'Desafio é fazer público sentir presença de Rita Lee', diz Mel Lisboa
Atriz volta a interpretar a cantora em musical que reestreia em São Paulo
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao longo de 12 anos, a atriz Mel Lisboa se tornou a intérprete em corpo e voz da roqueira Rita Lee (1947-2023). Foi em 2014, na estreia do musical "Rita Lee Mora ao Lado", que ela subiu aos palcos para viver a cantora pela primeira vez.
De lá para cá, Lisboa encarnou Rita nos palcos inúmeras vezes, gravou narrações para as autobiografias da roqueira, participou de uma publicidade com ela e fez shows de tributo. Mas também foi pioneira e ajudou a consolidar a onda de peças nacionais que retratam cantores brasileiros.
"Já tenho um retorno sólido do público, do que eles viram, do que eles veem. Isso me dá segurança, mas não a ponto de achar que o jogo está ganho a cada vez que a cortina se abre", diz ela.
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Agora, a atriz volta a São Paulo com "Rita Lee, uma Autobiografia Musical", segunda produção teatral sobre a cantora, desta vez baseada no livro escrito por Rita, publicado em 2016. O espetáculo reestreia em abril no Teatro Porto, onde ficou em cartaz durante um ano e dois meses, de abril de 2024 a junho de 2025. A turnê percorreu outros 18 estados do país - um feito raro no teatro.
O convite para interpretar Rita partiu do diretor e dramaturgo Marcio Macena. Ele havia lido o livro "Rita Lee Mora ao Lado", de Henrique Bartsch, publicado em 2006 pela editora Panda Books. Nele, o autor mistura ficção e realidade, contando a vida da cantora narrada por uma suposta vizinha. Macena transformou a história em peça musical junto a diretora Débora Dubois.
Em um primeiro momento, Lisboa negou a participação. "Não conseguia me ver como Rita, nem fisicamente, nem na questão do canto", conta. Também pesava a responsabilidade de um papel desse porte. Mas, do início do projeto até a montagem, ela foi convencida. "Não consegui fugir. No fundo, eu não quis fugir."
Hoje, mais segura do seu trabalho como Rita, a atriz diz que o desafio segue sendo o mesmo de quando estreou na pele da cantora: corresponder à expectativa de um público que busca nela, durante a peça, sentir a presença daquela personalidade tão conhecida no Brasil.
Para isso, mergulhou na vida da roqueira em um processo que foi quase obsessão. Assistiu a gravações de shows, entrevistas, episódios de Rita no programa Saia Justa (GNT) e também ao documentário "Biograffiti" (2007), sobre a história da artista.
A atriz buscou entender como a cantora enxergava a vida e também captar as expressões corporais de Rita - ou os "movimentos ritálicos", como chama.
Além do preparo de voz para cantar, dedicou-se ao estudo do jeito de falar da roqueira. "Eu trabalho a minha voz falada em timbre, em cadência, em prosódia, para fazer com que as pessoas ouçam a Rita", explica.
Funcionou. No palco, Lisboa faz expressões faciais, replica o jeito da cantora de andar e falar, em uma representação bastante verossímil, que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz em 2025 - a premiação prestigia anualmente artistas e espetáculos em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Mas não foi esse o principal reconhecimento de Lisboa por seu trabalho como Rita Lee. Quando a atriz ainda estava em cartaz com "Rita Lee Mora ao Lado", lá atrás, a roqueira apareceu de surpresa em uma sessão do musical. Ao final da apresentação, subiu ao palco, cumprimentou Lisboa e elogiou o seu trabalho."Eu desabei pela alegria e emoção de ela estar lá, mas também pelo medo de ela ter detestado. Mas a Rita era muito generosa, foi de um carinho indescritível", afirma.
Em outros momentos a partir dali, Rita deixou claro que queria que Lisboa continuasse a representá-la."Ela passou a confiar em mim como um veículo para colocá-la no palco, como a voz e como o corpo -uma vez que ela já não queria mais estar lá, de primeira. E, depois, quando ela já não podia mais, quando já estava debilitada. Ela passou para mim esse espaço", lembra.
Foi a cantora que pediu para Lisboa gravar a narração de suas autobiografias. A primeira, de 2016, conta sobre sua infância e sua carreira, e a segunda, de 2023, sobre o dia a dia longe dos palcos e o enfrentamento ao câncer.
Durante o período da pandemia de coronavírus, a roqueira pediu a Macena e Lisboa para assistir de novo a "Rita Lee Mora Ao Lado". Nessa altura, a primeira autobiografia já estava publicada, e o diretor decidiu fazer uma nova montagem do musical, desta vez baseada na história contada do jeito de Rita.
A maneira franca e direta de falar sobre si mesma dá o tom do livro e também do espetáculo, que enfileira canções de sucesso da artista, como "Mutante", "Agora Só Falta Você" e "Ovelha Negra", para amarrar os acontecimentos da vida da cantora - da infância até a vida adulta.
Na peça, há cenas sobre a família da artista, o começo da carreira musical, a passagem pelo grupo Os Mutantes, a prisão na época da ditadura militar, a amizade com Ney Matogrosso, Raul Seixas e Elis Regina, além da paixão por Roberto de Carvalho - tudo o que ela mesma havia narrado no livro. A adaptação teve o aval da família, que assistiu ao musical mais de uma vez.
Hoje, Lisboa vê o espetáculo como mais uma forma de perpetuar a artista e seu jeito único de ser. "É uma coisa que a gente quer fazer porque ela está muito aí. Não vai se alijar da nossa memória tão cedo. Não tem como", afirma.
Na opinião da atriz, o tamanho de Rita Lee como artista e o carinho dos fãs da cantora são as principais explicações para o sucesso da produção. Mas não só. A boa recepção do espetáculo também é resultado de um conjunto de acertos - texto, direção de cena, direção musical, elenco, cenário e banda -, que funcionam como um pacote completo, segundo Lisboa.
"Você tem milhões de pequenos elementos que, juntos, deram certo. Quando você vê, é praticamente uma unanimidade. Só não é uma unanimidade porque nada é nessa vida", diz.
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