Desde que lançou a pré-candidatura à Presidência da República, em agosto de 2025, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), vem gradualmente reformulando o discurso político que marcou sua trajetória à frente do governo mineiro.
Conhecido nacionalmente por se apresentar como gestor liberal e empresário avesso à política tradicional, o governador passou a adotar uma narrativa mais combativa, marcada por críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT), questionamentos à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e ataques ao que define como “sistema político de Brasília”.
A mudança ocorre no momento em que Zema tenta transformar a visibilidade conquistada em Minas em capital político nacional. O governador deixa o Executivo no domingo (22/3). Ao longo de quase sete anos à frente do governo estadual, ele construiu uma imagem associada à gestão administrativa, à defesa de políticas econômicas liberais e à redução do tamanho do Estado. No cenário presidencial, no entanto, a estratégia passou a incluir um repertório mais diretamente político, com críticas a adversários e confrontos institucionais.
No lançamento da pré-candidatura, realizado em um evento do partido Novo em São Paulo, Zema já indicava o caminho que pretendia seguir na disputa eleitoral. “Vamos chegar a Brasília para varrer o PT do mapa e acabar com abusos que hoje prejudicam o Brasil”, afirmou na ocasião.
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Desde então, as críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (STF) tornaram-se frequentes em entrevistas, discursos e publicações nas redes sociais. Em diferentes ocasiões, o governador associou a gestão federal ao aumento da carga tributária, à expansão da máquina pública e à adoção de políticas econômicas que, em sua avaliação, dificultariam o crescimento do país.
Em uma dessas declarações, Zema afirmou que “o futuro do Brasil passa por tirar de Brasília um governo irresponsável”, frase que passou a ser repetida em eventos políticos e agendas públicas desde o início deste ano.
A estratégia retoma um dos elementos centrais da política brasileira nas últimas eleições: o antipetismo. Ao posicionar o PT como principal adversário político, o governador tenta dialogar com um eleitorado conservador que se consolidou como força relevante nas disputas nacionais desde 2018.
Supremo no centro das críticas
Nos últimos meses, no entanto, outro alvo ocupou espaço central na comunicação do governador: o Supremo Tribunal Federal. Em entrevistas recentes, Zema passou a criticar de forma recorrente decisões e posturas de ministros da Corte, argumentando que o tribunal teria extrapolado suas funções constitucionais. “O Supremo hoje está perdido”, afirmou. Em outra ocasião, disse que o país enfrenta “uma situação em que ministros se sentem acima da lei”.
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As críticas foram direcionadas especialmente ao ministro Alexandre de Moraes. Na segunda-feira (9/3), o governador foi à Brasília para apresentar ao Senado um pedido de impeachment contra o magistrado.“O Brasil precisa voltar a ter equilíbrio entre os Poderes. Hoje vemos abusos que precisam ser enfrentados”, declarou.
A iniciativa ocorre em um contexto de tensão política envolvendo decisões do Supremo relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro e a investigações conduzidas pela Corte nos últimos anos. Ao adotar esse discurso, Zema se aproxima de pautas mobilizadas por setores do bolsonarismo, que passaram a criticar de forma sistemática a atuação do Judiciário.
Retórica anti-sistema
Paralelamente às críticas ao PT e ao Supremo, o governador também passou a direcionar ataques ao que chama de sistema político de Brasília. Em discursos e entrevistas, Zema afirma que a capital federal concentra privilégios e estruturas de poder que dificultariam mudanças no país. “Precisamos acabar com a farra dos intocáveis em Brasília”, afirmou durante evento político recente.
A retórica dialoga diretamente com a imagem de outsider que marcou sua trajetória política desde a primeira eleição ao governo de Minas, em 2018. Empresário do setor varejista antes de entrar na política, Zema frequentemente afirma não ser um político profissional e costuma apresentar sua trajetória empresarial como contraste em relação à classe política tradicional. “Eu não sou político profissional. Sou gestor e vim da iniciativa privada”, declarou em mais de uma ocasião ao comentar a pré-candidatura presidencial.
A vitrine da gestão mineira
Apesar do endurecimento do discurso político, a gestão mineira continua sendo apresentada como a principal credencial eleitoral da campanha. Em eventos públicos, o governador cita o ajuste fiscal realizado no estado, a atração de investimentos e a redução de burocracias como exemplos do modelo que pretende aplicar no país. Dados do governo mineiro indicam que, desde 2019, o estado anunciou mais de R$ 400 bilhões em investimentos privados e ampliou o número de empresas instaladas em diferentes regiões. O discurso da campanha associa esses resultados a uma política de redução de entraves regulatórios e estímulo ao ambiente de negócios.
“O Brasil precisa de gestão e eficiência. Foi isso que fizemos em Minas e é isso que precisamos fazer no país”, afirmou o governador.
Leitura de especialistas
Para o cientista político Túlio Pereira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a mudança no discurso do governador está diretamente ligada à tentativa de se posicionar em um campo político já ocupado por outras lideranças da direita. “O Zema construiu sua carreira política em Minas com uma narrativa liberal e tecnocrática, centrada na gestão administrativa. Quando ele entra em uma disputa presidencial, precisa disputar espaço em um campo político muito mais polarizado”, afirma.
Segundo Pereira, o confronto com o PT e as críticas ao Supremo funcionam como instrumentos para ampliar a visibilidade. “A polarização continua sendo um elemento estruturante da política brasileira. Ao atacar o PT e o STF, ele se insere no debate nacional e dialoga com um eleitorado que já está mobilizado em torno dessas pautas.”
Contradições
A estratégia, no entanto, também expõe algumas tensões na narrativa da pré-campanha. Uma delas diz respeito à tentativa de manter a imagem de outsider político. Embora frequentemente afirme não ser um político profissional, Zema está no segundo mandato como governador e se consolidou como uma das principais lideranças políticas de Minas Gerais.
Outra contradição aparece na combinação entre discurso liberal e retórica populista. Enquanto defende redução do tamanho do Estado e eficiência administrativa, o governador também adota uma linguagem de confronto institucional e críticas generalizadas à classe política.
Há ainda a ambiguidade em relação ao bolsonarismo. Zema evita se apresentar como herdeiro direto do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas adota pautas e críticas que dialogam diretamente com o eleitorado conservador mobilizado nos últimos anos. Ele inclusive, chegou a participar no ínicio do mês da manifestação organizada pelo grupo do ex-presidente contra o STF.
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Para Pereira, essa estratégia busca ampliar o alcance eleitoral da candidatura. “O Zema tenta ocupar um espaço intermediário dentro da direita brasileira. Ele quer dialogar com empresários e eleitores liberais, mas também precisa disputar a base conservadora que se consolidou em torno do bolsonarismo.”
