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COVID-19: por que o Brasil se tornou o pesadelo da Europa

Agravamento da pandemia no país e risco de variante surgida em Manaus levam nações do Velho Continente a barrar voos brasileiros para evitar quarta onda


14/04/2021 06:00 - atualizado 14/04/2021 07:49

Desde ontem, o Aeroporto Charles de Gaule não recebe mais aviões de companhias com origem em terminais brasileiros (foto: Thomas Samson/AFP)
Desde ontem, o Aeroporto Charles de Gaule não recebe mais aviões de companhias com origem em terminais brasileiros (foto: Thomas Samson/AFP)

Avignon, França – Com medidas restritas para viajantes brasileiros há quase um ano, a União Europeia começa a se fechar definitivamente para o país. Relações até então amistosas foram postas de lado para elevar a maior nação da América Latina ao posto de “persona non grata”. Numa Europa em pleno combate da terceira onda do novo coronavírus, o Brasil se tornou um de seus maiores pesadelos. Com o número de mortos beirando os 360 mil, uma situação epidemiológica fora de controle e uma vacinação que suscita questionamentos mundo afora, fronteiras se fecham uma após a outra. Cientistas franceses levantam verdadeira campanha por medidas rigorosas por medo de a variante P1, dominante no país verde e amarelo, jogar por terra os esforços de vacinação no velho continente e causar uma quarta onda da doença na pátria da Torre Eiffel.

O primeiro a cortar voos com o Brasil foi Portugal que, na semana passada, saiu de um confinamento de 11 semanas. Os voos estão suspensos até amanhã, mas a expectativa é de que a medida seja renovada. Só podem ganhar terras lusitanas, em voos de repatriação, “portugueses ou cidadãos estrangeiros residentes em Portugal que manifestaram, junto dos postos consulares portugueses no Brasil, necessidade de regresso imediato a território nacional”, informa comunicado da embaixada no Brasil.

Ontem, foi a vez de o primeiro-ministro francês, Jean Castex, anunciar na Assembleia Nacional (a Câmara dos Deputados): “Constatamos que a situação se agrava (no Brasil) e decidimos suspender até nova ordem todos os voos entre o Brasil e a França”. O último voo, da Air France saiu ontem do Rio de Janeiro com destino a Paris. Os dois aeroportos da capital francesa estão operando em apenas dois terminais, com número restrito de companhias aéreas – a Latam, por exemplo, já não figurava nos painéis de bordo.

As medidas haviam sido endurecidas no sábado. Viajantes que chegavam ao Aeroporto Charles de Gaule vindos do Brasil eram separados dos demais passageiros para um teste obrigatório. Na Itália, decreto do dia 6 do mês passado proibiu a entrada no país de pessoas que tenham permanecido ou transitado no Brasil nos 14 dias anteriores à viagem.

''Se não limitarmos a chegada de viajantes do Brasil e também outros países, dentro de algumas semanas ou meses poderemos ter uma quarta onda''

Rémi Salomon, Presidente da Comissão Médica de Estabelecimento da Assistência Pública - Hospitais de Paris (AP-HP)


Na França, cuja população enfrenta seu terceiro confinamento, a situação do Brasil é destaque cotidianamente na imprensa. Considerada uma catástrofe, as matérias tentam explicar as razões da média de 3 mil mortes diárias. A variante P1, que em três meses se alastrou mundo afora, é a grande preocupação, sobretudo diante da incógnita sobre a eficácia da vacina Coronavac, desenvolvida na China pelo laboratório Sinovac.
As dúvidas sobre as vacinas chinesas – incluindo as desenvolvidas pela estatal Sinopharm – ganham força diante das últimas afirmações vindas do país oriental confirmando eficácia na faixa dos 50%. Sábado, pronunciamento do diretor do Centro Chinês de Controle e de Prevenção de Doenças, Gao Fu, aumentou ainda mais as especulações sobre a necessidade de dose suplementar ou mistura da vacina. “É preciso encontrar solução para as vacinas que não têm taxa de proteção tão elevada”, disse.

Na França, o “lançador de alerta” é o médico Rémi Salomon, Presidente da Comissão Médica de Estabelecimento da Assistência Pública – Hospitais de Paris (AP-HP), uma rede de 39 hospitais que formam o centro hospitalar universitário de Paris e região e acolhe anualmente mais de 10 milhões de pacientes. Nos últimos dias, seus posts no Twitter sobre o assunto tiveram milhares de curtidas e ultrapassaram a casa dos 365 mil views. Neles, ele evoca a P1 no Brasil e seu crescimento exponencial na Colômba Britânica (província no Canadá) e pede medidas drásticas não apenas para o Brasil, como para outros países onde a situação é grave, caso do Chile e da Índia.

“A contagiosidade da P1 é muito ligada à falta de medidas e muitas situações que favorizam a circulação, mas, aparentemente, o vírus por si só é mais contagioso, mais que a variante britânica e a cepa original”, afirma. “Essa e outras mutações parecem ter resistência a anticorpos: os naturais não são resistentes para proteger e os adquiridos com a vacina protegem menos também. Ainda são dados de laboratório, não o temos no conjunto da população”, adverte.

O professor Salomon lembra que uma circulação tão ativa facilita a circulação de mutações. Embora na França a P1 represente menos de 1% dos casos, segundo o Ministério da Saúde, a ordem é bloquear qualquer possibilidade. “Se não limitarmos a chegada de viajantes do Brasil e também outros países, dentro de algumas semanas ou meses poderemos ter uma quarta onda”, avisa.

Movimento só em caso urgente


Até a suspensão dos voos, brasileiros só podem entrar na França por motivo considerado “imperioso”. Têm direito de ganhar o país franceses ou estrangeiros com residência fixa. O inverso também valia: deixar o país com destino ao Brasil, apenas com justificativa de razão urgente. “Fazer teste antes da viagem não é suficiente. Se a pessoa jantar com amigos no Rio de Janeiro antes de embarcar e se contaminar, o teste dela dará negativo. Só aparecerá como positivo dentro de cinco e seis dias”, ressalta o médico Rémi Salomon.

Assim como outros pesquisadores, ele defende quarentena a quem chega de voos brasileiros – uma quarentena forçada, a exemplo do que faz a Inglaterra, cujos passageiros de países da lista vermelha (incluindo o Brasil), saem do aeroporto direto para um dos hotéis escolhidos pelo governo. A multa para quem desobedece ou escapa ao controle é de 10 mil libras (cerca de R$ 78 mil). Para os cientistas, a suspensão de voos não é suficiente, uma vez que as conexões ainda estão ativas.

“O primeiro caso de P1 constatado na França, em 4 de fevereiro, é de uma pessoa que saiu de Manaus, passou por São Paulo, desembarcou em Frankfurt (na Alemanha) e pegou um voo para Marselha”, relata Salomon. “Alguns dirão que é atentado à liberdade, mas diante da necessidade de medidas excepcionais, ela se justifica.” O grupo de cientistas cobra ainda uma medida comum, como o fechamento de fronteiras, em toda a União Europeia, além de uma coordenação mundial em função de variante presente em cada país.

Vacina da J&J é suspensa nos EUA

As campanhas de vacinação ao redor do mundo sofreram um novo revés ontem. Nos Estados Unidos e na África do Sul foi suspensa a aplicação do imunizante contra a COVID-19 da Johnson & Johnson após o aparecimento de um tipo raro de coágulo sanguíneo, o que também atrasará sua distribuição na Europa. No entanto, o laboratório americano Pfizer disse que “acelerou a produção” da sua vacina contra a COVID e poderá abastecer os Estados Unidos com um excedente de 10% das doses previstas até o fim de maio. As principais autoridades sanitárias americanas recomendaram “por precaução” fazer uma “pausa” no uso da vacina da Johnson & Johnson, a única de uma só dose autorizada e da qual os Estados Unidos já aplicaram 6,8 milhões de injeções.

A agência que regula os medicamentos nos Estados Unidos (FDA) está investigando seis casos de mulheres que desenvolveram graves coágulos sanguíneos após terem recebido a vacina. Um caso foi fatal e uma paciente se encontra em estado crítico. Mas, segundo a Casa Branca, isto “não terá um impacto significativo no plano de vacinação, já que a vacina da Johnson & Johnson representa menos de 5% das aplicações nos Estados Unidos até agora”. O presidente Joe Biden assegurou que “há vacinas suficientes para todos os americanos. Isso é absolutamente indiscutível”.

O que é um lockdown?

Saiba como funciona essa medida extrema, as diferenças entre quarentena, distanciamento social e lockdown, e porque as medidas de restrição de circulação de pessoas adotadas no Brasil não podem ser chamadas de lockdown.


Vacinas contra COVID-19 usadas no Brasil

  • Oxford/Astrazeneca

Produzida pelo grupo britânico AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, a vacina recebeu registro definitivo para uso no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No país ela é produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

  • CoronaVac/Butantan

Em 17 de janeiro, a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan no Brasil, recebeu a liberação de uso emergencial pela Anvisa.

  • Janssen

A Anvisa aprovou por unanimidade o uso emergencial no Brasil da vacina da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson, contra a COVID-19. Trata-se do único no mercado que garante a proteção em uma só dose, o que pode acelerar a imunização. A Santa Casa de Belo Horizonte participou dos testes na fase 3 da vacina da Janssen.

  • Pfizer

A vacina da Pfizer foi rejeitada pelo Ministério da Saúde em 2020 e ironizada pelo presidente Jair Bolsonaro, mas foi a primeira a receber autorização para uso amplo pela Anvisa, em 23/02.

Minas Gerais tem 10 vacinas em pesquisa nas universidades

Como funciona o 'passaporte de vacinação'?

Os chamados passaportes de vacinação contra COVID-19 já estão em funcionamento em algumas regiões do mundo e em estudo em vários países. Sistema de controel tem como objetivo garantir trânsito de pessoas imunizadas e fomentar turismo e economia. Especialistas dizem que os passaportes de vacinação impõem desafios éticos e científicos.


Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal

Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus.

 

 

Entenda as regras de proteção contra as novas cepas



 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.


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