Juiz de Fora: empresa exige trabalho presencial e funcionários protestam
Com 56 mortos e 4 mil desabrigados e desalojados, trabalhadores relatam ameaças, descontos e jornadas em meio a alagamentos e deslizamentos
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Em meio ao estado de calamidade pública decretado após as chuvas que já deixaram 56 mortos e mais de 4,2 mil pessoas desabrigadas e desalojadas, funcionários da Cercred, empresa terceirizada que presta serviços de telemarketing à Caixa Econômica Federal, denunciam que continuam sendo obrigados a comparecer ao trabalho mesmo diante de alagamentos, deslizamentos e bloqueios em diversas regiões de Juiz de Fora (MG), na Zona da Mata.
Em relatos à reportagem, duas funcionárias, que pediram anonimato por medo de represálias, descrevem um ambiente de exaustão, medo e pressão psicológica. “Aqui (na cidade) está um cenário de guerra. A gente não dorme à noite com medo de desabar. E, mesmo assim, precisa atender cliente com sorriso na voz”, afirma uma delas.
Segundo as trabalhadoras, a empresa não suspendeu as atividades, apesar das dificuldades de deslocamento e dos riscos no entorno da unidade, localizada na Zona Norte da cidade. Na região, córregos transbordaram, vias foram interditadas e bairros inteiros ficaram alagados.
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Ilhados no trabalho
Ainda segundo relatos, funcionários que encerraram o turno às 22h teriam permanecido dentro da empresa até a madrugada por falta de transporte. “Às 3h ainda estavam ilhados. O córrego atrás da empresa transbordou. Não passava ônibus, não passava Uber, não passava nada”, relata uma das entrevistadas.
Alguns trabalhadores só conseguiram chegar em casa por volta das 4h da manhã, precisando ir embora a pé sob uma chuva forte e pedindo carona a um ônibus de viagem que passou pelo local.
Ainda assim, no dia seguinte, teriam sido cobrados a cumprir normalmente a jornada. “Eles falam que, se faltar, vai ser analisado caso a caso. Mas a cidade inteira está em alerta. Como analisar caso a caso se todo mundo está passando pelo mesmo risco?”, questiona outra funcionária.
De acordo com os relatos, os supervisores informaram que advertências já estariam preparadas para quem não comparecer ao expediente. As trabalhadoras afirmam que a ameaça de demissão por justa causa é recorrente. “A gente brinca que o trabalho é análogo à escravidão. É brincadeira, mas é o sentimento que fica”, diz uma delas.
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Medo, luto e pressão
As entrevistadas também contaram sobre o impacto emocional que a negligência da empresa tem causado. Uma funcionária teria recebido a notícia da morte de um familiar durante o expediente e precisou deixar o local para reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal (IML). “Tem gente trabalhando chorando. As pessoas não sabem se a própria casa ainda está de pé”, afirma.
Segundo as trabalhadoras, os atendimentos aos clientes são monitorados e avaliados. Caso o operador não mantenha o padrão exigido, pode sofrer sanções que vão de advertência à suspensão. “Mesmo sem saber se a família está segura, você precisa manter tempo de atendimento, meta, postura. Tudo é medido”.
Elas também relatam dificuldades financeiras agravadas pela situação. Com parte das linhas de ônibus suspensas -- das cerca de 250 existentes na cidade, apenas 45 estariam operando --, muitos funcionários recorreram ao transporte por aplicativo.
“Paguei R$ 70 de Uber em um dia. A empresa diz que pode ressarcir depois, mas ninguém tem dinheiro agora”, afirma uma delas, explicando que o valor diário do transporte está sendo custeado pelos próprios empregados.
Há ainda queixas sobre atrasos salariais e pagamento fracionado de benefícios, o que, segundo os relatos, dificulta ainda mais arcar com custos extras em meio à crise.
As funcionárias também questionam a necessidade de manter a central de Juiz de Fora operando normalmente, já que outras unidades terceirizadas da Caixa Econômica Federal em diferentes estados poderiam absorver a demanda temporariamente. “Quando uma central cai, as outras assumem. Nenhum cliente ficaria sem atendimento”, argumenta uma delas.
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Ausência de respostas
Procurada pela reportagem, a Caixa afirmou ter aberto uma apuração para verificar os fatos. A Cercred, empresa acusada pelos abusos aos funcionários e o Sinttel (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações e Teleatendimento) não responderam sobre o caso até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
Enquanto isso, trabalhadores seguem divididos entre o medo de perder o emprego e o receio de enfrentar ruas alagadas e encostas instáveis. “A qualquer momento pode acontecer uma tragédia maior. A gente só queria um posicionamento claro e respeito à nossa segurança”, resume uma das funcionárias.
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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice