Eleito governador de Minas Gerais em 2018 e reconduzido ao cargo em 2022, Romeu Zema (Novo) deixa o comando do estado neste domingo para se dedicar integralmente à pré-campanha à Presidência da República.
Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o chefe do Executivo mineiro afirma que manterá sua candidatura até o fim, mesmo diante de articulações no campo da direita que cogitam sua presença como vice em uma eventual chapa encabeçada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao rejeitar a possibilidade, Zema reforça o discurso de independência e se apresenta como um nome “de fora” da política tradicional. “Sou um candidato, de certa maneira, outsider”, destaca.
Ao avaliar sua passagem de pouco mais de sete anos à frente do governo mineiro, Zema aponta que sua principal marca foi a reorganização das finanças estaduais e a retomada da capacidade de investimento. Segundo ele, Minas deixou para trás um cenário de “desarranjo” fiscal, marcado por atrasos em repasses e pagamentos, para viver um “círculo virtuoso”, com contas reparadas e um volume expressivo de obras em andamento.
Apesar disso, o governador mineiro também reconhece as frustrações. Afirma que gostaria de ter avançado mais na recuperação de estradas e na conclusão de hospitais regionais, mas atribui entraves à burocracia e às limitações orçamentárias. “Ser governador de Minas é uma máquina de frustração”, diz, ao ponderar que, ainda assim, os avanços superam os de gestões anteriores.
Na corrida presidencial, o governador aposta na repetição da estratégia que o levou ao Palácio Tiradentes em 2018: ampliar presença no interior e aumentar sua popularidade ao longo da campanha. Mesmo com índices baixos nas pesquisas, ele afirma que pretende percorrer o país e confia no potencial de crescimento à medida que suas propostas se tornarem mais conhecidas.
O governador ainda sinaliza que o confronto político deve marcar sua campanha. Crítico recorrente do Partido dos Trabalhadores e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Zema afirma que pretende “denunciar o que está errado”, ao mesmo tempo em que buscará apresentar suas propostas.
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O que o senhor considera a sua grande realização nesses dois mandatos como governador?
A grande realização desses dois mandatos foi inverter o rumo de Minas Gerais. Minas estava vivendo um círculo vicioso e hoje vive um círculo virtuoso. O estado tinha um total desarranjo financeiro, não fazia os repasses aos municípios, não pagava fornecedores em dia, nem o funcionalismo. Hoje, as contas estão totalmente saneadas e, além disso, o que era um grande cemitério de obras abandonadas e inacabadas hoje se transformou no que talvez seja o maior canteiro de obras que já teve em Minas Gerais.
Nós estamos falando da ampliação do metrô, da linha 2, do Rodoanel Metropolitano, da duplicação da rodovia de Belo Horizonte para Ouro Preto e Mariana, da duplicação de Belo Horizonte para Brumadinho, de duas pontes sobre o Rio São Francisco. Talvez o estado nunca tenha tido tantas obras grandes estruturantes simultaneamente como está tendo agora, isso sem considerar a recuperação das estradas.
O que o senhor gostaria de ter feito ao longo desses pouco mais de sete anos de governo e não conseguiu?
Ser governador de Minas é uma máquina de frustração. Eu gostaria de ter feito cinco mil coisas, talvez tenha feito duas mil, mas, comparado com os governos anteriores, que faziam 100 ou 200, o avanço foi muito grande. Eu gostaria de ter reformado todas as estradas de Minas, gostaria que os hospitais regionais tivessem sido concluídos antes, mas, devido à burocracia, aos trâmites internos e à depredação, não foi possível.
Gostaria de ter feito mais avanços na segurança pública, na educação e na saúde também, mas as limitações orçamentárias ainda são grandes. A situação financeira do estado está longe de ser aquela que propicia grandes investimentos, mas os avanços, de toda forma, aconteceram.
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Sua candidatura à Presidência da República se mantém mesmo se houver um convite do ex-presidente Jair Bolsonaro para ser o vice de Flávio?
A minha candidatura se mantém. Eu conversei com o ex-presidente (Jair) Bolsonaro em agosto do ano passado. Ele foi o primeiro a ser informado do lançamento da minha pré-campanha e, posteriormente, da candidatura. E, como eu tenho propostas diferentes, propostas que fogem daquilo de que geralmente os políticos gostam, estarei levando a minha pré-candidatura e candidatura à frente. Sou um candidato, de certa maneira, outsider, apesar de já ter sete anos como governador, porque minha vida toda foi feita no setor privado, e tenho uma visão diferente e tenho plena ciência que o Brasil hoje precisa de ter uma visão diferente.
É um país totalmente disfuncional e muitas vezes quem foi criado, quem sempre esteve envolvido no que está acontecendo, não tem às vezes a visão necessária para fazer as mudanças que nós tanto precisamos, muitas vezes é necessário alguém de fora para dar uma boa chacoalhada. Isso ocorre muito no setor privado quando algumas empresas não estão indo bem e é necessário um outsider chegar para poder fazer uma virada.
Como crescer para chegar ao segundo turno? Hoje o senhor tem 3% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Quaest.
É bom relembrar 2018. Eu comecei o ano com 1% dos votos e nós fomos crescendo à medida que rodávamos o interior do estado. Fui a mais de 200 cidades e, a partir do dia 23 de março, eu passo a rodar também o Brasil. À medida que o brasileiro conhecer as minhas propostas, tomar conhecimento daquilo que nós fizemos em Minas, com certeza esse número terá uma melhora bem expressiva.
E, lembrando que eleição é sempre imprevisível. Mesmo em 2018, faltando ainda 10 dias para a eleição, eu estava em terceiro lugar e acabei sendo o mais votado ainda no primeiro turno. Então, muita coisa vai acontecer e nós estamos preparados.
Já tem esboçado um plano de governo para apresentar ao eleitor? O que o senhor defende como prioridade para o país?
Temos, sim. O que nós queremos é, primeiro, um país que volte a crescer e, para isso, será necessário reduzir essa gastança que provoca inflação, que provoca encarecimento do crédito e, consequentemente, menos consumo e menos investimentos. Reduzindo a gastança, o próprio governo passa a ter um alívio, já que hoje a despesa com juros está na casa de um trilhão de reais por ano. Isso é prioridade zero, além da questão da segurança pública.
Nós vamos endurecer as regras para quem não trabalha, quem não é do bem, criminoso precisa ser tratado como criminoso e não estar recebendo elogios do presidente como se fosse uma vítima. E, aqui em Minas, nós já mostramos, durante o nosso governo, não tivemos invasão de terra. Aqui o rigor é o maior possível. E, no Brasil, precisa aumentar mais ainda.
Precisamos fazer algo na linha do que foi feito em El Salvador, onde nós tivemos uma redução de homicídios de 99%. A regra lá foi bem simples: prender quem é criminoso. O Brasil pode deixar de ser o país do mundo que tem o recorde de homicídios, algo em torno de 30, 40 ou 50 mil por ano, dependendo do período.
Durante todos esses anos, o senhor tem feito muitas críticas ao PT e ao presidente Lula. Na campanha eleitoral, esse deve ser o seu foco principal?
Bom, o meu foco sempre foi mostrar as minhas propostas e também denunciar o que está errado. Eu não ficaria calado com relação ao escândalo do INSS, descontando dos velhinhos o que foi feito, tudo ligado a pessoas da esquerda, do PT. Ficar calado será que seria o correto? Ficar calado com relação a ministros do Supremo Tribunal Federal estarem prestando serviços, se beneficiando do cargo que exercem? Será que ficar calado também vai fazer o Brasil melhorar?
Estarei falando aquilo que precisa mudar sempre, doa a quem doer. E é lógico, mostrando as propostas. Nós queremos um país com taxa de juros civilizada. Isso vai fazer com que quem paga uma prestação da casa própria, do carro, do celular, tenha uma prestação muito menor. Esse governo que fala que dá o Bolsa Família tira muito mais de outro lado na hora em que as pessoas fazem um financiamento. E, além disso, vamos estar levando as nossas propostas de segurança pública, com endurecimento das regras que existem hoje.
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Quem comete crime grave precisa ficar preso e, dependendo do crime, é prisão perpétua. Tem pessoas que são incorrigíveis. Não adianta ficarem dez, quinze, vinte ou trinta anos presas, porque vão sair e cometer novamente um problema. Os sociopatas, os psicopatas, essas pessoas são incorrigíveis. Isso já está mais do que provado. E, aqui no Brasil, nós continuamos acreditando na fada madrinha.
