Tudão, na Savassi, é colocado à venda pelas proprietárias
Estabelecimento tem 46 anos de história: empresárias citam entraves impostos pela legislação municipal e mudança no público da região como pontos determinantes
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Mais um ponto tradicional da boemia de Belo Horizonte deve fechar as portas: o Tudão, que desde 1980 serve espetinhos na Rua Fernandes Tourinho, na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. As irmãs Marta Maria de Sousa, 69 anos, e Cleonilda Cristina de Souza, de 63, proprietárias da casa há cerca de 40 anos, estão "passando o ponto", como dizem os comerciantes: o comprador levará o local "de porteira fechada", em mais um jargão do ramo, o que significa que o negócio incluirá todos os equipamentos que tornam o estabelecimento apto a funcionar.
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As duas empresárias não revelam o valor pedido pela espeteria, mas afirmam que a compra "não será cara" e que não fazem quaisquer exigências quanto ao destino da casa. Caso o comprador queira, poderá manter o Tudão exatamente como está, inclusive com o nome já consolidado.
Se, por outro lado, o futuro proprietário preferir implantar um novo tipo de estabelecimento, tampouco haverá qualquer tipo de empecilho. Enquanto o negócio não é fechado, as irmãs seguem abrindo as portas: elas afirmam que têm Alvará de Funcionamento válido até 2033.
Diferentes razões são enumeradas pelas proprietárias como determinantes para a decisão de vender o Tudão, entre as quais a extensa rotina de trabalho, uma vez que o estabelecimento abre de terça a sábado, das 17h às 5h - e, até alguns anos atrás, a jornada era de segunda a segunda.
No entanto, destacam um motivo em particular: a legislação municipal de Belo Horizonte, que, segundo elas, impõe muitas restrições ao funcionamento de bares e restaurantes durante a madrugada. "A noite é muito pesada. E foi uma vida inteira de muita luta com a prefeitura", sintetiza Cleonilda.
Atualmente, o maior entrave, segundo as proprietárias, é a Portaria da Secretaria Municipal de Política Urbana (SMPU) n° 015, de 2024, que restringe o uso de mesas e cadeiras nas calçadas até as 23h. Esse horário pode ser estendido até 1 hora, mas não além. "À 1 hora da manhã você tem que recolher todas as mesas; você só pode atender os clientes em pé", descreve Marta.
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Para ela, essa determinação pode não inviabilizar estabelecimentos de outros gêneros, que vendem, por exemplo, sanduíches, os quais os consumidores têm maior facilidade em comer em pé ou em levá-los a outros locais. Porém, causa grandes impactos ao Tudão, que comercializa espetinhos, cujo consumo é bem mais cômodo nas acomodações de uma mesa.
A proprietária critica a falta de flexibilidade causada pela portaria, que limita as condições de funcionamento inclusive de estabelecimentos que mantêm o nível de ruído dentro dos limites estabelecidos pelo município. "Por causa de um negócio que não respeita, põe música alta, todos estão pagando o mesmo preço: todo mundo fechando uma hora da manhã," lamenta Marta.
De acordo com Marta, outro desafio é que, de tempos em tempos, são implementadas mudanças na legislação municipal, o que faz com que o estabelecimento tenha constantemente que fazer novas adequações. "Muitos anos atrás, a prefeitura existia banheiro masculino, banheiro feminino e banheiro para funcionários. E hoje está aí, todo mundo aberto, ninguém tem nada disso", exemplifica, destacando que, na época, o Tudão cumpriu com tal exigência.
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A empresária também menciona um episódio que vivenciou no passado, quando a fiscalização determinou a retirada de um televisor, que ficava afixado em uma das paredes internas, voltado para a clientela. "A prefeitura veio e falou que aquilo ali era o quê? Entretenimento; que era para eu tirar a televisão, que não podia ficar, que (o aparelho) atrai as pessoas para ficarem na porta. Então, é um absurdo", exemplifica.
Outra questão levantada por Marta é uma mudança, que teria ocorrido tanto nos comércios vizinhos quanto no público que frequenta a região, desde o período da pandemia de Covid-19. "As lojinhas pequenas que eram existentes aqui na Savassi, que eram boutiques, lojinha de bijuteria, lojinha de roupa, ninguém aguentou segurar aluguel durante o tempo que ficou fechado", lembra. "E aí veio o impacto financeiro e também o impacto social", prossegue. "Começou a descer gente vendendo droga, tudo que você puder imaginar", conclui.
Paralelamente, após a pandemia surgiram vários novos bares nos quarteirões seguintes da Rua Fernandes Tourinho, mas eles, de acordo com a proprietária, atraem um público bem mais jovem, diferente daquele que frequenta o Tudão. "Minha clientela não foi renovada para a turma jovem: são os mais velhos que preservam o meu bar", observa.
Marta afirma que pensou em fazer uma repaginação completa no Tudão, mas acabou desistindo por concluir que tal empreitada não valeria a pena. "Eu tenho condição de reformar a casa, mas seria a mesma coisa: se eu ponho 100 mil reais aqui, vou continuar com adolescentes e menores de idade transitando na minha porta, vendedores de drogas... Isso não é compatível com o meu público", avalia.
Longa trajetória
O Tudão foi fundado em 1980 por dois irmãos de Marta e Cleonilda. Elas assumiram o negócio cinco ou seis anos depois, quando um deles morreu e o outro preferiu se afastar. Ao longo de aproximadamente 40 anos à frente da casa, as duas colecionam histórias e curiosidades. "Meu bar sempre foi considerado tradição de Belo Horizonte, patrimônio da cidade", opina Marta.
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O trabalho trouxe, além de público e lucro, alguns reconhecimentos . "Nós já ganhamos seis ou sete prêmios da revista Veja como destaque. Eu tenho todos os quadrinhos guardados: a gente recebe o diploma, quando a gente ganha", destaca.
A proprietária relembra alguns clientes famosos que chegou a atender, entre os quais o cantor Fagner. "Já veio aqui umas três vezes. Entrava lá e lavava copo para ele", conta Marta. Entre outras personalidades que frequentaram a casa, estão o ator Daniel Oliveira e a jornalista Ana Paula Renault, que participa da atual edição do reality show BBB.
Devido a essa rica história, a decisão de vender o Tudão, segundo as empresárias, causa pesar. "O sentimento é ruim, porque são muitos anos. A casa é muito tradicional, são muitos amigos que nós fizemos", relata Cleonilda. "Tem um casal, marido e mulher, que, hoje, têm filhos rapazes que são nossos clientes", complementa.
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Apesar do sentimento de perda, Cleonilda já vislumbra novas possibilidades para o futuro comprador: "Aqui é um ponto maravilhoso. Para sanduíches, eu acho que a casa é perfeita", sugere. Marta também lamenta o fim da trajetória, sem, porém, hesitar a respeito da decisão: "é com tristeza que a gente fecha, que a gente sai. Mas eu desejo que quem entrar seja muito feliz e ganhe muito dinheiro", conclui.
Tradição não resiste à madrugada
Ao longo dos últimos anos, a capital mineira testemunhou o fechamento de estabelecimentos que, tal qual o Tudão, tinham grande tradição noturna. Em 2021, durante a pandemia de Covid-19, o restaurante La Greppia, que oferecia um famoso buffet de massas na Rua da Bahia, no Hipercentro, encerrou as atividades após 25 anos. Em 2025, a casa ressurgiu, mas em um formato diferente, comercializando pratos congelados.
Cerca de um ano depois, em 2022, ocorreu o fechamento de um restaurante com proposta parecida: o Paracone, na Avenida Brasil, no Bairro Santa Efigênia, também na Região Centro-Sul. Fundada em 1989, a casa chegou a operar 24 horas, mas restringiu o horário de funcionamento em 2010. Famoso pelas extensas opções em sistema self-service, o estabelecimento funciona atualmente apenas em formato de delivery.
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Em outubro do ano passado, foi a vez de mais um reduto da boemia belo-horizontina, com uma trajetória ainda mais longa, fechar as portas. O restaurante Bolão, na Praça Duque de Caxias, no Bairro Santa Tereza, na Região Leste, anunciou a interrupção temporária das atividades até a reinstalação em outro local, na mesma região. Pouco depois, em dezembro daquele ano, José Maria Rocha, criador da casa, morreu aos 73 anos.