Antes de se tornar o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama por “O agente secreto”, Wagner Moura construiu uma trajetória extensa e diversa na TV e no cinema, passando por participações discretas, personagens coadjuvantes e projetos experimentais que hoje acabam ofuscados por títulos como “Tropa de Elite”. “Narcos” ou “Guerra civil”.

Relembre produções que ajudam a entender a versatilidade e o amadurecimento artístico de Wagner Moura.

“Carga Pesada” (2003)

No revival da clássica série da TV Globo, Wagner Moura aparece em um papel quase esquecido de sua carreira: Pedrinho, filho do caminhoneiro Bino (Stênio Garcia). Orgulho do pai, o personagem é apresentado como um jovem universitário exemplar — alto, forte, bonito e aplicado nos estudos — e funciona como contraponto ao cotidiano duro da estrada vivido por Pedro (Antônio Fagundes) e Bino.

A participação acontece em meio à segunda fase da série, que aprofundou conflitos pessoais dos protagonistas, como a descoberta do câncer de Bino e a decisão de pegar a estrada para uma última grande viagem. Embora breve, o papel marca uma das primeiras aparições de Wagner Moura na televisão aberta em um produto popular de grande audiência.

“Carandiru” (2003)

No drama dirigido por Hector Babenco, Wagner Moura interpreta Zico, um dos detentos do extinto presídio do Carandiru. Baseado no livro de Drauzio Varella, o filme retrata o cotidiano dos presos pouco antes do massacre de 1992 e foi decisivo para projetar o ator nacionalmente no cinema.

Anos depois, Moura revelou que o processo de gravação foi um dos mais difíceis de sua carreira. Em entrevistas, contou que se sentia fisicamente mal durante as filmagens no local real do presídio - o mesmo onde ocorreu o massacre retratado no filme -, descrevendo o ambiente como pesado e emocionalmente carregado. Apesar disso, o ator sempre destacou a importância do filme em sua formação artística.

“Sexo Frágil” (2003–2004)

Um dos projetos mais inventivos da TV Globo nos anos 2000, “Sexo Frágil” reuniu Wagner Moura, Bruno Garcia, Lázaro Ramos e Lúcio Mauro Filho em uma comédia sobre masculinidade, afetos e inseguranças masculinas.

Wagner interpretou Edu, o mais bagunceiro e impulsivo do grupo: desleixado, sonhador e avesso a rotinas, ele vivia entre projetos improváveis e romances confusos. Um dos diferenciais do seriado era o fato de os próprios atores também viverem personagens femininas, reforçando o tom de sátira e metalinguagem.

Na segunda temporada, Moura ainda deu vida à baiana Magali, personagem feminina fixa que ampliou o jogo cênico do elenco e consolidou o caráter experimental da produção.

“Programa Novo” (2004)

Exibido como especial de fim de ano, “Programa Novo” funcionou como uma extensão metalinguística de “Sexo Frágil”. Wagner Moura e seus colegas interpretam a si mesmos tentando criar um novo programa para a TV Globo após o sucesso da série anterior.

O especial brinca com bloqueios criativos, pressões da indústria televisiva e fórmulas desgastadas da TV aberta, misturando ficção e bastidores reais. Mesmo prometendo fugir de clichês e de “homens vestidos de mulher”, os personagens acabam reencontrando — e sendo perseguidos — pelas figuras femininas de Sexo Frágil.

“A Lua Me Disse” (2005)

Na novela de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, Wagner Moura interpretou Gustavo, um personagem denso e emocionalmente reprimido. Filho rejeitado pela vilã Ester (Zezé Polessa), Gustavo vive dividido entre a lealdade à família e o amor secreto por Heloísa (Adriana Esteves), protagonista da trama.

Ao longo da história, Gustavo assume responsabilidades nos negócios da família, enfrenta perdas profundas e passa por um arco de amadurecimento que culmina em seu casamento com Heloísa. O papel marcou uma fase de transição de Moura para personagens mais complexos e dramáticos na televisão.

“JK” (2006)

Na minissérie biográfica sobre Juscelino Kubitschek, Wagner Moura vive o ex-presidente em sua fase jovem, José Wilker interpreta o político já consagrado nacionalmente.

A produção acompanha desde a infância de JK até sua ascensão política e o projeto ambicioso de construção de Brasília. O trabalho exigiu de Moura um registro contido e elegante, distante dos tipos explosivos que o tornariam famoso anos depois, e reforçou sua credibilidade como ator dramático.

“Ó Paí, Ó” (2007)

Na adaptação cinematográfica da série homônima, Wagner Moura interpreta Boca, um malandro envolvido com a criminalidade no Pelourinho, em Salvador. O personagem é provocador, oportunista e atravessado por contradições morais.

Uma das cenas mais lembradas do filme envolve Boca fazendo um comentário racista contra Roque (Lázaro Ramos), escancarando tensões sociais e raciais que permeiam a narrativa. O papel dialoga com a origem teatral do projeto e antecipa personagens mais ambíguos da carreira do ator.

“Serra Pelada” (2014)

No longa de Heitor Dhalia, Wagner Moura vive Lindo Rico, um chefe de garimpo corrupto, violento e manipulador. Com fala mansa e sorriso irônico, o personagem provoca a discórdia entre antigos amigos para assumir o controle do garimpo.

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O papel reforça a habilidade do ator em compor figuras moralmente dúbias e autoritárias. A produção também ganhou versão em microssérie exibida pela TV Globo, que ampliou o alcance da obra.

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