Com mais de 16 milhões de eleitores, Minas Gerais volta a ocupar o centro da estratégia eleitoral para 2026. As pesquisas mais recentes indicam uma disputa apertada pelo Palácio do Planalto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), cenário que aumenta a importância de um palanque forte no segundo maior colégio eleitoral do país.
Levantamento da AtlasIntel mostra Lula liderando o primeiro turno com cerca de 49% das intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Já nas simulações de segundo turno, a diferença diminui para 49% a 45%. Em outra sondagem recente, da Paraná Pesquisas, o cenário é ainda mais apertado: Flávio aparece com 44,4% e Lula com 43,8%, dentro da margem de erro.
A proximidade dos números levou as duas campanhas a intensificar as articulações em Minas. O problema é que, até agora, nenhum dos dois campos políticos conseguiu consolidar um palanque claro para a disputa estadual, a menos de um mês do fechamento da janela partidária, em 3 de abril, ou seja, o prazo para troca de partidos.
Entre os aliados do presidente, o nome considerado prioritário para liderar o palanque em Minas é o do senador Rodrigo Pacheco (PSD). O presidente do Senado é visto por interlocutores do governo como um candidato capaz de reunir partidos de centro e esquerda e ampliar a base de apoio do presidente no estado.
A eventual candidatura, no entanto, depende de uma complexa engenharia partidária. Pacheco não poderá disputar pelo PSD, legenda que já trabalha a pré-candidatura do vice-governador Mateus Simões para suceder o governador Romeu Zema (Novo) no Palácio Tiradentes.
Nos bastidores, aliados afirmam que Lula tem buscado convencer o senador a entrar na disputa estadual. A estratégia seria construir um palanque competitivo em um estado considerado decisivo para o resultado nacional. Para viabilizar essa candidatura, uma eventual mudança partidária passou a ser discutida. Entre as siglas avaliadas estão MDB e União Brasil. As duas legendas, porém, abrigam alas importantes que fazem oposição ao governo federal, o que torna a negociação delicada.
MDB
Na última semana, Pacheco recebeu lideranças do MDB mineiro em sua residência, em Brasília. Participaram do encontro o presidente estadual da legenda, deputado federal Newton Cardoso Júnior, o ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte Gabriel Azevedo e o deputado federal Luiz Fernando Faria (PSD).
Apesar da conversa, o MDB deixou de ser alternativa imediata. O partido lançou ainda em 2025 a pré-candidatura de Gabriel Azevedo ao governo de Minas, o que dificulta a entrada de Pacheco sem provocar disputa interna pela cabeça de chapa.
- Sem definição de Pacheco, partidos de centro articulam nova frente
- Em almoço, Pacheco descarta filiação ao MDB
Segundo interlocutores do senador, a candidatura ao governo mineiro segue colocada, mas a definição partidária permanece em aberto. Nos bastidores, o União Brasil aparece como destino provável durante a janela de filiação, embora aliados ressaltem que o cenário ainda pode mudar caso ocorram desistências ou rearranjos entre as siglas.
Entre os aliados do presidente, o nome considerado prioritário para liderar o palanque em Minas é o do senador Rodrigo Pacheco (PSD)
A pressão sobre o Planalto aumentou porque o plano alternativo do PT perdeu força. A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, chegou a ser considerada opção para a disputa estadual, mas enfrenta dificuldades políticas para deixar o cargo antes do fim do mandato em uma cidade que ainda enfrenta os efeitos de fortes chuvas recentes.
Outros nomes também chegaram a ser mencionados em discussões internas, como o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PV) e a reitora da UFMG Sandra Goulart Almeida, mas nenhuma dessas possibilidades avançou de forma concreta até o momento. A preocupação entre aliados do governo é evitar que Lula chegue à eleição sem um palanque estruturado em Minas, situação que poderia reduzir a capacidade de mobilização eleitoral no estado.
Leia Mais
Fragmentação
Se no campo governista o desafio é encontrar um nome competitivo, no grupo político de Flávio Bolsonaro o problema é a multiplicidade de pré-candidaturas. O principal projeto da continuidade do governo mineiro é o do vice-governador Mateus Simões, escolhido por Romeu Zema para sucedê-lo no cargo.
A dificuldade é que o próprio governador também aparece como possível candidato à Presidência da República, o que impediria um apoio formal do governo estadual à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Uma das estratégias discutidas dentro do PL é convencer Zema a desistir da disputa presidencial para permitir a construção de uma chapa unificada da direita em Minas. Até agora, porém, o governador tem resistido à ideia de abandonar o projeto nacional.
Outra alternativa é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que aparece bem posicionado em pesquisas estaduais e mantém interlocução com setores do bolsonarismo. O Republicanos já indicou que pretende lançar o parlamentar como candidato ao governo.
Dentro do próprio PL também há discussão sobre a possibilidade de candidatura própria para garantir um palanque seguro ao projeto presidencial. Entre os nomes citados internamente está o do presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Flávio Roscoe.
Cleitinho Azevedo (Republicanos), que aparece bem posicionado em pesquisas estaduais e mantém interlocução com setores do bolsonarismo
Diálogo
O presidente do PL em Minas, deputado federal Domingos Sávio, afirmou que a legenda mantém diálogo com partidos de direita e centro-direita para tentar construir uma aliança estadual. Segundo ele, a definição sobre o palanque mineiro passará pelo aval das principais lideranças do bolsonarismo no estado.
“Teremos candidato ao Senado do PL em Minas e poderemos compor para o governo do estado, garantindo apoio a Flávio Bolsonaro, mas também poderemos ter candidatura própria. O PL de Minas vai apoiar aquele que tiver o apoio de Nikolas e Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Outro fator que influencia as articulações é o peso político do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), considerado uma das principais lideranças da direita no estado. O parlamentar tem participado de agendas políticas ao lado de Mateus Simões e ampliado sua presença em articulações regionais, movimento interpretado como tentativa de diálogo entre os grupos.
A cautela entre bolsonaristas também é influenciada por experiências recentes. Em 2022, Romeu Zema declarou apoio ao então presidente Jair Bolsonaro apenas no segundo turno. No primeiro, manteve postura mais distante do bolsonarismo.
Na avaliação de aliados do ex-presidente, essa estratégia dificultou a consolidação antecipada de um palanque no estado. Naquela eleição, Bolsonaro acabou derrotado por Lula em Minas, resultado que segue sendo considerado nas decisões estratégicas da direita mineira.
O posicionamento de Romeu Zema pode ser decisivo para o desenho final da disputa. Embora mantenha o discurso de pré-candidatura presidencial, analistas políticos avaliam que o governador pode acabar disputando uma das duas vagas ao Senado em 2026.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Caso esse movimento se confirme, o cenário político mineiro poderá ser redesenhado, abrindo espaço para novas composições entre PL, PSD e Republicanos ou intensificando a disputa entre diferentes projetos da direita.
