A divulgação do áudio do senador e hoje candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) cobrando R$ 134 milhões ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para a produção do filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), “Dark Horse”, completa 100 dias nesta sexta-feira (21/8). Segundo o próprio investigado, o valor enviado ultrapassa o marco de R$ 60 milhões. Mais de três meses depois, no entanto, o uso do montante não ficou claro. Um inquérito foi aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar a doação da dinheirama.

Nas gravações, divulgadas pelo site The Intercept Brasil, o senador chama o executivo de “irmão” e diz que sempre estará com ele. Segundo a apuração, a conversa aconteceu em novembro de 2025, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez pela Polícia Federal (PF) por envolvimento em um esquema de corrupção com propina, lavagem de dinheiro e lobby no setor político, de mídia e econômico.

Após a prisão de novembro e a seguinte liberação do empresário, no dia 29 daquele mês, Flávio fez uma viagem de bate e volta, de Brasília a São Paulo, para visitar Vorcaro. O senador admitiu a visita e alegou que o encontro se deu para colocar um ponto final no contrato entre Vorcaro e a produção do filme. O valor gasto com as passagens totalizou R$ 2.540,09 e foi integralmente reembolsado pelo Senado Federal a Flávio Bolsonaro.

Na quinta-feira (20), durante agenda em São Paulo, Flávio declarou que a controvérsia envolvendo o filme é uma “página virada”. Segundo ele, a prestação de contas do filme “já aconteceu” e que “estava tudo certinho” no documento. No entanto, o suposto documento não veio a público.

As explicações foram cobradas pelo também candidato ao Palácio do Planalto, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), que ironizou a demora da prestação de contas com a equipe de Flávio que “parece que está fazendo a conta no papel de pão ou contando nos dedos” para justificar os valores recebidos.

Embora a produtora tenha informado um custo aproximado de R$ 75 milhões para a realização, conforme perícia particular juntada a um inquérito que apura a suposta utilização de recursos públicos, o relatório não apresenta a lista de financiadores, como também não inclui os comprovantes fiscais dos serviços prestados.

Ainda em maio, Flávio afirmou ter cobrado da produtora responsável pelo longa, Go Up, total transparência na prestação de contas, garantindo estar "100% disposto" a divulgar a íntegra do contrato firmado com Vorcaro. As transferências feitas estão sob investigação da Polícia Federal, que apura eventuais irregularidades nas transações.

Investigações

A produção do filme está incluída nas investigações de fraudes financeiras do Banco Master, então gerido por Vorcaro, que citou negociações de custeamento do longa em proposta de delação premiada. Nela, o ex-banqueiro citou Flávio e repasses feitos ao filme, que totalizaram R$ 61 milhões

Após a divulgação das mensagens, Flávio confirmou ter recebido o dinheiro de Vorcaro, mas negou ter sido beneficiado diretamente com os valores milionários. Segundo ele, “o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, sem envolvimento de dinheiro público ou utilização da Lei Rouanet. A produtora do filme, porém, negou que recebeu o dinheiro.

Por sua vez, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do filme, afirmou que “não há um centavo do Master” no filme e que, se houvesse, “não haveria problema” porque “trata-se de uma relação estritamente privada entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido”. Posteriormente, ele voltou atrás e disse que Vorcaro ou o Master não são signatários de relacionamento jurídico, e que o contrato é firmado com a Entre Investimentos e Participações. No entanto, a Entre mantinha parceria com outros empreendimentos ligados a Vorcaro. 

A produção do filme coleciona irregularidades. A produtora Go Up Entertainment Ltda só foi regulamentada no sistema federal após ter firmado contrato milionário com Vorcaro. Antes do longa, nenhum outro filme havia sido registrado pela empresa, bem como pela dona da empresa, Karina Ferreira da Gama, ou outros CNPJs dela, Go7 Assessoria e ONG Instituto Conhecer Brasil.

A ONG, inclusive, também recebeu um pagamento expressivo vindo de Frias: uma doação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares, conforme acessado no Portal da Transparência das Emendas Parlamentares. No documento, a parlamentar ligou a transferência a Organizações Não Governamentais (ONGs) e projetos de cultura.

Responsável pela produção, Karina Gama afirmou, em julho, que o orçamento usado no longa já havia chegado à casa dos US$ 13 milhões – o que equivale a aproximadamente R$ 65,65 milhões. Com isso, o montante transferido pelo empresário representa cerca de 92% do orçamento atual da produção. Dentre os investimentos feitos no filme, está a contratação do ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em “A Paixão de Cristo”, no papel de Bolsonaro. 

Gama ainda argumentou que todo o dinheiro usado no filme veio do fundo Heavensgate, que é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, que é aliado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). Investigações da Polícia Federal (PF) indicam que a empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, foi a fonte de recursos para o filme. Outra linha de investigação suspeita que o dinheiro investido pode ter custeado a estadia de Eduardo nos EUA.

Distribuição pós-eleições

A viabilidade comercial do filme foi posta em cheque. Em julho, a distribuidora Paris Filmes chegou a avaliar a distribuição, mas a descartou. Dias depois, a Europa Filmes assumiu a distribuição e definiu que o longa só deve entrar em cartaz nos cinemas brasileiros, em um lançamento de grande porte, a partir de novembro, de modo a blindá-lo de uma possível intervenção da Justiça Eleitoral. 

O planejamento é que “Dark Horse” seja exibido em pelo menos 650 salas, incluindo a linguagem original, uma vez que o filme foi gravado em inglês, e com cópias dubladas. Ao jornal O Globo, o diretor-geral da Europa Filmes Wilson Feitosa declarou que a expectativa é que o filme possa ter três diferentes performances: uma com 800 mil espectadores; outra com 1,5 a 2 milhões de espectadores, e outra superando os dois milhões. Na visão dele, os números não são impossíveis considerando o eleitorado bolsonarista, mas é preciso considerar as salas que aceitariam exibir o longa.

No Brasil, a distribuição de obras só pode ser feita por empresas especializadas, grandes estúdios internacionais ou pelos próprios criadores sob regulamentação da Ancine. Caso não houvesse um agente distribuidor, o filme não seria exibido nos cinemas.

Sátira removida

Uma decisão do ministro do STF André Mendonça, relator do caso envolvendo o Master no Supremo, evita que a imagem de Flávio seja ligada a Vorcaro. Promulgada nesta semana, a medida determinou a remoção de uma publicação feita por uma página no Instagram que mostrava os dois juntos em montagem feita por inteligência artificial (IA).

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Na publicação, as imagens retratavam cenas fictícias de Flávio e Vorcaro se abraçando e envolvidos em cenas de transporte de dinheiro. Mendonça entendeu que a publicação tem indícios de deepfake, o que é vetado durante o período eleitoral, e determinou a remoção do conteúdo em até 24 horas. O responsável pelo perfil foi notificado para cumprir a decisão.

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