Ypê diz que mudou tratamento da água após primeira fiscalização da Anvisa
Fiscalização da Anvisa em novembro de 2025 encontrou contaminação bacteriana em lotes da empresa
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AMPARO, PB (FOLHAPRESS) - A Química Amparo, dona da Ypê, afirma ter mudado o sistema de tratamento de água, principal ingrediente usado na fabricação de seus produtos líquidos, após uma fiscalização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), em novembro de 2025, ter encontrado contaminação bacteriana em lotes da empresa.
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"Desde dezembro passamos a implantar um plano de ação em acordo com as determinações da Anvisa e não é para nenhum produto estar contaminado", disse Eduardo Beira, diretor de operações da Química Amparo, durante visita à fábrica da empresa em Amparo (a 130 km de São Paulo).
Entre esses novos controles, estão a quarentena de sabão líquido (para monitorar eventual crescimento de bactérias nos produtos) e a adoção de osmose reversa (sistema de purificação de água que utiliza pressão para remover até 99% de contaminantes).
A empresa deve testar ainda a adoção de ozônio como etapa complementar de desinfecção. Tudo isso depois da contratação da Ecolab, uma consultoria global especializada em soluções e serviços de água, higiene e prevenção de infecções.
A bactéria encontrada em novembro é favorecida por ambientes úmidos e pode causar diferentes tipos de infecção, desde irritações leves de ouvido até pneumonia, especialmente em idosos, pessoas com câncer ou pacientes hospitalizados.
Em uma nova visita este mês, a Anvisa identificou que a Química Amparo não seguia todas as normas da RDC 47, que contempla o Regulamento Técnico de Boas Práticas de Fabricação (BPF) para produtos saneantes. Na RDC, estão requisitos mínimos de qualidade, segurança e eficácia na fabricação, desde matérias-primas até o produto final.
Por conta da reincidência, o órgão determinou a paralisação da produção e da comercialização das categorias líquidas: detergente, sabão para lavar roupas e desinfetante, na quinta-feira (7).
A Química Amparo obteve a suspensão da proibição na sexta-feira (8) por meio de um recurso administrativo, defendendo que os produtos não estavam contaminados. No entanto, a Anvisa manteve a recomendação contrária ao uso dos produtos. Nesta quarta (13), a agência decidirá se o efeito suspensivo, aplicado automaticamente, continuará valendo ou não.
"Não temos nenhuma comprovação de contaminação. O que tivemos foram alguns lotes em dezembro do ano passado que fizemos a recolha, eles estavam contaminados com a bactéria", diz Beira. "A partir dali, nós fizemos um plano muito robusto com a Anvisa para adequação às normas", afirma.
Entre os problemas apontados pela Anvisa na segunda visita, estão controles superficiais, disse o executivo.
"Áreas que estavam com o piso desgastado, com algumas sujidades, com algum produto que caiu no chão. Também tem a limpeza externa dos tanques. O que a gente precisava melhorar foi a questão de organização: não deixar o contêiner no lugar específico, colocar em algum lugar com demarcação etc.", disse.
"Realizamos pinturas, trocamos algumas peças de sensores de dosagem que estavam com alguns aspectos de oxidação. Atuamos de maneira muito rápida, aproveitando inclusive que as fábricas estão paradas desde quinta-feira para realizar a manutenção, limpeza, adiantar inspeções de rotina".
Nas linhas que estão paralisadas, trabalham cerca de 400 dos 3.500 funcionários de Amparo.
A fábrica da Química Amparo, com mais de 140 mil m², está estrategicamente situada ao lado do rio Camanducaia.
É do complexo industrial que sai cerca de um terço da produção da empresa, vice-líder do mercado de limpeza doméstica, dona das marcas Ypê e Tixan.
Para a fabricação de produtos líquidos -detergente, lava-roupas e desinfetante-, a Química Amparo utiliza três fontes de água: do rio Camanducaia, de onde vem metade da água usada na produção, captação de água de chuva e poços artesianos.
A empresa tem outras seis fábricas em quatro estados do país. Os produtos da sede, todos com final 1, abastecem os mercados do Sudeste e Sul. Segundo a Química Amparo, na unidade, não há fabricação de produtos para varejistas com a marca delas.
Beira é evasivo a respeito do que pode ter causado a contaminação na água em novembro. "A microbiologia não é uma ciência exata", diz o engenheiro químico de 31 anos, neto do fundador, Waldir Beira, já falecido.
"Uma série de fatores pode ter provocado a contaminação. Mas nossos processos visam, justamente, identificar rápido e tratar, para que o produto não chegue ao consumidor final", diz. O período de quarentena do sabão líquido, por exemplo, é um deles: o produto só sai da fábrica agora após um laudo atestar que não existe contaminação.
Já a tecnologia adotada após a parceria com a Ecolab é o tratamento da água em diversas etapas do processo. "Para que a gente garanta que a nossa principal matéria-prima, que é a água, seja muito boa no quesito físico-químico e no quesito microbiológico", diz. "A falha [de 2025] pode não ter sido uma coisa específica, às vezes é uma série de coisas", afirma.
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Na Química Amparo, a água do Camanducaia passa pela ultrafiltração, depois de ter passado por cloração, por decantação, para tirar todo o composto orgânico. "Vamos colocar agora o equipamento de osmose reversa, que ajuda na filtração de partículas orgânicas e controle da microbiologia", afirma.