INDIGNAÇÃO

Juiz de Fora: empresa exige trabalho presencial, e funcionários protestam

Com 56 mortos e 4 mil desabrigados e desalojados, colaboradores enfrentam risco de vida para trabalhar e relatam ameaças de advertências e descontos

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Em meio ao estado de calamidade pública decretado após as chuvas que já deixaram 62 mortos e mais de 4,2 mil pessoas desabrigadas e desalojadas em Juiz de Fora, na Zona da Mata, funcionários da Cercred, empresa terceirizada que presta serviços de telemarketing à Caixa Econômica Federal, denunciam que continuam sendo obrigados a comparecer ao trabalho mesmo diante de alagamentos, deslizamentos e bloqueios na cidade.

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Ao Estado de Minas, duas funcionárias, que pediram anonimato por receio de represália, descrevem um ambiente de exaustão e pressão psicológica. “Aqui (na cidade) está um cenário de guerra. A gente não dorme à noite com medo de desabar. E, mesmo assim, precisa atender cliente com sorriso”, afirma uma delas.

Segundo as trabalhadoras, a empresa não suspendeu as atividades, apesar das dificuldades de deslocamento e dos riscos no entorno da unidade, na Zona Norte do município. Na região, córregos transbordaram, vias foram interditadas, e bairros inteiros ficaram alagados.

Ilhados no trabalho

Ainda segundo relatos, funcionários que encerraram o turno às 22h teriam permanecido dentro da empresa até a madrugada por falta de transporte. “Às 3h ainda estavam ilhados. O córrego atrás da empresa transbordou. Não passava ônibus, Uber, nada”, relata uma das entrevistadas.

Alguns trabalhadores só conseguiram chegar em casa por volta das 4h, precisando ir embora a pé sob uma chuva forte e pedindo carona a um ônibus de viagem que passou pelo local.

Ainda assim, no dia seguinte, teriam sido cobrados a cumprir normalmente a jornada. “Eles falam que, se faltar, vai ser analisado caso a caso. Mas a cidade inteira está em alerta. Como analisar caso a caso se todo mundo está passando pelo mesmo risco?”, questiona outra funcionária.

De acordo com os relatos, os supervisores informaram que advertências já estariam preparadas para quem não comparecer ao expediente. As funcionárias afirmam que a ameaça de demissão por justa causa é recorrente. “A gente brinca que o trabalho é análogo à escravidão. É brincadeira, mas é o sentimento que fica”, diz uma delas.

 

Medo, luto e pressão

As funcionárias também contaram sobre o impacto emocional que a negligência da empresa tem causado. Uma delas teria recebido a notícia da morte de um familiar durante o expediente e precisou deixar o local para reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal (IML). “Tem gente trabalhando chorando. As pessoas não sabem se a própria casa ainda está de pé”, declarou.

Segundo as trabalhadoras, os atendimentos aos clientes são monitorados e avaliados. Caso o operador não mantenha o padrão exigido, pode sofrer sanções que vão de advertência à suspensão. “Mesmo sem saber se a família está segura, você precisa manter tempo de atendimento, meta, postura. Tudo é medido.”

Elas também relatam dificuldades financeiras agravadas pela situação. Com parte das linhas de ônibus suspensas das cerca de 250 existentes na cidade, apenas 45 estariam operando  muitos funcionários recorreram ao transporte por aplicativo.

“Paguei R$ 70 de aplicativo de transporte em um dia. A empresa diz que pode ressarcir depois, mas ninguém tem dinheiro agora”, relata uma delas, explicando que o valor diário do transporte está sendo custeado pelos próprios empregados.

Há ainda queixas sobre atrasos salariais e pagamento fracionado de benefícios, o que, segundo os relatos, dificulta ainda mais arcar com custos extras em meio à crise.

As funcionárias também questionam a necessidade de manter a central de Juiz de Fora operando normalmente, já que outras unidades terceirizadas da Caixa Econômica Federal em diferentes estados poderiam absorver a demanda temporariamente. “Quando uma central cai, as outras assumem. Nenhum cliente ficaria sem atendimento”, argumenta uma delas.

Respostas

Procurada pela reportagem, a Caixa afirmou ter aberto uma apuração para verificar os fatos. Já o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações e Teleatendimento (Sinttel) relatou ter inúmeras reclamações a respeito da Cercred, empresa acusada pelos abusos.

"Já marcamos várias mediações do Ministério do Trabalho, várias tentativas de conversas com algum representante, porém, sempre 'escorregam', e o único contato que nos colocam é com uma funcionária CLT, advogada, que, quando retorna nossas mensagens, demora vários dias, ou nem retorna", afirmou Edgard Ranconi Rego, diretor e coordenador do sindicato em Juiz de Fora. "São muitas reclamações. A respeito de mais essa, mandei mensagem à responsável, que ainda não me retornou", completou.

Em nota, a Cercred disse que, desde 24 deste mês, um dia após o início das chuvas, adotou medidas para manter a segurança dos funcionários. Segundo a empresa, nenhum colaborador foi obrigado a trabalhar. E relatou ainda que todos os operários foram informados que faltas e atrasos por dificuldade de deslocamento seriam "tratados com compreensão".

A empresa também declarou que nenhuma sanção disciplinar foi aplicada durante o período de calamidade. A Cercred se comprometeu a apurar e tomar medidas cabíveis por qualquer funcionário que tenha se sentido lesado pela situação.

Enquanto isso, trabalhadores seguem divididos entre o medo de perder o emprego e o receio de enfrentar ruas alagadas e encostas instáveis. “A qualquer momento pode acontecer uma tragédia maior. A gente só queria um posicionamento claro e respeito à nossa segurança”, resume uma das funcionárias.

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*Estagiária sob supervisão dos subeditores Gabriel Felice e Thiago Prata

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