A rotina das pessoas que dependem do uso diário de insulina para manter a saúde sob controle em Minas Gerais foi atingida por um gargalo logístico e de mercado. Ao longo de 2026, a distribuição de seringas específicas para o tratamento de diabetes na rede pública de saúde enfrentou episódios de desabastecimento em diferentes regiões do estado e do país, expondo a fragilidade de uma cadeia de suprimentos essencial para a saúde pública. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), a pasta avalia outras marcas disponíveis, diante da indisponibilidade da fabricante Venper, uma das principais fornecedoras do insumo para o setor público.
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A crise de abastecimento está associada, principalmente, a problemas com a Venper, cuja paralisação ou atraso nas entregas gerou um efeito cascata em postos de saúde de diversos estados. Em Minas, a dimensão exata do desabastecimento não foi divulgada pela SES, mas a falta das seringas já atingiu a ponta do sistema em pelo menos três municípios de diferentes regiões: Timóteo, no Vale do Aço; Três Corações, no Sul de Minas; e Carmo do Cajuru, no Centro-Oeste. Por meio de nota, as prefeituras de Timóteo e de Carmo do Cajuru informaram que a situação já foi normalizada, enquanto a Prefeitura de Três Corações não retornou até a publicação da matéria.
Embora a SES não disponibilize um balanço de quais ou quantos municípios enfrentam ou enfrentaram a escassez do dispositivo ao longo deste ano, pacientes que foram às Unidades Básicas de Saúde (UBS) com a receita médica em mãos nos municípios citados voltaram para casa de braços vazios ao longo do ano. Outra opção foi recorrer à compra do insumo na rede privada com recursos próprios.
Por trás do desabastecimento que afeta a ponta do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado, os fatores envolvidos vão desde o mercado farmacêutico até a dinâmica de compras públicas. O Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais (Cosems-MG), entidade que acompanha de perto a situação das gestões locais, associa a escassez das seringas a dois gargalos principais: o esgotamento produtivo das indústrias e entraves burocráticos nos processos licitatórios com os fabricantes cadastrados.
De acordo com relatos compilados pelo Cosems-MG junto a fornecedores e representantes da indústria farmacêutica, o estoque de seringas originalmente destinadas à aplicação de insulina sofreu um severo desvio de finalidade tanto no canal público quanto no privado. A alta na procura e o uso irregular do insumo para a aplicação de medicamentos emagrecedores, como soluções manipuladas ou fracionadas, drenaram o mercado e aceleraram o esgotamento dos estoques que deveriam atender exclusivamente aos portadores de diabetes. A reportagem procurou a Venper e não obteve retorno sobre o assunto.
Nós licitatórios
O fenômeno de consumo atípico somou-se a complicações nas atas de registro de preços e licitações estaduais e municipais. Segundo o Cosems, o desabastecimento do item também ocorre devido ao descumprimento contratual e diversos atrasos das empresas detentoras de atas de registro de preço, o que resulta em “cancelamentos de empenhos e sucessivos pedidos de prorrogação de prazos não cumpridos”.
Quando os fabricantes tradicionais, como a Venper, deixam de entregar os lotes acordados nos contratos públicos, as prefeituras encontram dificuldade burocrática para realizar compras de emergência no mercado privado, onde os preços costumam ser significativamente mais altos e o estoque, restrito.
“Essa situação também é relatada pela SES-MG onde ela disponibiliza atas de registro de preços e o município tem a autonomia de aderir ou não, porque pode fazer por aquisição própria, mas, o fornecedor que ganhou essa ata para a distribuição dessas seringas não entrega dizendo por falta de matéria-prima para distribuição das mesmas aos municípios. Fica claro que há fracasso nos certames licitatórios”, destacou o Cosems, em nota.
O conselho vê o cenário de maneira “preocupante” e agora pede ao Ministério da Saúde a intervenção e articulação com a cadeia produtiva. O objetivo é que a pasta federal mede a situação entre os fabricantes e distribuidores de correlatos para mapear a capacidade produtiva e conter a alta excessiva de preços no mercado nacional.
Além disso, segundo o Cosems, é necessário que haja alinhamento técnico sobre preços de referência, isto é, emissão de diretrizes ou nota técnica que oriente o regulamento das estimativas de custo nos processos licitatórios estaduais, municipais e consorciados. A medida busca evitar a abertura de novos pregões em condições desfavoráveis.
Outra solicitação é a avaliação da possibilidade de compras centralizadas ou suplementares pelo Ministério da Saúde. A proposta prevê estudar a viabilidade de uma aquisição centralizada ou de um apoio logístico emergencial para atender entes federativos que estejam em situação crítica de estoque.
Por fim, o Cosems solicita a aceleração e a compatibilização da distribuição dos dispositivos de aplicação. A ideia é adequar o cronograma de entrega das canetas aplicadoras de insulinas análogas à demanda real de cada território, reduzindo a pressão sobre a oferta de seringas convencionais.
Associação rebate desabastecimento
Por outro lado, a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo) apresenta uma leitura diferente sobre a escala do problema. Procurada pela reportagem, a entidade que representa o setor afirmou que o desabastecimento não se trata de uma crise sistêmica de capacidade produtiva das indústrias instaladas no país, mas sim de um episódio pontual diretamente atrelado às operações de um fabricante específico – a Venper.
O diretor institucional da Abimo, Márcio Bósio, ressaltou que até o momento não recebeu notificações ou relatos formais por parte dos secretários municipais de saúde indicando falta generalizada de seringas em Minas Gerais ou em outras unidades do país, sustentando que a capacidade fabril nacional das demais empresas do segmento permanece estável. Uma das hipóteses, segundo ele, é a mudança do padrão de fabricação mediante a mudança de mercado.
“A empresa produziu menos (seringas). A caneta emagrecedora tem uma coisa de liberação rápida, então para 90% das pessoas, ou mais, ela é mais eficiente no uso. Caiu a demanda, as fábricas reduziram as suas linhas de produção dessa seringa em especial e passaram (a produzir) outros tipos de seringa”, diz Bósio.
Segundo o diretor institucional da Abimo, devido à mudança no padrão de fabricação, é possível que haja um desabastecimento a larga escala para os municípios e estados que ainda utilizam as seringas para aplicação de insulina, mas, por enquanto, pode-se chamar de “falta regional”. A associação reforça, no entanto, que cabe ao Ministério da Saúde gerir a situação.
Por meio de nota, a pasta federal explicou que as seringas ofertadas no SUS são adquiridas e dispensadas por estados e municípios, “de acordo com as realidades locais e as necessidades de saúde da população. Diante de relatos dos entes federativos sobre dificuldades na aquisição desse insumo, o Ministério da Saúde está mapeando a situação atual do mercado para identificar as possíveis causas desse cenário”.
Já a SES-MG alega que as seringas são financiadas e fornecidas pelo SUS no âmbito do Componente Básico da Assistência Farmacêutica (CBAF), sendo responsabilidade do município a aquisição, armazenamento e entrega desses itens ao cidadão. No entanto, o estado elabora as Atas de Registro de Preços (ARP) e, de acordo com a SES, caso os municípios optem pela adesão à ARP, a responsabilidade pelas etapas de fornecimento e compra continua sendo do município.
A secretaria reafirmou que avalia outras marcas que possuam registros ativos e vigentes na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e atendam às especificações previstas no edital.
Perigo do desabastecimento
A escassez de seringas para a aplicação de insulina na rede pública de saúde acende um alerta sobre a continuidade do tratamento de pacientes, conforme avaliação da médica Silvana Pinheiro Neiva, presidente da regional mineira da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Segundo a especialista em endocrinologia e metabologia, embora a entidade não tenha recebido notificações formais sobre a falta do insumo por parte de gestores ou usuários, o desabastecimento é um problema extremamente grave, uma vez que a seringa e a agulha representam os únicos meios de administração da insulina no organismo.
A médica explica que o SUS opera com duas modalidades principais para a aplicação da medicação: as canetas reutilizáveis, nas quais são inseridos tubetes de insulina e acopladas agulhas específicas, e as seringas graduadas, utilizadas quando o fármaco é fornecido em frascos.
"No SUS em Minas Gerais, a maioria dos pacientes que usa a caneta reutilizável necessita apenas da agulha. Porém, o uso da seringa é indispensável nos casos em que o medicamento é distribuído em frascos ou quando o dispositivo reutilizável sofre avarias, quebra ou falha no funcionamento. Sem o insumo de aplicação, o paciente fica completamente impossibilitado de administrar a medicação", ressalta.
O maior risco decorrente da falta do material é a interrupção abrupta das doses diárias, o que pode levar ao descontrole da doença. “O paciente que fica sem esse meio de aplicação tem prejuízo no seu próprio tratamento e a maior preocupação da gente é que ele fique sem essa seringa e resolva não utilizar a insulina, o que é gravíssimo. E pode levar a uma descompensação da doença. A pessoa que usa insulina precisa de usar diariamente”, reforça a médica.
"A pessoa que depende de insulina precisa da aplicação diária. O medo principal é que o paciente, ao não encontrar a seringa no posto, simplesmente deixe de tomar a medicação. No caso do Diabetes Mellitus tipo 1, a ausência do hormônio pode desencadear a cetoacidose diabética, um quadro gravíssimo que exige hospitalização urgente e leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI)", alerta a presidente da SBD-MG.
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Silvana adverte ainda para os perigos da reutilização ou do compartilhamento do material entre pacientes. Segundo a presidente da SBD, a agulha da seringa perde a precisão e a funcionalidade após uma ou duas aplicações, e o reuso contínuo compromete a eficácia da medicação, causa lesões no tecido cutâneo e eleva o risco de infecções. Já o compartilhamento pode ocasionar a transmissão de doenças infecciosas graves.
