Detergentes da Ypê foram recolhidos em 2024 após mau cheiro
Marca enfrentou recalls em 2024 e 2025 antes da recente medida cautelar da Anvisa. Fabricante diz ter corrigido problemas e nega risco à saúde nos episódios
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dois anos antes da suspensão cautelar determinada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) neste ano, a Ypê já havia enfrentado um amplo recolhimento de detergentes por suspeita de contaminação microbiológica.
A agência sanitária publicou, em maio de 2024, uma resolução que suspendia a comercialização, distribuição e uso de dezenas de lotes de toda a linha de detergentes da marca após a própria fabricante, a Química Amparo, comunicar desvios identificados durante o monitoramento interno da produção.
O problema chegou primeiro aos consumidores pelo cheiro. Em sites de reclamação, clientes relatavam que os detergentes passavam a apresentar odor forte poucos dias após serem abertos, descrito como cheiro de podre ou de querosene.
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Na plataforma de queixas Reclame Aqui, em março daquele ano, uma consumidora de Catalão (GO) afirmou ter comprado cinco unidades do detergente neutro e percebido um mau cheiro na pia.
Ela chegou a trocar a bucha de lavar louça várias vezes antes de descobrir que o odor vinha do próprio produto. A cliente também disse notar que o detergente tinha coloração mais clara que outras embalagens da marca.
Já uma consumidora de Maracanaú (CE) relatou que o cheiro forte aparecia depois de alguns dias de uso e piorava com o tempo. Segundo ela, o problema já havia ocorrido em diferentes unidades compradas no supermercado.
Na época, a companhia afirmou que os lotes já haviam sido rastreados pelo controle de qualidade e que o plano de recolhimento tinha sido apresentado previamente à agência reguladora.
De acordo com a fabricante, a investigação interna apontou possibilidade de descaracterização do odor tradicional dos detergentes, perceptível ao olfato em alguns casos, mas sem risco à saúde ou à segurança dos consumidores.
A Anvisa diz que os produtos apresentavam resultados fora do padrão em parâmetros de controle de produção, o que levantou potencial risco de contaminação microbiológica. Os lotes afetados haviam sido fabricados principalmente entre julho e dezembro de 2022.
Já em novembro de 2025, a Química Amparo passou novamente por um recolhimento após um episódio de contaminação microbiológica em seus produtos. A empresa reconheceu a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em lotes de lava-roupas líquidos Ypê e Tixan Ypê e anunciou, de forma voluntária, o recolhimento preventivo de 14 lotes específicos.
A bactéria é encontrada naturalmente no ambiente - no ar, na água e no solo - e também pode estar presente na pele de pessoas saudáveis. No entanto, em indivíduos com o sistema imunológico comprometido, ela pode provocar ou agravar infecções. A proliferação costuma ocorrer em ambientes úmidos, como lavatórios, piscinas com cloração inadequada e equipamentos mal higienizados.
Depois da detecção da bactéria, a empresa afirma ter iniciado um plano de adequação em conjunto com a Anvisa. Segundo um executivo da Ypê que conversou com a Folha na fábrica de Amparo (SP), foram implementadas mudanças no sistema de tratamento de água, incluindo quarentena de produtos líquidos e estudos para incorporar ozônio como etapa complementar de desinfecção.
Apesar das mudanças, uma nova inspeção realizada pela Anvisa em abril identificou descumprimentos das regras de boas práticas de fabricação para produtos saneantes. De acordo com a agência, houve reincidência de problemas relacionados a organização industrial e manutenção de equipamentos.
Foi após essa segunda fiscalização que a Anvisa determinou, na quinta-feira (7/5), a paralisação da fabricação e da comercialização de lotes afetados das categorias líquidas da empresa - detergentes, sabões para lavar roupas e desinfetantes.
A medida acabou suspensa temporariamente no dia seguinte, após recurso administrativo apresentado pela Química Amparo, embora a agência mantenha a recomendação para que consumidores evitem o uso dos produtos.
A decisão definitiva sobre a manutenção ou não desse efeito suspensivo seria analisada pela diretoria da Anvisa nessa quarta-feira (13/), mas a reunião foi adiada para sexta-feira (15/5).
Leandro Safatle, presidente da Anvisa, disse nesta quarta que a inspeção conjunta da agência e de órgãos do governo de São Paulo e do município de Amparo feita em abril encontrou falhas graves na fábrica da Ypê sobre "qualidade microbiológica, com identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de cem lotes de produtos acabados", além de "deficiências no controle de materiais de embalagem".
Foi a primeira vez que a Anvisa confirmou a identificação da bactéria em lotes de produtos da marca desde que a crise mais recente estourou. Até então, o órgão citava "risco sanitário", sem especificar.
Que produtos foram suspensos?
A agência havia determinado a suspensão da comercialização, distribuição e uso de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes da marca com lotes terminados em número 1, após identificar "descumprimentos relevantes" em etapas do processo de fabricação e risco de contaminação microbiológica.
De acordo com a Anvisa, somente os lotes que terminam com o número 1, dos produtos abaixo estão afetados:
- Lava-louças Ypê Clear Care;
- Lava-louças com enzimas ativas Ypê;
- Lava-louças Ypê;
- Lava-louças Ypê Toque Suave;
- Lava-louças Concentrado Ypê Green;
- Lava-louças Ypê Clear;
- Lava-louças Ypê Green;
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor;
- Lava-roupas líquido;
- Tixan Ypê Cuida das Roupas;
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac;
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha;
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green;
- Lava-roupas líquido Ypê Express;
- Lava-roupas líquido Ypê Power Act;
- Lava-roupas líquido Ypê Premium;
- Lava-roupas Tixan Maciez;
- Lava-roupas Tixan Primavera;
- Desinfetante Bak Ypê;
- Desinfetante de uso geral Atol;
- Desinfetante perfumado Atol;
- Desinfetante Pinho Ypê;
- Lava-roupas Tixan Power Act.
O que os consumidores que têm em casa devem fazer?
A orientação recomendada é os clientes que sigam as instruções divulgadas pelo fabricante, suspendam o uso dos produtos potencialmente afetados e utilizem os canais oficiais para solicitar troca, reembolso ou esclarecimentos.
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