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Estado de Minas PANDEMIA

COVID-19: atrasos comprometem imunização no Brasil

Número de mortes pela COVID-19 dobra em menos de um mês no país. Recrudescimento é provocado pela ineficácia de ações do governo no plano nacional de vacinação


11/04/2021 04:00 - atualizado 11/04/2021 18:34

As idas e vindas nos acordos do governo federal com laboratórios para a compra de vacinas atrasaram o início da campanha no país, que ainda enfrenta a falta de matéria-prima para a produção de doses(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
As idas e vindas nos acordos do governo federal com laboratórios para a compra de vacinas atrasaram o início da campanha no país, que ainda enfrenta a falta de matéria-prima para a produção de doses (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Na semana passada, o Brasil bateu um triste recorde nesta pandemia, ao registrar mais de 4 mil mortes por COVID-19 em 24 horas. O patamar de vidas perdidas dobrou em 27 dias, uma vez que em 10 de março o país atingia a marca de 2 mil vítimas do coronavírus no período de um dia.

Ao passo que os números avançam, a promessa de mais doses de vacinas constantemente muda, indicando atraso e alterações – para baixo – na quantidade de imunizantes que serão entregues aos municípios em um determinado mês.

Foram pelo menos seis alterações. A frustração vai na contramão da indicação de uma pesquisa que mostra que o país precisa de imunizar 2 milhões de pessoas por dia para controlar a pandemia em até um ano.

Em várias oportunidades, em 2020, o Ministério da Saúde ignorou ofertas de vacinas, como a CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Sinovac, da China, em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Em 30 de julho do ano passado, a entidade enviou ofício à pasta federal oferecendo 160 milhões de doses, sendo 60 milhões prontos para entrega ainda em 2020 e 100 milhões para este ano. No entanto, não houve resposta. Outras ofertas foram feitas em 18 de agosto e em 7 de outubro.

Em 14 de agosto do ano passado, a farmacêutica Pfizer ofereceu 70 milhões de doses ao Ministério da Saúde. No entanto, o então ministro Eduardo Pazuello não concordou com algumas exigências contratuais do laboratório. Uma das condicionantes era a isenção de responsabilidade por eventuais efeitos colaterais pela vacina.

"A pandemia, realmente, está chegando ao fim. Temos uma pequena ascensão agora, que chama de pequeno repique, que pode acontecer, mas a pressa da vacina não se justifica. Você mexe com a vida das pessoas. Vão inocular algo em você. O seu sistema imunológico pode reagir ainda de forma imprevista"

Presidente Jair Bolsonaro, em live em 19 de dezembro do ano passado


"Queremos que a Pfizer nos dê o tratamento compatível com o nosso país, amenize essas cláusulas. Não podemos assinar dessa forma”, disse Pazuello, que negou outras duas ofertas do laboratório, sendo uma no mesmo mês e outra em novembro.

IRONIAS 

Ao falar sobre o item contratual, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou a ironizar o imunizante fabricado pela Pfizer. Em 18 de dezembro do ano passado, Bolsonaro, em evento realizado na Bahia, disse que não havia garantia de que a vacina não transformaria pessoas em "jacarés". "Lá no contrato da Pfizer, está bem claro: nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu", disse Bolsonaro.

Após ter recusado as doses em 2020, o Ministério da Saúde, em 19 de março deste ano, anunciou a compra de 100 milhões de doses fabricadas pela Pfizer e outros 38 milhões da Janssen.

No anúncio, o governo federal afirmou que 13,5 milhões de doses da Pfizer devem ser entregues entre abril e junho e outros 86,5 milhões entre julho e setembro. Já o acordo com a Janssen prevê que 38 milhões de doses devem ser enviadas à pasta entre agosto e novembro.

Apesar de ter ignorado três ofertas pela CoronaVac, o Ministério da Saúde, em 20 de outubro do ano passado, havia anunciado a intenção de compra de 46 milhões de doses do imunizante. No entanto, no dia seguinte, Bolsonaro utilizou as redes sociais para cancelar a aquisição da vacina, classificada como “a vacina chinesa de João Doria”, governador de São Paulo.

“Para o meu governo, qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa. O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que nem sequer ultrapassou sua fase de testagem. Diante do exposto, minha decisão é a de não adquirir a referida vacina”, publicou o presidente que, dias depois, disse que cancelaria a compra, pois “não abria mão de sua autoridade”.

Já em 29 de outubro, Bolsonaro, em uma transmissão semanal em suas redes sociais, disse que o “governo não compraria a vacina de João Doria” e que era para o governador de São Paulo procurar outro para “pagar pelos imunizantes”.

"Ninguém vai tomar a tua vacina na marra não, tá ok? Procura outro. E eu que sou o governo, o dinheiro não é meu, é do povo, não vai comprar tua vacina também, não, tá ok? Procura outro para pagar tua vacina aí", disparou.

No mês seguinte, em 9 de novembro, os testes da CoronaVac foram suspensos pela Anvisa por causa de um “evento adverso grave”. A morte do voluntário, no entanto, foi registrada como suicídio e não teve relação com a vacina. Mas, um dia depois em que os trabalhos com o imunizante foram paralisados, Bolsonaro utilizou as redes sociais para “anunciar” que havia “ganhado” de João Doria.

“Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.”

Em 19 de dezembro do ano passado, em transmissão por meio das redes sociais com o filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Jair Bolsonaro disse que “a pressa da vacina não se justifica”. Naquela época, o Brasil já havia perdido 180 mil pessoas por COVID-19. Mas mesmo diante do número alarmante, o presidente chegou a dizer que “a pandemia estava chegando ao fim”.

"A pandemia, realmente, está chegando ao fim. Temos uma pequena ascensão agora, que chama de pequeno repique, que pode acontecer, mas a pressa da vacina não se justifica. Você mexe com a vida das pessoas. Vão inocular algo em você. O seu sistema imunológico pode reagir ainda de forma imprevista", falou.

Oito dias depois, em conversa com apoiadores, Bolsonaro disse que os laboratórios deveriam procurar o Brasil para oferecer as vacinas. "O Brasil tem 210 milhões de habitantes, um mercado consumidor de qualquer coisa enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que eles não apresentam documentação na Anvisa?",  questionou o presidente.

IMPASSE 

As idas e vindas nos acordos, sem dúvida, atrasaram o envio de doses dos imunizantes. Mas, mesmo com os contratos assinados e com o início da vacinação no Brasil, outros impasses surgiram, como em janeiro deste ano.

Na ocasião, houve demora no envio do insumo farmacêutico ativo (IFA), principal ativo para fabricação das vacinas da AstraZeneca/Fiocruz e da CoronaVac. Rodrigo Maia (DEM-RJ), que era presidente da Câmara dos Deputados na época, chegou a se reunir com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, para viabilizar a chegada do IFA.

Com a chegada dos ingredientes ao Brasil, em fevereiro, a produção de doses foi retomada em alta escala. No entanto, o cronograma de entregas acabou sendo alterado pela Fiocruz e pelo Butantan. Um dos exemplos de mudanças foi anunciado pelo novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em 31 de março.

Na ocasião, ele afirmou que o Brasil receberia, em abril, 25,5 milhões de doses. A quantidade prevista anteriormente era de 47 milhões. Um "corte" de 21,5 milhões de doses, o que representa 47% a menos de imunizantes. Tanto a Fiocruz como o Butantan reduziram a previsão de entregas.

Na última quarta-feira (7/4), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que aguarda o envio do IFA para continuar a produção. Naquele dia, haviam sido entregues 1 milhão de doses ao Ministério da Saúde, totalizando 38,2 milhões de imunizantes. 

Com a chegada de mais 6 mil litros do principal ingrediente das vacinas, a meta é completar os 46 milhões de doses do primeiro acordo com o governo federal e já iniciar o segundo contrato, que prevê a entrega de 54 milhões de doses.

“De fato, nós integralizamos 38,2 milhões de doses e já temos produzidos 41,4 milhões. Aguardamos a chegada de mais matéria-prima da China nos próximos dias para iniciar a fase final desse contrato de 46 milhões e já iniciar o contrato de 54 milhões”, explicou Dimas, que destacou que o atraso do envio do IFA se deve a fatores burocráticos, sem entrar em mais detalhes.

Já na quinta-feira (8/4), o Instituto Butantan afirmou que a China havia liberado 3 mil litros de IFA para a produção da CoronaVac, quantidade suficiente para produzir 5 milhões de doses.

O que é um lockdown?

Saiba como funciona essa medida extrema, as diferenças entre quarentena, distanciamento social e lockdown, e porque as medidas de restrição de circulação de pessoas adotadas no Brasil não podem ser chamadas de lockdown.


Vacinas contra COVID-19 usadas no Brasil

  • Oxford/Astrazeneca

Produzida pelo grupo britânico AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, a vacina recebeu registro definitivo para uso no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No país ela é produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

  • CoronaVac/Butantan

Em 17 de janeiro, a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan no Brasil, recebeu a liberação de uso emergencial pela Anvisa.

  • Janssen

A Anvisa aprovou por unanimidade o uso emergencial no Brasil da vacina da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson, contra a COVID-19. Trata-se do único no mercado que garante a proteção em uma só dose, o que pode acelerar a imunização. A Santa Casa de Belo Horizonte participou dos testes na fase 3 da vacina da Janssen.

  • Pfizer

A vacina da Pfizer foi rejeitada pelo Ministério da Saúde em 2020 e ironizada pelo presidente Jair Bolsonaro, mas foi a primeira a receber autorização para uso amplo pela Anvisa, em 23/02.

Minas Gerais tem 10 vacinas em pesquisa nas universidades

Como funciona o 'passaporte de vacinação'?

Os chamados passaportes de vacinação contra COVID-19 já estão em funcionamento em algumas regiões do mundo e em estudo em vários países. Sistema de controel tem como objetivo garantir trânsito de pessoas imunizadas e fomentar turismo e economia. Especialistas dizem que os passaportes de vacinação impõem desafios éticos e científicos.


Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal

Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus.

 

 

Entenda as regras de proteção contra as novas cepas



 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.


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