos e investigações oficiais inconclusivas, Liliane, Valquíria e Kátia jamais alteraram uma vírgula de seus relatos. Hoje adultas, com famílias, filhos e netos, elas afirmam que nunca se beneficiaram financeiramente da história e que o preço pago pela exposição foi alto.

As três participaram recentemente da série documental “O Mistério de Varginha”, exibida pela TV Globo, que promoveu um reencontro entre elas no local onde dizem ter visto a criatura. O retorno ao terreno baldio foi marcado por emoção, silêncio e mal-estar.

“Dá medo, dá aflição, volta tudo, como se a gente estivesse vivendo aquele momento de novo”, relatou Kátia. “Passa um filme na cabeça. As mesmas emoções e sentimentos”, concordou Liliane.

Kátia Andrade Xavier transformou o episódio em parte central da própria trajetória. Hoje, ela atua como palestrante e cuidadora de idosos e diz que contar sua história é uma forma de preservar a verdade do que viveu.

“Eu tenho prazer em contar a minha história. Amo cada detalhe daquele dia. Vou contar sempre, para que isso fique como um legado para os meus filhos e netos”, afirmou. 

Mas a exposição teve um custo alto. Poucos dias após o episódio, Kátia descobriu que estava grávida e passou a ser alvo de comentários cruéis. “Falaram que tinha possibilidade de eu estar grávida de um extraterrestre. Foi um baque, fiquei com muito medo”, relembrou.

Ela também relata que a pressão constante de jornalistas e curiosos na porta de casa contribuiu para o fim do casamento e para um quadro de depressão profunda. “Eu estava doente, emagrecendo. Foi um pacote: grávida, tentando arrumar minha vida, com uma depressão que quase me matou”, relembrou.

Com o tempo, ela ressignificou a história e até prepara um livro autobiográfico. “Já tive noites sem dormir, já me culpei por muita coisa, já fui julgada por coisas que nunca imaginei. Mas eu triunfei e segui com a minha verdade”, publicou nas redes sociais. 

O trauma de Valquíria e Liliane

Valquíria Aparecida Silva, hoje empresária no ramo de produção e distribuição de pão de queijo para lanchonetes e buffets, afirma que o episódio não trouxe nenhum benefício. “Não foi uma experiência boa. Se eu tivesse que escolher passar por isso ou não, eu não passaria”, disse no documentário.

Ela relembra episódios de hostilidade e ameaças nas ruas e em ônibus da cidade. “Você escutava: ‘Vamos pegar essas meninas, vamos bater nessas meninas’”, lembrou. Mãe de dois filhos, de 19 e 6 anos, Valquíria conta que a história ainda ecoa dentro de casa. “A mais nova já fala: ‘Minha mãe viu um ET na cidade dela’”, relatou. 

Enquanto isso, Liliane construiu uma vida longe dos holofotes. Hoje, é mãe e avó, dedicada à família e a uma rotina simples. Mas carrega marcas profundas do que viveu.

Kátia Andrade Xavier, Liliane Fátima Silva e Valquíria Aparecida Silva em 2026

TV Globo / reprodução

Ela conta que precisou abandonar a escola por causa das ofensas e deboches. “Você passava na rua e o povo mexia com você: ‘Olha o ET’. Eu tinha 16 anos. Hoje, trinta anos depois, essa é a minha história. Eu vivi. Eu venci todos os preconceitos. Mas, se fosse passar por tudo de novo, eu não queria”, resumiu.

Apoio da mãe

As três mulheres são unânimes ao destacar o papel fundamental de Dona Luísa Helena da Silva, mãe de Liliane e Valquíria. Para elas, foi o apoio incondicional da matriarca que permitiu atravessar os momentos mais difíceis.

“A Luísa foi tudo para nós. Ela segurou a barra, foi mãe, amiga, tudo ao mesmo tempo”, diz Kátia.

Dona Luísa, por sua vez, afirma que jamais sentiu orgulho do episódio. “Isso trouxe medo, nervosismo, muita preocupação. Eu queria, do fundo da minha alma, que isso não tivesse acontecido com as meninas.”

Os ufólogos

Além das meninas, os 30 anos também mudaram a trajetória dos ufólogos que se dedicaram ao Caso Varginha, em 1996. Vitório Pacaccini, um dos nomes mais famosos, afirma ter sofrido graves ameaças, incluindo um atentado a tiros de fuzil na casa em que morava com a mãe. Ele desapareceu da ufologia pública por décadas, vivendo em diversos países (Chile, Peru, Europa), e só reapareceu publicamente em 2022.

Já Ubirajara Rodrigues, que foi o primeiro ufólogo a chegar ao caso, passou a afirmar que o ET de Varginha não existiu. Ele afirma que, após mais de uma década de estudos, concluiu que não haver provas ou indícios de nave ou ser de outro planeta. 

O ufólogo diz que os relatos de militares e outras testemunhas foram induzidos. Ele relata que se arrependeu de ter dito às três meninas que o que viram poderia ser um extraterrestre e que jamais repetiria esse erro.

"Eu acho que foram depoimentos induzidos, que foram depoimentos fabricados, que foram artificialmente, segundo a crença da ufologia, levados a dizer o que dizem", disse ao documentário da TV Globo.

Claudeir Covo, que era presidente do INFA (Instituto Nacional de Investigação de Fenômenos Aeroespaciais) e editor da revista UFO, morreu em 2012. Ademar José Gevaerd, que também era editor da Revista UFO, morreu em 2022.

Marco Antonio Petit, que se juntou à investigação logo no início a convite de Ubirajara, hoje foca a análise na ufologia militar. Ele continua ativo e é um dos maiores críticos do acobertamento militar. Ele afirma que o nível de conhecimento sobre o caso continua subindo e que seu papel é denunciar as contradições do IPM e das Forças Armadas.

Edison Boaventura Jr., um dos pesquisadores mais ativos desde o início e membro do grupo, continua extremamente ativo. Ele segue pesquisando o caso "até os dias atuais", mantém um canal no YouTube e está escrevendo o segundo volume do livro sobre Varginha.

Jamil Vila Nova, o perito criminal que ajudou na análise técnica e nos depoimentos iniciais, manteve-se como parte técnica do grupo original, mas tem uma presença pública menor que a de Petit ou Boaventura nos anos recentes.

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