PERIGOS NA RODOVIA
BR-365: moradores protestam contra criação de pedágios e pedem duplicação
Especialistas ouvidos pelo Estado de Minas explicam os fatores que, combinados, provocam os acidentes na rodovia e o que deve ser feito para evitá-los
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30/01/2026 18:50
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Acidentes graves que resultam em mortes de passageiros e motoristas têm virado rotina em trechos da BR-365, nas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Somente em janeiro deste ano foram cinco acidentes que deixaram 12 mortos e dezenas de feridos, segundo levantamento feito pelo Estado de Minas, com base em matérias publicadas nos últimos 30 dias, já que a Polícia Rodoviária Federal de Minas Gerais (PRF-MG) informou que os dados relativos aos acidentes em 2025 ainda não foram fechados.
Com o objetivo de chamar a atenção para os constantes acidentes, além de protestar pela possível implantação de três praças de pedágio em trechos da rodovia, um movimento popular marcou uma manifestação para esta segunda-feira (2/2), no trevo que dá acesso a Coromandel. Especialistas ouvidos pelo EM explicam os fatores que, combinados, provocam os acidentes na rodovia e o que deve ser feito para evitá-los.
O primeiro acidente registrado na BR-365 este ano foi em 6 de janeiro, quando um ônibus de turismo com 50 passageiros e dois motoristas capotou na altura de Patos de Minas (MG), no Alto Paranaíba, deixando seis mortos e dezenas de feridos em estado grave.
O veículo ia de Salvador, na Bahia, para Uberlândia (MG), no Triângulo Mineiro. Segundo a Polícia Rodoviária Federal de Patos de Minas, chovia no momento do acidente, o que contribuiu para que o veículo derrapasse, saísse da pista e capotasse no acostamento.
No dia seguinte (7/1), o motorista de uma van de 41 anos morreu depois de capotar o veículo às margens do km 384 da rodovia, também em Patos de Minas, a apenas seis quilômetros de distância do local do acidente com o ônibus de turismo.
O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) informou que o motorista fez uma ultrapassagem e perdeu o controle da direção ao retornar à sua faixa. Neste momento, a van invadiu um terreno, depois do acostamento, e capotou. O corpo do homem foi encontrado prensado debaixo do veículo. Ele teria sido ejetado durante o capotamento.
Em 8 de janeiro, uma batida frontal entre dois carros deixou dez pessoas feridas na BR-365, na altura de São Gonçalo do Abaeté (MG), Região Noroeste do estado. Segundo o CBMMG, o primeiro carro, um Gol, seguia em direção ao estado do Paraná e tinha como ocupantes um casal, duas crianças e um parente do condutor. Já o segundo era um Spacefox, que seguia para a cidade de Rio Pardo de Minas, no Norte do estado. Entre os ocupantes estavam um casal de idosos e outro casal com uma criança. Todas as vítimas conseguiram sair dos veículos antes mesmo da chegada do socorro, conscientes.
Já no último fim de semana foram registrados mais dois acidentes com mortes. No sábado (24/1), uma batida entre duas carretas, na altura do km 426 da rodovia, em Patos de Minas, deixou os dois motoristas mortos. De acordo com o Corpo de Bombeiros, as carretas seguiam em direções opostas quando colidiram. Com o impacto, uma das cabines explodiu e provocou o incêndio no outro veículo. No dia seguinte, um grave acidente entre um carro e uma carreta, altura do km 856 da rodovia, em Santa Vitória, no Triângulo Mineiro, resultou na morte de três pessoas que estavam no automóvel.
Duplicação e pedágios
O Movimento Popular em Defesa da BR-365 fará uma manifestação, na próxima segunda-feira (2/2), a partir das 8h, no trevo entre as rodovias BR-365 e MG-188, no acesso a Coromandel, no Alto Paranaíba. O ato é contra a implantação de três praças de pedágio sem a execução prévia de obras de melhoria na rodovia.
Os organizadores também querem chamar a atenção para os constantes acidentes com mortes na BR-365. “Todos os dias, milhares de pessoas trafegam por uma rodovia marcada por abandono, insegurança e mortes. Vidas estão sendo perdidas diariamente, e a sociedade não pode mais aceitar esse cenário de risco e negligência. Cansamos de pagar com vidas”, diz um trecho da convocação.
Além disso, cobram de autoridades e da concessionária EPR Triângulo o cumprimento de promessas feitas quando da concessão do trecho entre Patrocínio e Uberlândia, entre elas a duplicação de trechos da rodovia.
Um dos organizadores do movimento, Lucas Novais, explica que a mobilização teve início depois que os moradores da região ficaram sabendo que o trecho da BR-365, de Patrocínio até Patos de Minas, que é federal, passaria para o estado e, posteriormente, privatizado, com a cobrança de pedágio.
“Não somos contra o pedágio, mas queremos que tenha a duplicação. Queremos primeiro as melhorias”, ressalta.
Este será o primeiro de três atos nos trechos em que estão previstas as implantações dos pedágios. As próximas manifestações estão programadas para os trechos entre Patos de Minas e Lagoa Formosa e, posteriormente, na região de São Gonçalo do Abaeté.
Em nota, a concessionária EPR Triângulo informa que, desde o “início da concessão, vem promovendo investimentos consistentes na qualificação da malha viária, com foco permanente na ampliação da segurança e da fluidez nos mais de 600 quilômetros de rodovias sob sua administração no Triângulo Mineiro”.
A empresa afirma ainda que as intervenções feitas no trecho sob sua responsabilidade resultaram em redução de 23% no número de acidentes. “Entre as ações implementadas estão melhorias no pavimento, reforço e modernização da sinalização, implantação de defensas metálicas, sistemas de iluminação em trevos e outras iniciativas alinhadas às melhores práticas do setor”.
A concessionária ressalta que mantém diálogo permanente e transparente com autoridades, lideranças locais e comunidades do entorno e esclarece que as manifestações previstas para a próxima segunda-feira (2/2), em Patrocínio, dizem respeito a trecho rodoviário que não integra sua área de concessão.
“Reforçando sua atuação responsável e alinhada às diretrizes do poder concedente, a EPR Triângulo destaca que está integralmente em dia com as obrigações e os prazos contratuais, incluindo a entrega da duplicação de 36 quilômetros da BR-365, prevista para fevereiro de 2028”.
O Estado de Minas também procurou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para saber sobre os trechos da via sob sua responsabilidade e não obteve retorno.
Múltiplos fatores
O diretor científico da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra), Alysson Coimbra, destaca que o país tem um cenário de rodovias antigas, que não foram condicionadas para absorver o atual fluxo de veículos.
“Temos um crescimento da economia, vinculado ao aumento da circulação de veículos de grande porte porque o escoamento da produção, no Brasil, é majoritariamente feito pelo transporte rodoviário”, afirma. Ele ressalta que a BR-365 é uma rota usada para escoar a produção do agronegócio, além de Uberlândia também ter um centro de distribuição de produtos da Amazon. “O Triângulo Mineiro virou um local estratégico de distribuição de mercadorias, pela localização”, frisa.
Coimbra afirma ainda que o governo federal abandonou mecanismos de intervenção estrutural e faz apenas o recapeamento das vias. “Mas não atua em circunstâncias do que chamamos de intervenção em ponto crítico, que analisa o que motivou o acidente. Quando começamos a fazer uma análise multifatorial, percebemos o sucateamento (das rodovias), o alto custo para recuperá-las e (o governo) não consegue contingenciar recursos para essa medida. Por isso, não vê outra opção, do ponto de vista administrativo, além de conceder (as estradas) para a iniciativa privada. Mas não acontece a assinatura de um contrato (de concessão) mediante a imediata resolução do problema”.
Segundo o especialista, na visão dos usuários da rodovia, o problema é somente estrutural e a solução passaria pela duplicação da BR-365. “Mas estamos diante de um problema maior: de ordem econômica, de direcionamento de tráfego, de aumento do policiamento, da política de controle de velocidade. Quando temos um problema dessa magnitude, qualquer política isolada não resolve. O cenário para resolver parte de políticas públicas multidisciplinares, que avaliem a especificidade da região, a partir de um problema que é geral no Brasil. São rodovias antigas, sucateadas, desvios de verbas, obras não concluídas, além de recapeamento com má qualidade asfáltica”, aponta.
Coimbra resume que o problema é a incompatibilidade do fluxo de veículos, por um aumento da demanda de circulação, que a via não consegue acomodar. “Não temos investimento em estrutura que reduza o impacto do acidente, como redução de velocidade, área de descanso para o motorista e investimento em sinalização viária”.
O presidente do Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros (SUBC), José Natan, acredita também que muitos acidentes são causados pela conduta dos motoristas sem experiência para dirigir em rodovias. “Dirigir um veículo de carga requer equilíbrio e muita experiência. Precisa fazer vários cálculos no mesmo momento, se a cabine está indo para um lado e você perde o equilíbrio, às vezes, por uma coisa simples, acaba saindo da pista e tomba. Tem que ter muita ‘maldade’ para dirigir, pois pode acabar matando o outro sem querer ou se envolver em acidentes”.
Ele afirma ainda que os caminhões estão sendo produzidos com padrão para andar em estradas como as europeias, realidade muito diferente das rodovias brasileiras. “Aqui as estradas são cheias de ‘improviso’, pontes estreitas, falta de acostamento, caminhões com excesso de peso, motoristas cansados, que não conseguem parar para descansar, motoqueiros que cruzam as carretas”.