Quase 50 anos antes de Varginha (MG) entrar para a história da ufologia brasileira, um episódio ocorrido no deserto do Novo México já havia se tornado referência mundial sobre objetos voadores não identificados. Conhecido como o Caso Roswell, o evento é frequentemente apontado como o “irmão mais velho” do episódio mineiro e rendeu à Varginha o apelido de Roswell brasileiro.
Naquela época, os Estados Unidos já viviam uma onda de relatos sobre “discos voadores”. Em 24 de junho de 1947, o piloto Kenneth Arnold afirmou ter visto nove objetos voando em formação a cerca de 1.900 km/h, velocidade considerada impossível para a tecnologia da época. O relato ganhou enorme repercussão e popularizou o termo “disco voador”, usado até hoje.
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Poucas semanas depois, no início de julho daquele ano, o fazendeiro William Mac Brazel encontrou destroços espalhados no rancho dele, próximo à cidade de Roswell. Sem telefone, ele demorou alguns dias para comunicar o ocorrido ao xerife local, que acionou o Exército. O oficial de inteligência Jesse Marcel foi enviado para investigar a área.
No dia seguinte, o jornal Roswell Daily Record publicou uma manchete histórica: “RAAF (Campo Aéreo do Exército de Roswell) captura disco voador em rancho na região de Roswell”. O comunicado oficial afirmava que os militares haviam recuperado os destroços de um “disco voador”.
No entanto, 24 horas depois, o Exército mudou sua versão e declarou que o material era, na verdade, de um balão meteorológico. A imprensa publicou fotos de Marcel segurando fragmentos que pareciam papel alumínio, reforçando a nova explicação oficial.
Duas versões, um mistério duradouro
Décadas depois, em 1978, o físico nuclear e ufólogo Stanton T. Friedman retomou o caso e entrevistou Jesse Marcel. O militar afirmou que a versão do balão era uma encenação para encobrir o que realmente havia sido encontrado. Segundo ele, parte do material recuperado tinha propriedades incomuns: parecia papel alumínio, mas, ao ser amassado, voltava automaticamente à forma original.
Outros envolvidos no episódio também passaram a afirmar que não se tratava de um balão comum. O caso ganhou novas camadas com teorias sobre corpos extraterrestres, autópsias secretas e pedidos misteriosos feitos à funerária local — elementos que alimentaram livros, documentários, filmes e séries.
Em 1994 e 1997, o governo dos Estados Unidos publicou relatórios reafirmando a versão oficial. Segundo os documentos, os destroços pertenciam ao Projeto Mogul, um programa ultrassecreto destinado a monitorar testes nucleares soviéticos durante a Guerra Fria. Para muitos, porém, a explicação chegou tarde demais e não eliminou as contradições iniciais.
O espelho brasileiro
Em janeiro de 1996, Varginha entrou para a história da ufologia após o relato de três jovens que afirmaram ter visto uma criatura não humana em um terreno baldio. O episódio foi seguido por relatos de capturas, movimentação militar incomum, supostas mortes relacionadas ao caso e até envolvimento de forças internacionais.
Assim como em Roswell, as autoridades brasileiras negaram qualquer evento extraordinário. O Inquérito Policial Militar (IPM nº 18/97) concluiu que não houve queda de objeto nem captura de criaturas, classificando os relatos como suposições sem comprovação documental. Ainda assim, o caso nunca se encerrou no imaginário popular.
Pesquisadores apontam diversos pontos em comum entre Roswell e Varginha, incluindo uma resposta militar rápida e controle da informação; mudanças ou disputas na narrativa oficial; testemunhos civis e militares conflitantes; documentos classificados ou de difícil acesso; e transformação dos episódios em símbolos culturais.
Para Marco Antonio Petit, coeditor da Revista UFO, a comparação vai além da ufologia. “Roswell e Varginha mostram um padrão: primeiro o silêncio, depois uma explicação simplificadora. Quando os documentos não são totalmente abertos, o caso nunca se encerra”, avalia.
Até hoje a cidade de Varginha recebe turistas por conta da repercussão do caso
Apesar das semelhanças, os contextos são distintos. Roswell ocorreu em plena Guerra Fria, quando projetos secretos realmente existiam. Varginha aconteceu em um período democrático, com maior circulação de informação. Nos Estados Unidos, parte dos documentos foi desclassificada décadas depois; no Brasil, o conteúdo do IPM permaneceu inacessível ao público por anos.
Ainda assim, nos dois casos, testemunhas só se sentiram à vontade para falar anos depois. Para os ufólogos, isso diz muito sobre o ambiente de pressão vivido por essas pessoas.
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