Um novo tempo na luta e nas campanhas contra a dengue, doença que, nos últimos dois anos, acometeu 8,1 milhões de brasileiros, com 8 mil mortes. Na manhã deste sábado (17), em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, houve o lançamento nacional da Campanha de Vacinação contra a Dengue (dose única, fato inédito no mundo, contra os quatro tipos de vírus), sendo aplicadas as primeiras doses da vacina 100% nacional desenvolvida pelo Instituto Butantan. O público alvo inicial são as pessoas na faixa etária de 15 a 59 anos.

Segundo o Ministério da Saúde, 204,1 mil doses serão distribuídas, na primeira etapa, em três municípios: Nova Lima (MG), 64 mil; Botucatu (SP), 80 mil; e Maranguape (CE), 60,1 mil. O quantitativo é suficiente para a vacinação em massa da população alvo nessas cidades e faz parte das 1,3 milhão de doses produzidas pelo Instituto Butantan. "É um dia histórico para a saúde pública no Brasil. Temos uma vacina 100% nacional e segura para conter a doença. Se vacinarmos 50% da população, a doença para de circular", disse o diretor do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, Eder Gatti. A vacinação nos três municípios será fundamental para nortear as próximas etapas no país, ressaltou Gatti.

Para o público de 10 a 14 anos, continua sendo ofertada a vacina japonesa, com esquema de duas doses. Inicialmente disponibilizada para municípios 2,7 mil prioritários, a vacina agora está disponível em todo o país, nos mais de 5 mil municípios. Em fevereiro, serão vacinados funcionários do Ministério da Saúde, com previsão, no segundo semestre, de imunização de cerca de 60 milhões de pessoas.

EM MINAS

A iniciativa marca nova etapa no enfrentamento à doença, em Minas, e faz parte de um estudo piloto nacional que avalia o impacto da imunização de mais de 50% da população em curto intervalo de tempo.

A escolha de Nova Lima como cidade piloto foi definida de forma conjunta pela Fiocruz Minas, pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) com base em critérios técnicos e epidemiológicos. A iniciativa também permitirá testar estratégias logísticas para subsidiar a futura ampliação da vacinação em outros municípios.

Presente ao lançamento da campanha, o vice-governador Mateus Simões, de 44 anos e residente há 10 anos em Nova Lima, foi vacinado. Ele, que nunca teve dengue, destacou a importância da tecnologia nacional para produção do imunizante e o trabalho desenvolvido no estado, inclusive com uso de drones para localização de criadouros do mosquito e aplicação de larvicidas.

Para o prefeito de Nova Lima, João Marcelo Dieguez Pereira, também imunizado com a primeira dose, a população responde bem às campanhas de vacinação. A exemplo de Gatti, ele conclamou a população a continuar vigilante para evitar os criadouros e proliferação do mosquito "Aedes aegypti", transmissor da dengue e de outras doenças.



A vacinação

Eram 8h e já havia fila na porta da Unidade Básica de Saúde (UBS) Paula Fernandes Villela, na Vila São Luiz. Condutor de veículo de urgência, Valter Tavares de Oliveira, de 53, casado, e que tem dois filhos, lembrou dos problemas decorrentes da doença. "Dói até piscar o olho", afirmou. Os filhos não foram à UBS por motivo de viagem, enquanto a esposa, que fez quimioterapia e radioterapia para tratamento contra o câncer, precisará de autorização do seu médico.

Satisfeita, a estudante de fisioterapia, Rafaela Diniz, de 23, considera a vacina necessária. "Tive dengue e precisei me ausentar das aulas, pois estudo em BH. Os sintomas da doença são muito fortes", disse.

DOSE ÚNICA

A Butantan-DV, vacina da dengue do Instituto Butantan, órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, foi aprovada em 26 de novembro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser utilizada na população brasileira de 12 a 59 anos. Com o parecer favorável, o imunizante, o primeiro contra dengue em dose única no mundo, deverá ser incluído no Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Em 2024, o Brasil registrou 6,5 milhões de casos prováveis de dengue – quatro vezes mais do que em 2023, de acordo com o Ministério da Saúde. Em 2025, até meados de novembro, foram notificados 1,6 milhão de casos prováveis. Desde o começo dos anos 2000, mais de 20 milhões de brasileiros já foram acometidos pela doença.

A aprovação da vacina foi sustentada pelos resultados de cinco anos de acompanhamento dos voluntários do ensaio clínico de fase 3 encaminhados à Anvisa. No público de 12 a 59 anos, o imunizante mostrou 74,7% de eficácia geral, 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme e 100% de eficácia contra hospitalizações por dengue. O estudo, conduzido entre 2016 e 2024, avaliou a Butantan-DV em mais de 16 mil voluntários residentes de 14 estados brasileiros.

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Composto pelos quatro sorotipos do vírus da dengue, o imunizante se mostrou seguro e eficaz tanto em pessoas com infecção prévia como naquelas que nunca tiveram contato com o patógeno. A maioria das reações foi leve a moderada, sendo as principais dor e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça e fadiga. Eventos adversos sérios relacionados à vacina foram raros e todas as pessoas se recuperaram.

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