A guerra entre facções criminosas que disputam o tráfico de drogas nas regiões da Vila Cemig e Conjunto Esperança traz pânico e muda a rotina de moradores e pessoas que precisam passar pelo região próxima ao bairro Flávio Marques Lisboa, no Barreiro, em Belo Horizonte (MG).
As áreas mais complicadas são as de entrada do bairro. Segundo contou ao Estado de Minas um morador da região, que não será identificado por questões de segurança, a entrada principal está sendo vigiada. É por lá que os moradores e transeuntes precisam seguir as orientações que circulam nas redes sociais para quando chegam ao bairro de carro.
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“Qualquer carro que entrar na Vila Cemig deve 'abaixar' o farol e acender a luz interna. Quem não seguir esse procedimento será visto como ameaça e será monitorado. Moradores do conjunto, se puderem evitar nossa comunidade, evite”, diz a mensagem.
Na manhã desta terça-feira (20/1), uma coletora de lixo foi o alvo. Conforme relatou o morador, um caminhão da SLU entrou no bairro de vidros fechados, quebrando a ordem e, por consequência, foi visto como ameaça. “Colocaram a arma na cara da coletora”, contou a fonte. Segundo ela, as ruas estão mais vazias e os comércios estão fechando mais cedo.
Conforme apurado pela reportagem, a Rua Graúnas, que dá acesso a três entradas para a Vila Cemig, está sendo monitorada, bem como a Rua Pavão que corta a divisa entre as comunidades. Em uma ocasião, foi relatado uma situação em que motoristas de ônibus precisaram abandonar os coletivos por medo de tiros que estavam sendo disparados — tiros estes que são feitos em diversos momentos do dia, mantendo a população apreensiva. No trecho há a Escola Municipal Dinorah Magalhães Fabri, no meio entre a Vila e o Conjunto. Ao EM, uma moradora afirmou que teme quando o período de aulas voltar: “Essa é minha preocupação: as crianças e os moradores nesse fogo cruzado”.
Quem também teve a rotina alterada foram trabalhadores e pacientes do Centro de Saúde da Vila Cemig. Na segunda-feira (19/1), as visitas foram suspensas. Já na terça (20), funcionários que precisaram se deslocar para fora do posto e precisariam voltar para bater ponto foram instruídos a não retornarem mediante “risco no território”, minutos após um tiroteio ser ouvido.
Tensão para motoristas de aplicativo
Um motorista de aplicativo relatou à reportagem que, nos últimos dias, precisou fazer três corridas entre o Conjunto Esperança e a Vila Cemig e percebeu a mudança nos “trâmites”. Ele contou que, em uma dessas ocasiões, aceitou fazer um bate-e-volta: buscou uma passageira de fora da Vila Cemig para que ela pudesse buscar a filha na casa de uma familiar e sair.
“Chegando lá, os caras mandaram eu parar o carro e perguntaram quem eu era. Eu falei ‘É Uber, é Uber’ e me mandaram abaixar os vidros e acender a luz de dentro. Depois disso, falaram que ‘é norma da favela, mas que tudo bem eu entrar assim’”, contou.
O profissional contou que não viu nenhuma arma com as pessoas que o abordaram, mas que não duvida que havia armamento escondido. “O pessoal da Vila Cemig é mais ‘avacalhado’, sempre teve esse tipo de ‘auê’, com épocas que depois de 18 horas não ficava ninguém mais na rua, mas isso na hora de entrar é a primeira vez”, relatou.
Já outro contou que fez corridas na região durante o fim de semana, antes da guerra “estourar”. Segundo ele, a região estava tranquila, mas, depois que ficou sabendo do conflito, não vai passar por lá tão cedo. É o caso de outra profissional, motorista mulher, que também esteve em contato com a reportagem. Ela, que compartilha da mesma profissão com o marido, descobriu sobre a situação pelo Instagram e estabeleceu uma regra na casa: “Nós não vamos passar por lá, não estamos aceitando corrida pra lá. É melhor tomarmos cuidado, eu estou com medo”, relatou.
Mudança em linhas de ônibus
Duas linhas de ônibus que circulam pela região tiveram os itinerários alterados a partir de segunda-feira: a 332 (Estação Barreiro/Milionários - Bonsucesso) e a 319 (Vila Cemig/Conjunto Esperança). Em nota, a Superintendência de Mobilidade (Sumob) informou que cartazes informativos serão afixados na Estação Barreiro para orientar os passageiros. Em um deles, é vista a mensagem: “Atenção usuários: por motivos de segurança, a linha 332 não estará atendendo o Conjunto Esperança”.
O órgão destacou ainda que a Polícia Militar foi acionada para garantir as condições de segurança e avaliar o retorno dos itinerários originais assim que possível.
Escalada de tensão
Em 4 de dezembro, um ataque a tiros resultou na morte de duas pessoas e em 11 feridas durante uma confraternização em uma quadra do bairro Flávio Marques. Os atiradores chegaram ao local em um carro e duas motocicletas, com uniformes da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). Desde então, vários tiroteios foram registrados nas comunidades. Investigações da polícia idicam que o ataque foi uma retaliação de integrantes da facção Comando Vermelho (CV) contra membros da facção rival, o Terceiro Comando Puro (TCP), cujos integrantes são conhecidos como "traficrentes".
Já em 2026, no dia 11 de janeiro, um homem morreu depois de ser baleado na Vila Cemig. Segundo a Polícia Militar, a vítima não era o alvo dos tiros. No último domingo (18/1), outro episódio reforçou o clima de insegurança: um homem de 32 anos foi preso após atirar dentro de uma padaria no Bairro Esperança, ferindo um adolescente de 17 anos e um homem de 41 anos.
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Na noite dessa segunda-feira, uma operação da Polícia Militar na Praça Aquário resultou na prisão e apreensão de quatro suspeitos, depois de um ataque a tiros contra um homem. Durante a ação, os policiais apreenderam armas de fogo, drogas e uma motocicleta com registro de furto. Um dos envolvidos apresentava escoriações, mas recusou atendimento médico. Os suspeitos, com idades de 16, 17, 22 e 24 anos, foram levados à Delegacia de Polícia Civil e devem responder por tentativa de homicídio, tráfico de drogas e receptação.
