Um temporal atingiu a Região Leste de Belo Horizonte (MG) na noite desse sábado (21/3) e causou queda de árvores, interdições no trânsito, pessoas ilhadas e muitas perdas. Uma pessoa morreu. A chuva também expôs um problema recorrente na região: o acúmulo de lixo nas ruas.
Três dias depois, no Bairro Horto Florestal, no cruzamento entre a Avenida Silviano Brandão e as ruas Conselheiro Rocha, Bragança e Pitangui, o cenário é de sujeira acumulada. Em cada esquina, moradores apontam a presença de materiais recicláveis, livros, lixo doméstico, carrinhos de supermercado e até uma cadeira abandonada.
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A chuva começou por volta das 17h e, em cerca de 15 minutos, a água subiu rapidamente, arrastando tudo pela frente. Na mesma velocidade com que avançou, também recuou, mas deixou para trás um rastro de destruição, prejuízos e lixo.
Foi nesse contexto que Helviane Moraes Maia, de 50 anos, morreu. Segundo o Corpo de Bombeiros, ela ficou presa em uma área com acúmulo de água e resíduos, próxima a um bueiro, e se afogou. A fatalidade aconteceu na avenida Silviano Brandão no bairro Horto.
De acordo com a prefeitura, na Região Leste choveu 48 mm, entre 16h45 e 17h45. As vias mais impactadas foram a Avenida Silviano Brandão e a Avenida Mem de Sá.
Moradores afirmam que o problema está longe de ser pontual e se arrasta há décadas na região. Logo após a chuva, equipes da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) atuaram durante a noite com 30 garis e quatro caminhões na retirada de resíduos, e os trabalhos ainda continuam.
A SLU detalha que a frequência de limpeza varia conforme o fluxo de pessoas, intensidade do tráfego e características das vias. Na Avenida Silviano Brandão, a varrição manual ocorre às segundas, quartas e sextas-feiras, enquanto a mecanizada é feita às quartas e sábados.
A coleta domiciliar e de entulho também ocorre nesses dias, no período noturno. Já na Rua Felipe Camarão, um dos pontos críticos, a varrição é quinzenal. O último atendimento foi em 23 de março, e o próximo está previsto para 6 de abril. Moradores afirmam que esse cronograma não atende à demanda e o lixo volta a se acumular já no dia seguinte à coleta.
Lixo, e muitos prejuízos
Funcionária de uma padaria na esquina da Avenida Silviano Brandão com a Rua Pitangui, a padeira Geovana Nogueira relata que a água invadiu o estabelecimento e ultrapassou a altura do joelho, causando prejuízos e evidenciando o problema do lixo.
“A água foi subindo, subindo, e quando parou de chover, baixou rápido, mas ficou só lixo. Deu pra ver que esse era o problema”, diz. Segundo ela, o acúmulo é constante e se intensifica durante a madrugada. “Aqui é uma região com muitos moradores de rua. Eles acabam trazendo lixo também. O caminhão passa de manhã e à noite, então de madrugada fica tudo acumulado”, afirma
A percepção é compartilhada por outros comerciantes da mesma avenida. Dono de uma papelaria há mais de 50 anos, José Carlos Paiva diz que o acúmulo de resíduos já faz parte da rotina e ajuda a explicar os alagamentos. "Aqui tem muito lixo. O pessoal pega comida, recicláveis, materiais de todo tipo, e joga tudo na rua. Isso vai enchendo os bueiros. Quando chove, não tem por onde a água escoar”, afirma.
A fala encontra eco no relato da comerciante Silesia Lenes, que também teve o estabelecimento atingido pela enchente e estima prejuízo de cerca de R$ 40 mil. “Tem muito lixo acumulado nas esquinas. A gente vê carrinho cheio o tempo todo. Isso se acumula e, quando chove, agrava os alagamentos”, diz. “Antes não era assim. De um tempo pra cá piorou muito”.
Situação de rua e vulnerabilidade
A presença de pessoas em situação de rua é visível na região e se concentra, principalmente, debaixo do viaduto próximo à Avenida Silviano Brandão. No local, é possível ver grupos que se aglomeram ao longo do dia e da noite, com carrinhos de supermercado, materiais recicláveis e pertences improvisados.
São pessoas que sobrevivem, em grande parte, da ajuda de moradores e comerciantes e da coleta de recicláveis, uma realidade marcada pela vulnerabilidade social.
Esse cenário é citado pelos entrevistados ora como parte da dinâmica que contribui para o acúmulo de resíduos, ora como reflexo de um problema social mais amplo e persistente. Segundo os moradores, parte dos materiais recolhidos é aproveitada, enquanto o restante acaba descartado nas próprias ruas, contribuindo para o acúmulo de lixo.
Helviane Moraes Maia, de 50 anos, também fazia parte dessa realidade. Conhecida de vista por moradores e comerciantes, vivia em situação de vulnerabilidade e circulava com frequência pela região. Durante o temporal, ela foi arrastada pela enxurrada e acabou presa em um ponto com grande acúmulo de lixo, onde se afogou.
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de Belo Horizonte afirma que a frequência da limpeza varia conforme fatores como fluxo de pessoas, intensidade do tráfego e características das vias, podendo ocorrer de forma diária, alternada, semanal ou quinzenal.
A administração municipal admite que, apesar de a limpeza ser feita regularmente, o serviço nem sempre tem sido suficiente diante do volume de descarte irregular. Segundo o município, há muitos pontos de deposição clandestina e, em alguns casos, novos resíduos são descartados logo após a atuação das equipes. “Às vezes, a equipe da SLU acaba de deixar o local e alguns cidadãos já descartam lixo e entulho naquela área limpa”, informou.
A capina é realizada, em média, a cada dois meses e meio, e a retirada de resíduos em pontos críticos ocorre em dias alternados. Durante o período chuvoso, equipes permanecem de plantão, inclusive aos fins de semana.
Sobre a população em situação de rua, o município informa que mantém equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS) atuando diariamente em todas as regionais. As ações incluem atendimento em saúde por meio dos Consultórios na Rua, acesso a Centros de Referência da população em situação de rua (Centro Pop), acolhimento institucional, programas de qualificação profissional, benefícios sociais e iniciativas de moradia, como o Bolsa Moradia.
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A prefeitura também destaca a atuação da rede de saúde mental, com Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAMs) e unidades especializadas em álcool e outras drogas, com funcionamento 24 horas.
