Os dilemas do PL em Minas Gerais
Cleitinho Azevedo se tornou a principal aposta do PL para o governo de Minas, mas posições favoráveis a pautas do governo Lula podem ser "calcanhar de Aquiles"
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Rotulado “esquerdista” por seu posicionamento favorável em pautas do governo Lula (PT), o senador Cleitinho Azevedo é agora uma das principais apostas do Partido Liberal (PL) para a disputa pelo governo de Minas Gerais, depois de a cúpula da legenda decidir, na última terça-feira, abandonar as articulações com Mateus Simões (PSD).
Ao encampar mais recentemente o debate sobre o fim da escala 6x1, Cleitinho abriu espaço para ser enquadrado, sobretudo nas redes sociais, como alguém que flerta com agendas historicamente vinculadas à esquerda, um rótulo sensível dentro de um eleitorado majoritariamente conservador, e que agora o PL, hoje convertido em principal vitrine do antipetismo, terá de administrar nos próximos meses.
A favor de Cleitinho pesa a proximidade com pautas caras ao núcleo mais fiel do bolsonarismo, como a defesa da anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Além, é claro, do favoritismo medido pelas pesquisas até o momento, ainda que em um cenário de pré-campanha. A questão é que, junto da popularidade, vem também um histórico de posições que frequentemente escapam da cartilha ideológica mais rígida do bolsonarismo.
Cleitinho nunca escondeu ser alinhado ao núcleo duro do bolsonarismo. Disse até que apoiaria Flávio Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair, ainda que o PL optasse por não acompanhá-lo em uma eventual candidatura ao Palácio Tiradentes.
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Ainda assim, ao contrário de seus agora aliados públicos, Cleitinho não abraça o mesmo antipetismo "acima de qualquer circunstância". Um dos exemplos mais recentes foi o apoio ao programa Gás do Povo, que prevê a distribuição gratuita de recargas do botijão de gás de cozinha para famílias em situação de vulnerabilidade, proposta que teve massiva recusa do lado dos bolsonaristas.
Nas redes sociais, apoiadores passaram a questionar a coerência do parlamentar. Cleitinho respondeu em tom irritado. Defendeu sua independência, disse que trabalha “para o povo”, independentemente da origem partidária das propostas, e que não deixará de apoiar projetos apenas porque foram apresentados por integrantes do governo federal. No que diz respeito ao debate do fim da escala 6x1, por exemplo, ele e Nikolas Ferreira, principal puxador de votos do PL, adotam posições opostas.
O presidente estadual da legenda, o deputado Zé Vitor, minimiza as divergências. Em entrevista ao Estado de Minas, ele rejeitou a ideia de que o partido possa enquadrar ou impor limites ao discurso do senador. “Não vamos pôr freio em ninguém”, afirmou.
Ele acredita, por outro lado, que a convivência mais próxima entre Cleitinho e os quadros do PL deve naturalmente aproximar os discursos e reduzir a possibilidade de ruídos internos. “Não dá para colocar todo mundo em uma mesma caixinha. Mas eu digo que a distância tem dificultado a construção de uma pauta única. Com o tempo a gente vai se aproximando, se acostumando. Acho que essa convivência agora mais próxima, nesse momento de fechar esses alinhamentos, vai trazer mais esclarecimento nesse sentido”, completou.
Internamente, integrantes do partido rejeitam a ideia de que Cleitinho represente um risco ideológico para a legenda. O argumento é que o senador não abraça pautas consideradas identitárias ou tradicionalmente associadas ao campo progressista.
“Ele (Cleitinho) não defende pautas que são características ideológicas do governo. Ideologicamente, ele caminha com a gente. Não é um padrão do Cleitinho votar tudo que vem do governo. Ele é crítico em alguns pontos também. Ele não está totalmente desalinhado do que a gente pensa. Pelo contrário, tem muito mais pontos em comum do que divergentes”, afirmou Zé Vitor.
Pré-candidato ao Senado e até semana passada presidente estadual da legenda, Domingos Sávio, segue a mesma linha. Para ele, pautas como o fim da escala 6x1 e o Gás do Povo não devem interferir nas negociações para uma aliança. “Não vejo razão para incluir essas pautas em nossa conversa. Creio que comungamos com os mesmos princípios”, declarou.
As divergências internas do PL, no entanto, vão além do caso Cleitinho. Na última semana, o prefeito de Pará de Minas, Inácio Franco, virou alvo de um pedido de expulsão do partido após declarar apoio à pré-candidatura ao Senado da ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, do PT.
Diferentemente do que ocorre com Cleitinho, a direção estadual considera o gesto de Inácio Franco incompatível com as diretrizes partidárias. “O problema é apoiar um projeto do PT, que destoa completamente daquele do modelo de Brasil que a gente espera”, afirmou.
O caso foi encaminhado à Comissão de Ética e Disciplina do partido. Em nota, a executiva estadual do PL em Minas afirmou que, em análise preliminar, a conduta do prefeito pode configurar “descumprimento inequívoco” das orientações da direção nacional.
A própria trajetória do partido ajuda a entender o momento atual vivido pela legenda. Antes de se firmar como símbolo do antipetismo nacional, o Partido Liberal integrou a coalizão que levou Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2002, indicando o empresário José Alencar para vice. A legenda cresceu naquele período, mas acabou atingida pelo escândalo do mensalão. Envolvido nas denúncias, Valdemar Costa Neto, hoje de volta à presidência nacional do partido, renunciou ao mandato de deputado federal, foi condenado e cumpriu pena até 2016.
Após o desgaste, a sigla abandonou temporariamente o nome PL e passou a se chamar Partido da República (PR), em uma tentativa de reconstrução. Apenas em 2019 retomou a nomenclatura original. Dois anos depois, a filiação de Jair Bolsonaro redefiniu completamente o perfil da legenda, ampliando sua musculatura eleitoral e consolidando sua associação direta ao bolsonarismo.
Disputa interna?
O nome que vai encabeçar a chapa formada por PL e Republicanos na disputa pelo Palácio Tiradentes ainda não foi oficializado, mas, nos bastidores, a avaliação é de que a definição depende da disposição de Cleitinho Azevedo em entrar na corrida. “Um pedido do Cleitinho para ser candidato não seria negado. Mas nós já temos um candidato, que é o Flávio Roscoe. O nome vai ser decidido nas próximas semanas”, confirmou ao EM o presidente estadual do PL, Zé Vitor.
A expectativa é que as negociações sejam concluídas até a primeira semana de junho, quando o anúncio oficial poderá ocorrer em um evento com a presença do senador Flávio Bolsonaro, hoje pressionado pelo desgaste provocado pelo vazamento de um áudio em que pede recursos ao empresário Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Cotado para compor a chapa como vice-governador, Flávio Roscoe chegou a afirmar, dias antes da reunião que consolidou a nova direção política do PL, que Cleitinho não teria perfil para comandar o Executivo estadual e que, caso eleito, poderia comprometer sua trajetória política a depender dos resultados de uma eventual gestão.
Cleitinho respondeu, sem citar nomes. Em discurso no Senado, ainda sem confirmar se será candidato, afirmou que setores da política tradicional estariam incomodados com a possibilidade de sua eleição. “Vai causar arrepio, quem vai tremer é o sistema. É por isso que vocês estão morrendo de medo de eu virar governador”, declarou. Segundo ele, um eventual governo seria guiado pela participação popular, e não pela “classe política”.
A aproximação do PL com Cleitinho foi bem recebida pelo quadro mineiro da legenda. Caporezzo está também entre os principais entusiastas da aliança. “Fico muito feliz pela aproximação do PL com o senador Cleitinho, porque dos nomes que estão postos ele é o mais forte como pré-candidato ao governo. Ele já aparece com 40% de intenção de voto antes mesmo da pré-campanha começar de fato”, afirmou. Caporezzo também aproveitou para criticar a tentativa anterior de aproximação com Mateus Simões, a quem chamou de “zebra caça-níquel do PSD”, dizendo que o vice-governador “não decola por nada”.
Entrevistado pela reportagem em fevereiro deste ano, o deputado já havia defendido o nome de Cleitinho, embora reconhecesse que o cenário ideal para parte do grupo seria uma candidatura do deputado federal Nikolas Ferreira, possibilidade que, na prática, nunca avançou.
Derrota para Nikolas?
Desde o início do ano, o deputado federal Nikolas Ferreira vinha atuando diretamente para aproximar o entorno de Jair Bolsonaro do agora governador de Minas. Em um encontro autorizado pela Justiça, em fevereiro, o parlamentar levou pessoalmente o nome de Simões ao ex-presidente na mesma conversa em que, segundo relatos do próprio Nikolas, recebeu aval para assumir o protagonismo das decisões eleitorais do partido no estado.
A partir dali, Nikolas e Simões passaram a dividir agendas públicas com frequência. O parlamentar bolsonarista participou de entregas de obras, anúncios de recursos e compromissos públicos ao lado do então vice-governador, até mesmo em um périplo pelo interior de Minas, em uma movimentação que, embora nunca oficialmente apresentada como uma aliança fechada, era vista nos bastidores como o embrião de uma composição eleitoral para 2026.
A aproximação, no entanto, começou a gerar desgaste dentro do próprio PL. Integrantes da ala ligada às forças de segurança passaram a demonstrar desconforto com a exposição conjunta entre Nikolas e o grupo político de Romeu Zema (Novo), sobretudo diante do desgaste acumulado pela atual gestão junto às categorias da segurança pública.
A relação entre Nikolas e Simões, no entanto, esfriou mais recentemente após uma articulação envolvendo a pauta da recomposição salarial das forças de segurança. Depois de o agora governador anunciar apoio à PEC 40/2024, no mês passado, Nikolas marcou um almoço com representantes sindicais da categoria, selou uma reunião entre Executivo e as lideranças, e depois saiu de cena.
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Em entrevista, tratou de afastar interpretações de que estaria construindo uma aliança eleitoral com Simões. “O encontro é para que isso fique com as entidades, que são as que vêm lutando. Eu simplesmente sou a ponte para conectar um com os outros. Não é pra eleger um ou reeleger o outro”, disse, à época.