'Conspiração Condor' revive as mortes de JK, Goulart e Lacerda
Longa do cineasta André Sturm expõe olhar de questionamento sobre as mortes de três grandes políticos brasileiros do século passado
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Coincidências existem, mas não dessa maneira. Foi o que pensou o cineasta André Sturm ao constatar que, em nove meses, três dos maiores políticos brasileiros do século passado, dois deles ex-presidentes, morreram. Juscelino Kubitscheck (agosto de 1976 em acidente de carro), João Goulart (dezembro de 1976, de ataque cardíaco) e Carlos Lacerda (maio de 1977, também de infarto). Desde sempre, vale lembrar, havia suspeitas sobre a morte de JK.
“Se fosse só o Juscelino, ou só o Jango, ou só o Lacerda, seria azar. Mas são os três. E um ano antes da eleição (de 1978, que elegeu, de forma indireta, para a presidência, o general João Figueiredo), na época da Operação Condor”, afirma Sturm, referindo-se à aliança firmada entre as ditaduras do Cone Sul, com o apoio dos Estados Unidos, para coordenar a repressão dos opositores políticos dos seis países.
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Em cartaz no UNA Cine Belas Artes, “A Conspiração Condor”, terceiro longa de Sturm, une os fatos à ficção. Silvana (Mel Lisboa) é uma repórter que escreve sobre amenidades em um jornal paulistano. Com a morte de JK, é chamada para cobrir o velório em Brasília. Vai como repórter de apoio, já que a setorista de política é Marcela (Maria Manoella).
Chegando lá, ao ouvir populares, descobre que já naquele momento havia quem desacreditasse no simples acidente automobilístico. Na ocasião, conhece Juan (Dan Stulbach), jornalista experiente que atua na cobertura de grandes fatos da América do Sul. Silvana começa, por conta própria, a fazer uma investigação. Por incrível que pareça, seu melhor amigo é Floriano (Nilton Bicudo), o censor que trabalha, para a ditadura, dentro do jornal.
Com a morte de Jango numa fazenda na Argentina – onde o presidente deposto pelo golpe militar vivia, exilado –, Silvana decide ir a fundo na história. Com a colaboração de Marcela e Juan, vai a campo. “Todas as informações que têm no filme são verdadeiras. Tem uma parte que é inventada, mas ela não é falsa. Pode ter tido, por exemplo, uma jornalista que fez aquela investigação fazendo a ligação de tudo o que aconteceu”, explica Sturm.
Aqui, um parêntesis. Em outubro de 1966, Lacerda, Jango e JK lançaram a Frente Ampla, movimento de oposição à ditadura. Ainda que o primeiro, notório conservador, tenha sido um dos articuladores do golpe, Lacerda havia se voltado contra os militares. Tinha se convencido de que eles não deixariam um civil assumir o país. A Frente Ampla não foi longe – em abril de 1968 ela foi proibida pelo governo militar.
HISTÓRIA VERDADEIRA
Para os fatos em si, foram utilizadas imagens de arquivo. Como boa parte da narrativa é passada numa redação, o filme coloca o espectador dentro da história por meio de matérias da época. “A gente buscou muito cuidado histórico. Foram pequenos detalhes para que a história fosse o mais verdadeira possível, para que as pessoas saíssem do cinema com vontade de conversar sobre o que assistiram”, acrescenta Sturm.
Tirando a parte da redação, rodada em São Paulo, toda a narrativa foi filmada em Iguape, no Sul do estado. “Foi uma cidade muito rica no século 19, o principal porto do estado de São Paulo. Só que Iguape foi à falência. Mas guarda um casario maravilhoso, como também casinhas mais simples e muitas ruas de pedra”, conta o diretor.
“A Conspiração Condor” é o primeiro longa de Sturm desde “Bodas de papel” (2008). O grande hiato entre os dois filmes se deu porque o realizador, também gestor cultural, passou 14 anos no serviço público. Chegou a secretário municipal de Cultura de São Paulo (na gestão João Dória). “Abri mão da carreira”, justifica ele. Sturm volta justamente agora, com um thriller político, em ano eleitoral e em meio ao cinquentenário de morte de JK e Jango.
“O Lacerda foi atrás do Juscelino e do Jango, seus adversários históricos, para propor uma aliança para voltar a democracia. E eles toparam. Acho que isso é muito importante para os dias de hoje. Há momentos em que alianças são necessárias, mesmo se a pessoa é sua adversária. É importante a gente se unir em defesa de princípios básicos, a democracia e a liberdade são dois deles. Então acho que o filme tem dois lados: ele mostra que a gente teve políticos que tinham essa capacidade de discernimento, e traz o lado sombrio da política, aquele que a gente não quer que volte”, finaliza.
“A CONSPIRAÇÃO CONDOR”
(Brasil, 2026, 113min.) – De André Sturm, com Mel Lisboa, Nilton Bicudo, Dan Stulbach e Maria Manoella. O filme está em cartaz às 14h e às 20h30 na Sala 1 do UNA Cine Belas Artes
BIAL COMO LACERDA
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Em “A Conspiração Condor”, Carlos Lacerda é a única figura histórica que tem um papel no filme. Para interpretá-lo, André Sturm fez uma opção ousada: convidou Pedro Bial. “Eu queria trazer alguém um pouco diferente, que tivesse um perfil de ser do Rio, da Zona Sul, intelectual (como Lacerda o foi). Bateu o Pedro Bial na minha cabeça. Liguei para ele, que achou estranho no primeiro momento. Mas depois se empolgou, levou muito a sério. Falou com o neto do Lacerda, entrevistou o biógrafo dele, e acho que incorporou no filme de um jeito incrível”.