Polarização deve dominar eleição de 2026 e reduzir espaço para 3ª via
De um lado, o presidente Lula galvaniza a esquerda e, novamente, é considerado o candidato mais competitivo do campo progressista. Do outro, a direita se divide em nomes. E, de novo, não se vislumbra ninguém que se apresente como 3ª via
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Com a chegada de mais um ano eleitoral, o cenário político se redesenha sob o signo da polarização. A disputa entre forças de esquerda e direita deve continuar a dominar o debate público, mesmo com a possível renovação de nomes, reduzindo o espaço para o surgimento de uma terceira via capaz de se firmar como alternativa competitiva.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na polarização para 2026. Ele comentou o tema na última reunião ministerial do ano, em 17 de dezembro, na Granja do Torto. Aos ministros — muitos dos quais deixarão o governo para disputar cargos —, ordenou que melhorem a divulgação dos feitos do governo e culpou a divisão política pela dificuldade em transformar resultados positivos em avaliação favorável da gestão.
"(O resultado) não aparece porque existe uma polarização no país. É como se fosse Corinthians e Palmeiras, Ceará e Fortaleza, Grêmio e Internacional, Atlético Mineiro e Cruzeiro, Flamengo e Vasco", afirmou Lula.
Em outra fala recente, Lula disse que a disputa eleitoral sempre foi marcada pela polarização, mas defendeu que o embate político não seja baseado no ódio. "O problema é você polarizar politicamente sem estimular o ódio", afirmou, ao citar alianças do passado, como a com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ex-adversário político.
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Indicação
No Planalto, auxiliares do presidente avaliam que o adversário da direita dependerá diretamente dos votos do ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo que tente adotar um discurso mais moderado. A possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ser o candidato chegou a ser vista com alívio por integrantes do governo, embora parte da equipe trate-o como um "candidato-tampão".
Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é visto como o nome mais competitivo da direita e aquele que mais preocupa o governo. Chegou a ganhar força no mercado financeiro, no movimento apelidado de "trade Tarcísio", embora pesquisas recentes tenham mostrado Flávio Bolsonaro com desempenho semelhante.
Diferentemente de Lula e Flávio, Tarcísio tem criticado publicamente o "fla-flu" político-eleitoral. Em evento ao lado do presidente, afirmou que o país vive uma "polarização afetiva", na qual pessoas se hostilizam apenas por pensar diferente, defendendo a necessidade de "mudar essa chave".
Também aparecem como possíveis candidatos os governadores Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Júnior (PR) e Romeu Zema (MG), todos de direita e com histórico de proximidade com Bolsonaro, mas com menor competitividade nas pesquisas.
Para enfrentar Lula, a direita aposta, principalmente, no tema da segurança pública, considerado um ponto fraco do governo após episódios de violência, como a megaoperação no Rio de Janeiro. O Planalto, por sua vez, aposta nos indicadores econômicos positivos e em medidas de apelo popular, como o programa Pé-de-Meia e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além de explorar politicamente a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e as ações internacionais atribuídas a aliados de Bolsonaro.
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Roteiro prévio
A disputa presidencial de 2026 deve repetir o roteiro de forte polarização que marcou as últimas eleições no Brasil, com Lula galvanizando o campo da esquerda e Bolsonaro permanecendo como principal referência da direita. A avaliação é do professor Fernando Neisser, de direito eleitoral da FGV São Paulo, que vê pouco espaço para o surgimento de uma terceira via competitiva no próximo pleito.
Segundo Neisser, a dinâmica política atual indica a manutenção desse embate direto entre dois polos bem definidos. "Eu acredito que nós seguiremos tendo uma disputa polarizada entre um campo de direita, que vai ter a figura do Bolsonaro ainda como norte, e a esquerda com a figura do Lula, claro, como o próprio candidato à reeleição. Não consigo enxergar espaço para o surgimento de uma terceira via", afirma. Para ele, a dificuldade de romper essa lógica ficou evidente em disputas recentes, como a eleição ao governo de São Paulo, em que nem mesmo o uso da máquina estadual foi suficiente para alterar o cenário.
"O exemplo que nós tivemos em São Paulo, nas eleições ao governo com a campanha do Rodrigo Garcia, que, ainda assim, não conseguiu quebrar a polarização, é um sinal desse movimento", avaliou.
No campo da direita, o professor reconhece que ainda há um quadro de fragmentação, mas avalia que esse cenário tende a se acomodar ao longo de 2026. "Ainda assim, é preciso que a direita organize as suas candidaturas. Não acredito que ela vai sair tão fragmentada quanto está neste momento. Acho que isso faz parte, ainda, desse jogo de acomodação", diz. Para Neisser, esse processo é comum no início do calendário eleitoral e deve ganhar contornos mais definidos com a aproximação das convenções partidárias.
Do lado do governo, o cenário é considerado favorável a Lula, especialmente por conta dos índices de popularidade. Neisser observa que, em democracias com eleições periódicas, é natural que governos concentrem entregas mais visíveis nos últimos anos de mandato. "É natural dentro de uma democracia que tem eleições a cada quatro anos, que as entregas principais dos governos sejam planejadas para serem feitas nos últimos anos, para que isso seja percebido pela população como aquilo que o governo conseguiu oferecer nos seus quatro anos", explicou.
O professor também descarta a possibilidade de repetição de práticas que marcaram o fim do governo Bolsonaro, e que renderam sanções na Justiça Eleitoral. "Não acredito que o governo Lula vá incorrer em falhas e abusos como aqueles que nós vimos no final do governo Bolsonaro", afirma, citando a liberação bilionária de recursos e o uso irregular da máquina pública.
Segundo ele, a reação institucional observada na última eleição deixou lições claras. "Nós tivemos uma fiscalização forte do TCU (Tribunal de Contas da União), uma resposta dura da Justiça Eleitoral e uma condenação de um presidente, então candidato à reeleição, exatamente por abuso de poder", lembrou.
Inteligência artificial
Para Neisser, isso não impede que o governo apresente seus resultados ao eleitorado, desde que dentro das regras. "O que não significa que seja normal o governo mostrar as suas conquistas e deixar a população decidir", pontuou.
Apesar da previsibilidade do embate político, o maior desafio para o próximo ano eleitoral, na avaliação do professor, está fora do campo tradicional da disputa entre candidatos. "O maior desafio que nós temos para o ano que vem ainda diz respeito às redes sociais", afirmou.
Neisser destacou que o avanço da inteligência artificial (IA) torna a desinformação mais sofisticada e difícil de detectar, ao mesmo tempo em que o Tribunal Superior Eleitoral tende a adotar uma postura menos interventiva do que em 2022. "A inteligência artificial está ainda mais forte, mais profissional e com mais qualidade num ambiente em que o TSE não está em uma atuação tão firme nesse controle da desinformação", alertou.
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Na avaliação de Neisser, a combinação entre polarização política e redes sociais continua sendo um fator central do processo eleitoral brasileiro. "A gente sabe que muito do que sustenta a polarização", adverte.